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Editorial: A morte de peixes não é falta de alerta

A mortandade de peixes registrada em rios e áreas costeiras da Grande Florianópolis recentemente não pode ser tratada como um episódio isolado ou fruto exclusivo de condições naturais.

Ainda que as análises preliminares apontem para a floração de microalgas e a consequente redução de oxigênio na água, os próprios estudos indicam que há fatores estruturais por trás do problema, e eles são conhecidos há anos.

Quando a água chega a níveis críticos de oxigenação, a ponto de causar morte em massa de espécies, o que se vê na superfície é apenas o sintoma de um desequilíbrio mais profundo.

A presença excessiva de matéria orgânica, associada à deficiência histórica em saneamento básico, aparece como um dos principais gatilhos desse processo. Some-se a isso o impacto de ondas de calor e eventos climáticos cada vez mais intensos, e o cenário se torna ainda mais preocupante.

Não é por falta de alerta. Casos semelhantes vêm sendo registrados com frequência crescente na região metropolitana, atingindo diferentes rios e até áreas de praia. A repetição dos episódios desmonta qualquer tentativa de tratá-los como eventos pontuais. Há um padrão, e padrões exigem resposta estruturada.

A atuação dos órgãos ambientais, com monitoramento, coleta de amostras e limpeza das áreas afetadas, é necessária, mas insuficiente se não vier acompanhada de ações preventivas e investimentos consistentes.

É preciso enfrentar o problema na origem: ampliar e qualificar o saneamento, fiscalizar o lançamento irregular de efluentes e garantir que os sistemas existentes funcionem adequadamente, sem falhas.

Além disso, a gestão dos recursos hídricos precisa ser integrada e contínua, considerando não apenas os períodos de crise, mas o comportamento dos ecossistemas ao longo do tempo. Manguezais, rios e baías são ambientes sensíveis, que reagem rapidamente à pressão urbana desordenada.

Os relatos de pescadores reforçam o impacto direto sobre a economia local e a segurança alimentar. A morte de espécies como a manjuba não afeta apenas um elo da cadeia, mas compromete todo o equilíbrio do ecossistema e, por consequência, a atividade pesqueira.

Mais do que respostas técnicas, o momento exige vontade política e compromisso com soluções de longo prazo. Ignorar os sinais é aceitar que cenas como as registradas nas últimas semanas se tornem rotina. E naturalizar a morte de rios e peixes é, em última instância, aceitar a degradação da própria qualidade de vida na região.

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