Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revelam uma relação de profunda intimidade e troca de favores com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
O conteúdo das conversas, divulgado em reportagem da revista Veja, contradiz diretamente a versão sustentada pelo senador, que chegou a afirmar a colegas parlamentares que sequer conhecia o empresário.
Os registros mostram que o contato entre os dois envolvia desde juras de fidelidade e convites para festas privadas — indicando a presença de mulheres trazidas do exterior — até pedidos de Alcolumbre para identificar fontes de jornalistas e articulações de bastidores envolvendo a cúpula da República.
“Sou seu irmão”: os diálogos entre o senador e o banqueiro
Um dos trechos mais reveladores ocorreu em 1º de fevereiro de 2025, dia em que Davi Alcolumbre foi eleito presidente do Senado pela segunda vez.
Após receber uma mensagem de felicitações de Vorcaro desejando sucesso no comando da Casa, o senador respondeu com afeto.
“Fala meu amor. Muito obrigado por tudo, em especial pelo seu carinho e amizade fraterna! Sou seu irmão. Pra vida toda”, afirmou Alcolumbre.
Daniel Vorcaro (acompanhado de cinco emojis de coração) disse:
“E eu seu. A qualquer tempo pra qualquer coisa. Nunca vou esquecer”.
Em outra troca de mensagens recuperada pelos investigadores, Vorcaro aciona o presidente do Congresso para cobrar andamento sobre um assunto de interesse mútuo:
- Daniel Vorcaro: “Fala irmaozao! Se tiver notícias do nosso amigo me chame! Abraçao”.
- Davi Alcolumbre: “Estou em Cima!!! Pressão!!!”.
O acervo da Polícia Federal também registra conversas de janeiro de 2025 nas quais o próprio senador recorre ao dono do Banco Master para tentar descobrir a fonte de uma repórter que havia publicado informações sobre ele.
Festas privadas, “Grupo Macallan” e código para o STF
A reportagem da Veja mostra ainda que as mensagens apontam que a estratégia de Vorcaro para aproximar autoridades dos Três Poderes envolvia a organização de eventos de luxo e festas privadas com o auxílio do ex-ministro das Comunicações, Fábio Faria.
Fábio Faria foi ministro das Comunicações durante o governo de Jair BolsonaroFoto: Governo Federal/ND MaisEm um grupo de WhatsApp batizado de “Macallan” — referência à marca de uísque escocês —, o banqueiro e o ex-ministro combinaram detalhes de um encontro voltado a atender Alcolumbre, com a presença de mulheres trazidas da Europa:
- Daniel Vorcaro: “Aquela de 3 metros estará la, Fabio”.
- Fábio Faria: “A dupla né. Foda que o Davi aprendeu a falar pelo Google tradutor e pode assustar a menina”.
- Daniel Vorcaro: “Kkkkkk. Bonde do tigrão”.
Em conversa direta com Alcolumbre, Vorcaro enviou o endereço do evento e orientou o parlamentar. “Me avisem a hora que chegam. Vao cedo. Traje todo preto pra festa”.
Nos bastidores, porém, os próprios organizadores faziam piadas sobre o comportamento do senador nos eventos.
“Davi Alcolumbre de mochila bile (sic) com canudo com vodka”, escreveu o interlocutor Luiz Rennó em mensagem encaminhada por Vorcaro, enquanto Faria ironizou que “Davi falou q esta com dança nova”.
Evento em Londres reuniu autoridades
Em abril de 2024, período que também ocorreu um fórum jurídico em Londres que contou com a presença de Alcolumbre (então presidente da CCJ do Senado), Vorcaro desembolsou R$ 3 milhões para patrocinar uma degustação de uísque Macallan.
