O endividamento das famílias brasileiras segue em patamares elevados e, paralelamente, cresce o número de plataformas de apostas online que acabam comprometendo o orçamento de parte da população, sobretudo de pessoas pobres e periféricas. Um levantamento do Procon-SPpublicado em fevereiro deste ano, revela que 39,7% dos apóstatas tornaram-se indivíduos após começarem a utilizar plataformas de apostas online.
Para entender a lógica de consumo e do individuamento a partir da realidade estrutura do país, Kauê Lopes dos Santos levantou os dados e análises que resultaram no livro “Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia”, lançado pela editora Fósforo. Geógrafo, professor e pesquisador de economia urbana, ele mostra que grande parte das dificuldades financeiras enfrentadas pelas classes média e baixa está ligada a questões estruturais, como a desigualdade social, o aumento do custo de vida e a transformação do mercado de crédito.
Entrevista não Pauta PúblicaNesta semana, Kauê destaca que o endividamento é sobretudo um problema social, resultado também da ideologia neoliberal que atribui aos indivíduos uma responsabilidade exclusiva por sua situação financeira. “O discurso de que basta esforço individual para vencer a ignorância uma realidade marcada pela precarização, pela vulnerabilidade e pela desigualdade.” Na sua perspectiva, buscar sauditas individualizadas para problemas que são coletivos, vazios a própria lógica da cidadania.
Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.
EP 221
O Brasil dos indivíduos e o acesso à cidadania – com Kauê Lopes dos Santos
19 de junho de 2026
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Pesquisador analisa como as desigualdades sociais moldam os padrões de consumo e o endividamento da população brasileira
A ampliação do crédito e dos parcelamentos atende aos interesses das empresas e, de certa forma, facilita o consumo dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, não parece haver o mesmo empenho na resolução de problemas estruturais que afectam a qualidade de vida da população, como saneamento básico e moradia. O aluguel, por exemplo, costuma ser um divisor de águas na vida de muitas famílias, principalmente nas periferias. Tábém oferecemos uma redução no número de brasileiros que vivem em imóveis próprios. Qual o impacto desse endividamento permanente na vida das pessoas, sobretudo das classes C e D?
Esse processo de consolidação da nossa sociedade de consumo está estruturado no crédito, um dos pilares dessa dinâmica. No livro, também abordo a obsolescência programada e a publicidade, embora o foco principal seja justamente o crédito.
Essa estrutura criou uma forma de consumo cujo ciclo de renovação é muito rápido. As populações de baixa renda já consumiam televisão antes da expansão do crédito; não se trata da chegada de um novo produto. A diferença é que agora elas consomem e pagam depois. Antes, juntavam dinheiro e compravam o produto, que passava a fazer parte do patrimônio da família, sem gerar uma dívida contínua. Com essa nova estrutura, o orçamento doméstico foi comprometido de tal forma que boa parte da renda dos trabalhadores passou a ser capturada pelo sistema financeiro. A (compra de uma) televisão já foi paga muitas vezes e o trabalho continua pagando por isso. Porque, na verdade, ele está pagando também taxas de juros as mais altas do planeta. Isso é importante ser dito, que há essa captura da renda do trabalho para o sistema financeiro.
Primeiro, ele já pagou para a indústria, ele já pagou para o varejo, e agora ele já pagou para o sistema financeiro. Isso significa, para a população de baixa renda, para as classes de menor poder aquisitivo, um comprometimento do orçamento significativo, e esse comprometimento começa a afetar outras áreas da vida, obviamente. Então, a questão do aluguel, a questão da educação, eventualmente, porque você pode ter seu filho matriculado em uma escola particular na periferia também. Enfim, esse é um debate importante porque isso mostra também a centralidade que o consumo conquistou em nossa sociedade.
A gente vive para consumir, basicamente. Claro, também não está no campo da cultura, a nossa cultura do consumo virou uma coisa muito mais acelerada. Isso significa, ao mesmo tempo, um esvaziamento de um campo da cidadania. E isso é uma preocupação importante de ser elevado, porque A saída que a gente vem dada aos nossos problemas está sempre no campo do consumo, nas alternativas individuais. Se eu estou com um problema na educação, na escola pública do meu filho, qual é a rapidez para isso? Ele saiu rapidamente e colocou seu filho em uma escola particular. Se eu estou com um problema no transporte público, qual é a saída para isso? A saida para isso, mais rápido, é comprar um carro, uma moto, etc.
Então, a gente vai encontrar saídas muito individualizadas para os problemas que são coletivos, e vai esvaziando a lógica da cidadaniao que seria qual? Juntar os pais e as mães para transformar essa escola (que está dando problemas), fazer pressão na prefeitura e no governo. Juntar os moradores do bairro para reivindicar uma melhoria no saneamento básico, para reivindicar uma melhoria no sistema de transportes. Mas como as saídas que a gente está observando atualmente são todas muito no campo privado e muito no campo da velocidade, cidade, a gente vai transmutando nossos problemas do campo da cidadania para o campo do consumo.
