A renovação do Senado para 2027 não significa apenas a troca de 54 das 81 cadeiras da Casa.
O resultado das urnas levou à Casa um grupo de parlamentares e lideranças políticas que chegam com trajetórias construídas na Câmara, em governos estaduais, na oposição e no entorno do bolsonarismo.
Entre os nomes com maior projeção entre os eleitos para o Senado estão o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF), o ex-vereador Carlos Bolsonaro (PL-SC), a ex-presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Carol de Toni (PL-SC), o deputado Gustavo Gayer (PL-GO), além de Sanderson (PL-RS), Marcel Van Hattem (Novo-RS), Evair de Melo (Republicanos-ES), Filipe Barros (PL-PR) e Deltan Dallagnol (Novo-PR).
O grupo se junta a senadores que já têm espaço consolidado na Casa, como Rogério Marinho (PL-RN), Tereza Cristina (PP-MS), Davi Alcolumbre (União-AP) e Eduardo Gomes (PL-TO).
Ao todo, 54 das 81 cadeiras foram disputadas em 2026.
Quarenta serão ocupadas por novos senadores e 14 por parlamentares que conseguiram a reeleição. O PL foi o partido que mais elegeu candidatos, com 19 das vagas em disputa, e aparece com uma bancada projetada de 28 senadores para 2027.
Arthur Lira leva experiência da Câmara para o Senado
Arthur Lira é um dos nomes que chegam à nova legislatura com maior experiência de articulação no Congresso Nacional.
Eleito senador por Alagoas pelo PP, Lira foi deputado federal por quatro mandatos e presidiu a Câmara dos Deputados entre 2021 e o início de 2025. Nesse período, tornou-se uma das principais lideranças de negociação do Centrão e teve papel central na formação de maiorias para votações de interesse do governo e do próprio Congresso.
Na eleição deste domingo, Lira foi o mais votado em Alagoas e derrotou o senador Renan Calheiros, seu adversário político, que deixa a Casa após 32 anos de atuação. O resultado coloca no Senado um parlamentar acostumado a negociar diretamente com governos e bancadas.
Michelle Bolsonaro (PL)Foto: @michellebolsonaro/InstagramMichelle Bolsonaro: de primeira-dama a senadora mais votada do DF
Michelle Bolsonaro também está entre os nomes de maior projeção da nova bancada.
Ex-primeira-dama e ex-presidente do PL Mulher, ela foi eleita a senadora mais votada pelo Distrito Federal pelo PL com 938,5 mil votos.
Será seu primeiro mandato eletivo. A vitória coloca no Senado uma das principais figuras políticas ligadas ao bolsonarismo fora do núcleo parlamentar que já atua no Congresso Nacional.
Michelle ocupará uma das duas cadeiras conquistadas pelo PL no DF, ao lado de Bia Kicis e Damares Alves (Republicanos), eleita em 2022, e que permanece com mandato até 2031. As três senadoras do DF integram a ala feminina mais conservadora, com pautas ligadas a costumes e direitos humanos.
O resultado também produziu uma situação inédita: pela primeira vez, os três senadores de uma unidade da Federação serão mulheres.
Carlos Bolsonaro: 24 anos na política do Rio antes de chegar ao Senado
Carlos Bolsonaro chega ao Senado com uma característica diferente de Michelle: uma longa trajetória eleitoral.
Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Carlos foi vereador do Rio de Janeiro por sete mandatos consecutivos, entre 2001 e 2025. Em 2025, deixou a Câmara Municipal carioca e transferiu o domicílio eleitoral para Santa Catarina, onde foi eleito senador pelo PL neste domingo.
Será seu primeiro mandato no Senado, mas não sua estreia na política institucional. A chegada de Carlos amplia no Congresso a presença direta da família Bolsonaro e coloca na Casa um parlamentar identificado com o núcleo político do ex-presidente.
Carol De Toni e Carlos Bolsonaro reforçam ala bolsonarista no Senado FederalFoto: Reprodução/ND MaisCarol de Toni: na CCJ, colocou limites ao STF no centro da pauta
Carol de Toni chega ao Senado depois de comandar, em 2024, a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara, um dos principais espaços de análise de propostas constitucionais e jurídicas do Congresso.
Foi a primeira deputada de Santa Catarina a presidir o colegiado.
Durante sua gestão, a relação entre Congresso e Supremo Tribunal Federal ganhou espaço central na agenda da comissão. Em setembro de 2024, a CCJ iniciou a discussão da PEC 8/2021, que estabelece limites para decisões monocráticas de ministros do STF e de outros tribunais superiores.
Carol também colocou em pauta a PEC 28/2024, que previa a possibilidade de o Congresso sustar decisões do Supremo, além da PEC 8/2021. As propostas integraram o conjunto de medidas que buscavam ampliar o poder de reação do Legislativo diante de decisões da Corte.
A atuação na CCJ deu à deputada protagonismo justamente em uma das principais disputas institucionais entre Congresso e STF nos últimos anos.
Agora, eleita senadora, Carol de Toni leva essa experiência para uma Casa que tem entre suas atribuições a análise de indicações para o Supremo e o julgamento de ministros da Corte por crimes de responsabilidade.