O evento reuniu os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
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Imagem extraída do celular de Vorcaro mostra Paulo Gonet em noitada com Daniel Vorcaro. – Reprodução/ND Mais
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Alexandre Moraes durante julgamento da Primeira Turma do STF de denúncia sobre o núcleo 1 da Pet 12.100. – Antonio Augusto/STF/Reprodução/ND Mais
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Dias Toffoli, STF – Rosinei Coutinho/STF/ND Mais
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Andrei Rodrigues chegou a ser afastado da direção-geral da Polícia Federal por decisão de André Mendonça, do STF – Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Conforme revelado pela Veja, dias antes da viagem ao Reino Unido, em 28 de março de 2024, Vorcaro demonstrou receio com o vazamento de uma festa paralela com mulheres contratadas para entreter convidados.
Fábio Faria sugeriu então reservar suítes em outro hotel para manter o sigilo e mencionou um acordo com Alcolumbre envolvendo Alexandre de Moraes — tratado nos diálogos pelo codinome “careca”:
- Daniel Vorcaro: “To achando que não vai dar pra fazer off la viu. To com receio. Foda que tem nego que ta indo so pra isso ne kkkk”.
- Fábio Faria: “Daquele jeito da. Fazemos pros caras e ficamos de boa. E depois vamos pra um menor. Pegar uma suíte em outro hotel. Deixa umas 4 lá”.
- Fábio Faria: “E fazemos um pacto com Davi q só pode falar pro careca”.
Trânsito no Banco Central e menção a Hugo Motta
Os registros extraídos pela PF revelados pela revista mostram ainda a articulação de Vorcaro com a cúpula do Legislativo durante momentos críticos para o Banco Master.
Em 17 de julho de 2025, quando o Banco Central (BC) travou a venda do Master para o Banco de Brasília (BRB), o banqueiro procurou o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, relatando não ter conseguido falar com Alcolumbre para saber o desfecho de uma reunião decisiva na autarquia.
Às 20h55 daquele dia, Hugo Motta respondeu a Vorcaro confirmando a ponte direta entre o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o presidente do Senado:
“Galípolo ficou de ir lá para casa de Davi quando encerrasse a reunião. Eu tava decolando quando Davi me ligou para dizer isso”.
Blindagem no Senado e suspeita de US$ 30 milhões
A divulgação das conversas pode explicar a atuação de Davi Alcolumbre frente as investigações parlamentares sobre o caso Master.
Veja destaca na reportagem que em maio de 2026, Alcolumbre utilizou manobras regimentais para impedir a instalação da CPI do Banco Master, alegando publicamente que “esse assunto não pode ser o prioritário neste momento”.
O presidente do Senado ainda teria recusado a responder ofícios sobre a entrada de Vorcaro na Casa e negou à PF a lista de visitantes do gabinete do senador Jaques Wagner (PT-BA), investigado sob suspeita de recebimento de propina.
Elo no Amapá, reduto eleitoral de Alcolumbre
As apurações apontaram negócios suspeitos do Banco Master com a Amprev (fundo de previdência dos servidores do Amapá), entidade que tinha o irmão de Alcolumbre no conselho e o ex-tesoureiro de sua campanha na presidência.
Em junho, a defesa de Vorcaro apresentou à PF uma proposta de delação premiada (posteriormente recusada) na qual prometia detalhar o repasse de US$ 30 milhões a Alcolumbre em uma conta secreta no exterior.
Na esfera judicial, o ministro do STF Cristiano Zanin negou, na quarta-feira (23), um recurso que pedia a instalação obrigatória da CPI, sob o argumento de que não houve comprovação de omissão por parte de Alcolumbre.
Por outro lado, o ministro Luiz Fux abriu prazo para que o presidente do Congresso se manifeste sobre uma ação do partido Novo que exige a divulgação dos registros de entrada e saída de Vorcaro no Senado.
O que dizem os citados
À época em que vieram à tona as informações sobre a proposta de delação premiada de US$ 30 milhões, Davi Alcolumbre classificou as acusações como falsas e afirmou a senadores que não conhecia Daniel Vorcaro.
O Portal ND Mais tenta contato com o presidente do Senado para manifestação diante dos diálogos revelados.
Já o ex-ministro Fábio Faria enviou nota oficial à revista Veja negando que as mensagens sobre reservas de suítes em Londres tivessem relação com o presidente do Senado ou com festas privadas.