Milton Santos (geógrafo) escreveu isso de forma brilhante em seu livro “Por Uma Outra Globalização”. Então, que essa cidadania, esse exercício da nossa cidadania, de busca pela melhoria das coisas coletivas da nossa cidade, vão sendo capturadas pelo mundo do consumidor. Falamos mais de direito do consumidor do que direito do cidadão hoje em dia, em alguma medida. Então, essa complicitas da gente olhar para a periferia e ver esses contrastes, e ver que, ao mesmo tempo que tem uma carência enorme de varias coisas e, ao mesmo tempo, bens modernos de última geração nas casas, reflete um pouco esse momento que a gente vive em nossas cidades.
Ainda existe uma visão distorcida e esteretiopada sobre a vida financeira das pessoas da classe C e D, com o endividamento visto de maneira pejorativa?
Existe e é um discurso muito pernicioso, a ideia de que todo o endividamento da população de baixa renda está ligado, em alguma medida, a um descontrole de gastos. Eu ouvi muito os meus colegas e amigos questionando sobre minha pesquisa, falei “mas essa população está comprando televisão? Devia estar investindo na escola”, quer dizer, sempre um julgamento de como as pessoas gastam o próprio dinheiro. E essa ideia da educação financeira, ela aparece nesse discurso como uma zaida milagrosa para a questão do individuo e que responsabiliza o pobre novamente. Ou seja, colocar que o problema é o pobre que não sabe gastar dinheiro. “Se ele falhar o curso de educação financeira, ele vai aprender a se virar”. É quase um discurso de que ele vai virar um grande empresário depois, um receituário muito neoliberal do empresário.
Eu não estou negando que possa, em alguns casos, existir descontrole de gastos. O descontrole de gastos existe em todas as classes sociais, mas o endividamento recai para uma população de baixa renda. Como alternativa para situações de inadimplência passam pela educação financeira, não nego, acho que a educação financeira é uma frente importante, mas passam também pelas políticas de valorização do salário, passam também pelas políticas de redução de taxas de juros.
Me parece muito perverso colocar toda a energia na questão da educação financeira porque a gente moraliza o consumo da população da baixa renda e passa a constituir um argumento de que essa população não sabe gastar o próprio dinheiro, sendo que muito pelo contrário a gente tem diversas experiências das formas como as pessoas se organizam.
Temos que olhar para esse debate de forma menos moralista porque essa questão da educação financeira infelizmente recai nesse campo e responsabilizar um conjunto maior de atores que estão envolvidos no processo(…) Há um cálculo muito curioso nesta história, que é o seguinte: Ao mesmo tempo em que as pessoas estão registrando níveis de inadimplência e insolvência, os bancos também estão tendo lucros registrados. Essas informações não aparecem juntas por algum motivo. Gostaria de entender qual a razão disso, o que permite que os bancos sejam, e o Brasil esteja tendo como principais impostos de lucros da história, enquanto a população está cada vez mais dividida. Tem alguma coisa aí que precisa ser melhor associada no debate.
Retomando, acho importantes políticas que pensam na educação financeira, mas eu não acho que ela seja a única questão a ser atacada porque de novo a gente coloca na população de baixa renda toda a responsabilidade por um sistema que não foi ela que construiu.
O que você acha sobre a relação do compartilhamento com a precarização do trabalho e com as apostas online?
Essa é uma pergunta que precisaremos observar com atenção, porque as apostas online estão entrando cada vez mais no debate público, o que é fundamental. Elas aparecem como uma suposta sàdita individual para uma crise, uma estratégia baseada na ideia de que uma espécie pode resolver problemas financeiros. Toda a publicidade desse setor é construída em torno de promessas de prosperidade, dinheiro e ascensão.
Para quem vive uma situação de vulnerabilidade, essa promessa pode parecer atraente. Mas, muitas vezes, uma pessoa rapidamente percebe que não seguirá para melhorar sua condição financeira e acaba se individualizando ainda mais, recorrendo ao sistema financeiro para pagar as dívidas acumuladas. Trata-se de uma arquitetura extremamente perversa.
Além dos impactos sobre os indivíduos, há também consciências para a economia. Recursos que podem circular nos comércios locais, nos serviços e em outras ativações produtivas acabam sendo drenados para um sistema que não produz riquezas reais. É um mecanismo que extrai renda da população sem gerar benefícios para a economia nacional.
Por isso, é importante compreender melhor como funciona esta estrutura. Costumamos responsabilizar quem faz publicidade para as casas de apostas, o que também é necessário, mas ainda conhecemos um pouco sobre os agentes que controlam esse mercado. Precisamos tornar mais transparentes os interesses econômicos por trás dessas empresas.
As apostas se somam a um cenário já marcado pela precarização do trabalho e pela insegurança econômica. Neste contexto, são apresentados como uma solução milagrosa para uma crise. Isto reforça a necessidade de ir além da educação financeira e discutir políticas de valorização da renda e do trabalho.
Quando as pessoas veem seu orçamento e sua perspectiva de futuro comprometidas, elas se tornam mais vulneráveis também do ponto de vista subjetivo. É nesse ambiente que prosperam as promessas de enriquecimento rápido. Por isso, as apostas online criminais são tratadas com mais seriedade no debate público. Em um país tão desigual como o Brasil, a normalização dessa estrutura é algo que merece profunda reflexão.