Você sabe o que é comunicação responsiva? Por que é tão difícil ouvir alguém que pensa diferente? Em períodos eleitorais e nas redes sociais, divergências podem se transformar em conflitos e ataques pessoais. Para o professor Lucas Nascimento, aprender a lidar com opiniões contrárias é parte importante da formação humana e da convivência em sociedade. Em entrevista ao MD News, o especialista em Linguística, Discurso e Argumentação fala sobre o papel da educação, a influência das redes sociais e atitudes que ajudam a melhorar o diálogo e a ter uma melhor comunicação responsiva.
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MD News: Por que é tão difícil aceitar opiniões diferentes das nossas, principalmente em períodos eleitorais?
Lucas Nascimento: Muitas vezes, antes mesmo de ouvir alguém, já associamos essa pessoa a um grupo político, como direita, esquerda ou centro. As ideias que temos sobre esses grupos influenciam nossa disposição para aceitar ou rejeitar o que o outro diz. Quando nos sentimos contrariados, podemos interpretar a divergência como uma ameaça à nossa identidade e ao grupo ao qual pertencemos. Em períodos eleitorais, esse comportamento se intensifica, e o adversário deixa de ser alguém que pensa diferente para se tornar um inimigo. Precisamos reconhecer essa reação automática e estar dispostos a dialogar.
MD News: Como podemos discordar de alguém sem transformar a conversa em uma briga?
Lucas Nascimento: Um dos segredos é entender que discordar não significa destruir o outro. Quando somos contrariados, podemos reagir com um ataque imediato ou nos calar, guardando ressentimento. A comunicação responsiva propõe uma pausa antes de responder. Respirar e contar até seis pode ajudar a frear o impulso. Também precisamos compreender a natureza do conflito: se é um desentendimento pontual, um problema recorrente ou uma situação que já compromete a confiança e o respeito. Essa avaliação ajuda a escolher a melhor maneira de conduzir a conversa.
MD News: O que significa transformar um conflito em uma oportunidade de aprendizado?
Lucas Nascimento: Significa abandonar a ideia de que precisamos vencer uma discussão ou impor nossa razão a qualquer custo. Em vez de procurar um vencedor e um perdedor, devemos buscar caminhos que contribuam para a relação e para o bem comum. Mesmo em uma divergência acalorada, podem existir pontos de acordo que não conseguimos enxergar naquele momento. Precisamos procurar esses pontos em comum, compreender as motivações do outro e questionar nossas próprias certezas. Assim, o conflito pode nos ajudar a reconhecer limites da nossa perspectiva e a amadurecer.
Lucas Nascimento: Crianças e adolescentes aprendem muito mais observando os adultos do que ouvindo discursos. Se um adulto reage com gritos, ironias ou autoritarismo sempre que é contrariado, transmite a ideia de que discordar é algo perigoso. É importante ensinar a escutar, reconhecer os próprios sentimentos e fazer uma pausa antes de reagir. Também devemos incentivar os jovens a justificar suas opiniões com argumentos coerentes. Mudar de ideia diante de um fato novo não é sinal de fraqueza, mas de maturidade.
MD News: Como a escola pode trabalhar o respeito às diferenças sem impedir que os alunos expressem o que pensam?
Lucas Nascimento: A escola precisa ser um espaço seguro para o diálogo e para o aprendizado da divergência democrática. O aluno tem o direito de expressar sua opinião, mas precisa aprender que a liberdade de expressão não dá direito de agredir ou desqualificar um colega. A argumentação não deve ficar restrita às aulas de Linguagens, mas ser trabalhada em todas as disciplinas. Quando os professores incentivam os estudantes a fundamentar suas ideias em evidências, empatia e respeito, a divergência pode contribuir para o pensamento crítico, em vez de provocar intimidação ou silenciamento.

MD News: Nas redes sociais, as pessoas parecem ter cada vez menos paciência para ouvir opiniões contrárias. Por que isso acontece?
Lucas Nascimento: As redes sociais funcionam em uma lógica que pode recompensar a polarização, a polêmica e o cancelamento. Muitas pessoas públicas e influenciadores utilizam o conflito para conquistar atenção, seguidores, prestígio e até ganhos financeiros. Além disso, a distância proporcionada pela tela pode criar uma falsa sensação de impunidade. Com isso, o debate deixa de ter como objetivo compreender ou convencer quem está do outro lado e passa a buscar a aprovação de quem já concorda conosco.
MD News: Como identificar quando uma discussão deixou de ser saudável e passou a ser uma troca de ofensas?
Lucas Nascimento: O principal sinal é quando o foco deixa de ser as ideias e passa a ser a pessoa. Enquanto discutimos argumentos, dados, contextos e valores, o conflito pode ser produtivo. Mas, quando surgem rótulos depreciativos, generalizações maldosas, ironias ofensivas e tentativas de prejudicar a reputação do outro, o diálogo dá lugar à agressividade. Perceber essa mudança é importante para evitar que a discussão se transforme em uma sequência de ataques.
MD News: É possível mudar de opinião depois de ouvir bons argumentos? Por que temos tanta dificuldade em reconhecer que estamos errados?
Lucas Nascimento: Mudar de opinião é possível, mas exige coragem. Muitas vezes, nosso ego nos leva a defender a ideia de que estamos sempre certos. Quando um argumento contraria uma crença nossa, podemos interpretar isso como uma derrota ou uma humilhação. A dificuldade também está relacionada ao medo de perder a aprovação do grupo ao qual pertencemos. Reconhecer um erro exige maturidade para entender que nossas opiniões não definem tudo o que somos. Crescer também significa ser capaz de pensar melhor hoje do que pensávamos ontem.
MD News: Que atitudes simples podemos adotar no dia a dia para melhorar nossa comunicação e evitar conflitos?
Lucas Nascimento: A primeira é fazer uma pausa antes de responder a uma provocação. Respirar fundo e contar até seis pode ajudar a recuperar o controle sobre o impulso. A segunda é substituir acusações por perguntas que permitam compreender o ponto de vista do outro. Em vez de dizer “você nunca me ouve”, podemos perguntar: “Como você enxergou o que eu disse?”. Também é importante reconhecer sinais de irritação, como ironias, comentários indiretos e ressentimentos. Identificar esses comportamentos antes que se intensifiquem ajuda a evitar conflitos maiores.
MD News: Qual é o papel da leitura no desenvolvimento do pensamento crítico e na capacidade de compreender opiniões diferentes?
Lucas Nascimento: A leitura de bons livros e textos ajuda a ampliar nossa visão de mundo. Uma obra bem construída nos convida a conhecer a perspectiva de outra pessoa, compreender seus argumentos e refletir sobre suas contradições. Esse exercício desenvolve nossa capacidade de interpretar e nos torna mais preparados para olhar para quem pensa diferente com curiosidade, em vez de rejeição imediata. Isso vale tanto para livros de não ficção quanto para obras literárias, que nos colocam em contato com a diversidade das experiências humanas.
MD News: Que conselho o senhor daria para quem deseja aprender a ter uma Comunicação Responsiva e a dialogar melhor com pessoas que pensam de maneira diferente?
Lucas Nascimento: Antes de entrar em uma conversa difícil, pergunte a si mesmo: “Estou falando para vencer uma discussão ou para construir uma relação?”. É importante ter coragem para expressar o que pensa sem arrogância e humildade para ouvir o outro. Podemos discordar sem agredir e dizer o que precisa ser dito de maneira inteligente, firme e ética. Essa é a proposta da comunicação responsiva.
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