Gustavo Gayer leva a força das redes para o Senado
O deputado Gustavo Gayer (PL-GO) chega ao Senado depois de construir uma carreira política fortemente associada às redes sociais e à oposição ao governo federal.
Deputado federal desde 2023, Gayer foi vice-líder da Oposição e líder da Minoria na Câmara. O Senado destaca ainda sua projeção anterior como comunicador de conteúdo digital e seu forte engajamento nas redes.
Eleito em Goiás ao lado de Gracinha Caiado (União), Gayer leva para a nova legislatura uma base política própria e uma atuação identificada com o campo bolsonarista.
Sanderson: do comando da Segurança Pública da Câmara para o Senado
No Rio Grande do Sul, Sanderson (PL) foi eleito senador ao lado de Marcel Van Hattem (Novo). Os dois tiveram uma disputa praticamente empatada: Sanderson terminou com 30,11% dos votos válidos, contra 30,08% de Van Hattem.
Deputado federal em segundo mandato, Sanderson passou 23 anos na Polícia Federal e chegou a presidir o sindicato dos policiais federais do Rio Grande do Sul.
Na Câmara, presidiu a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, onde ganhou protagonismo na área.
Segurança pública, combate ao crime organizado e à corrupção, valorização das forças policiais e direito ao acesso às armas estão entre suas principais bandeiras. A chegada ao Senado deve ampliar a presença dessas pautas na bancada gaúcha.
Marcel Van Hattem mantém perfil de oposição
Marcel Van Hattem (Novo) também chega ao Senado com uma trajetória já consolidada na política nacional.
Ex-deputado federal e ex-vereador, ele ganhou projeção no campo da oposição e tem atuação crítica ao governo federal e ao Supremo Tribunal Federal.
A eleição no Rio Grande do Sul colocou Van Hattem ao lado de Sanderson, formando uma bancada que tende a ter forte presença do campo da direita na nova composição da Casa.
Marcel é um dos parlamentares que critica o que muitos classificam hoje como “ativismo judicial” do STF e abuso de autoridade. Também foi autor de pedido de CPI para investigar abuso de autoridade de ministros na Câmara.
Filipe Barros será o senador mais jovem
Filipe Barros (PL-PR) chega ao Senado aos 35 anos e, segundo o Senado, será o parlamentar mais jovem a ocupar uma cadeira na Casa desde 1903.
Antes da eleição, exerceu dois mandatos como deputado federal pelo Paraná e também foi vereador de Londrina. Também foi líder da oposição na Câmara e presidiu a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional.
Barros chega ao Senado identificado com a direita e já sinalizou que pretende atuar em temas relacionados ao Judiciário. Em entrevista à TV Senado após a eleição, destacou a defesa de uma reforma do Judiciário e a intenção de ampliar o protagonismo do Paraná nas decisões da Casa.
Evair de Melo leva pauta do agronegócio
Evair de Melo (Republicanos-ES) chega ao Senado depois de três mandatos como deputado federal.
A trajetória anterior inclui a direção do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), a presidência do Conselho Nacional dos Sistemas Estaduais de Pesquisa Agropecuária e atuação como secretário municipal de Agricultura e Meio Ambiente.
No Congresso, sua atuação é ligada principalmente à agricultura, ao cooperativismo, ao direito de propriedade e à segurança jurídica no campo. A eleição o coloca entre os nomes com potencial de representar o setor produtivo e o agronegócio nas negociações da nova legislatura.
O que esse novo grupo representa no Senado
Os novos senadores não formam um bloco único, mas parte significativa dos nomes que chegam com maior projeção está ligada à direita e à oposição ao governo Lula.
No PL, essa presença inclui Michelle Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Carol de Toni, Gustavo Gayer, Sanderson e Filipe Barros, entre outros. O Novo também terá Marcel Van Hattem, enquanto Evair de Melo representará o Republicanos.
O peso político desses parlamentares, porém, não dependerá apenas da votação que receberam. A disputa por cargos de liderança, presidência de comissões, relatorias e pela própria Presidência do Senado será determinante para saber quem efetivamente transformará capital eleitoral em poder dentro da Casa.
Lideranças experientes continuam no jogo
A renovação no Senado, no entanto, não elimina os antigos protagonistas na Casa Alta.
Rogério Marinho (PL-RN) permanece no Senado até 2031 e é o atual líder da oposição. Tereza Cristina (PP-MS), também com mandato até 2031, ocupa a liderança do PP na Casa. Davi Alcolumbre (União-AP) continua senador e é o atual presidente do Senado até fevereiro de 2027. Eduardo Gomes (PL-TO), por sua vez, foi reeleito neste domingo.
É da combinação entre essas lideranças experientes e os novos nomes com forte capital político que deverá sair a correlação de forças do Senado a partir de fevereiro de 2027.
A maior bancada do PL não garante, sozinha, o controle da Casa. Mas amplia o poder de negociação do partido e coloca a legenda no centro das disputas por comando, relatorias e formação de maiorias no novo Senado.