O mercado de pagamentos no Brasil atravessa sua transformação mais profunda desde a chegada do chip, e a Visa decidiu que a melhor forma de liderar esse futuro era criando sua própria “concorrente” interna. Batizada de Visa Conecta, a nova empresa opera de forma independente para explorar as oportunidades de pagamentos e do Open Finance, permitindo que a gigante global transacione valores sem que o usuário precise, necessariamente, de um cartão plástico ou digital.
Para Frederico Succi, Vice-Presidente de Produtos e Inovação da Visa no Brasil, a separação estrutural foi feita para garantir que a inovação não fosse prejudicada por processos antigos. “A primeira coisa que você tem que entender é: a gente está falando de uma coisa que tem 0% a ver com o negócio tradicional da Visa. Não corre nenhum trilho pré-existente da Visa. A gente está construindo um negócio completamente novo”, afirma o executivo.
O foco inicial da operação está em resolver a “fricção” do Pix no e-commerce e em serviços conversacionais. Atualmente, o usuário precisa alternar entre aplicativos e copiar códigos, um processo que a Visa Conecta elimina ao atuar como Iniciadora de Pagamentos (ITP). De acordo com Succi, a experiência se torna quase instantânea. “A Visa Conecta usa uma licença de Open Finance do Banco Central, a gente inicia o pagamento em seu nome. Você seleciona Pix por biometria, digita seu CPF, abre uma tela, reconhece por biometria e pagou. Você não precisa ir para o aplicativo do banco. É sem redirecionamento, essa é a fricção que não tem mais”, explica.
Um exemplo prático dessa aplicação é a parceria recente com a VaideBus, voltada para o transporte público. Através de um canal no WhatsApp, o passageiro recarrega seu cartão de transporte usando o Pix via biometria, sem sair da conversa. Succi destaca que esse movimento coloca a Visa de volta em um jogo onde o Pix parecia uma ameaça. “De certa forma, olhando para o negócio da Visa como um todo, você entra de volta com força num jogo que inicialmente te ameaçou. E outra coisa, é onde o consumidor está hoje. O negócio da Visa não é cartão de crédito. É transferência, movimentação, facilitar a movimentação financeira entre comércios e compradores”, defende.
Apesar de a estratégia parecer óbvia diante da digitalização, o executivo admite que o projeto enfrentou desafios internos por desafiar o status quo da companhia. “Vou dizer que não teve anticorpos dentro da Visa? Claro que teve. Por isso que é uma empresa separada”, revela Succi. Agora, o modelo “made in Brazil” começa a ser observado de perto pela matriz global. “O que está acontecendo é que os outros mercados estão vindo ver o que a gente está fazendo aqui para replicar. A experiência que a gente está tendo com a Visa Conecta está sendo exportada porque agora isso começa a ser discutido em outros países da Europa e da Ásia”, conclui o executivo.