O Departamento de Justiça dos Estados Unidos prendeu, nesta quinta-feira (23), o sargento do Exército Gannon Ken Van Dyke, de 38 anos, sob a acusação de usar informações ultrassecretas para lucrar em mercados de apostas on-line. Van Dyke, baseado em Fort Bragg, teria apostado no sucesso da missão militar que capturou Nicolás Maduro, obtendo um retorno de quase 410 mil dólares (cerca de R$ 2,3 milhões) a partir de um investimento inicial de 33 mil dólares.
Aposta na “Missão Caracas”
Van Dyke participou diretamente do planejamento e execução da operação militar que resultou na captura de Maduro, na madrugada de 3 de janeiro de 2026. Mesmo tendo assinado acordos de confidencialidade, o sargento começou a realizar apostas na plataforma Polymarket em 27 de dezembro, dias antes da invasão.
Ao todo, foram 13 apostas em contratos binários (“sim ou não”) que questionavam:
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Se os EUA enviariam tropas à Venezuela;
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Se Maduro seria deposto até 31 de janeiro;
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Se Donald Trump invocaria poderes de guerra contra Caracas.
Após a conclusão da operação, o militar transferiu os lucros para uma carteira de criptomoedas no exterior e tentou apagar seus rastros pedindo a exclusão de seu perfil na plataforma.
Trump critica “mundo cassino”
Questionado por jornalistas, o presidente Donald Trump afirmou que investigará o caso, mas aproveitou para criticar o fenômeno das apostas em eventos reais. “O mundo inteiro, infelizmente, se transformou em algo parecido com um cassino”, declarou. “Nunca fui muito entusiasta disso. Não gosto conceitualmente.”
A ironia reside no fato de que o governo Trump tem adotado uma postura liberal em relação a esses mercados. O atual presidente da CFTC (órgão regulador), Michael Selig, classificou esses mercados como “produtos emocionantes”, e Donald Trump Jr., filho do presidente, possui investimentos multimilionários na Polymarket.
Um mercado sob suspeita
O caso de Van Dyke não é isolado e acende um alerta sobre o uso de informação privilegiada (insider trading) em plataformas de previsão. Recentemente, outros episódios levantaram suspeitas:
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Janeiro de 2026: Apostadores lucraram alto ao preverem o tempo exato (menos de 65 minutos) de uma coletiva da secretária de imprensa Karoline Leavitt.
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Abril de 2026: Cinquenta contas novas apostaram em um cessar-fogo entre EUA e Irã minutos antes do anúncio oficial de Trump.
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Israel: Um reservista da Força Aérea israelense foi acusado de apostar no horário exato dos ataques contra usinas nucleares iranianas.
Pressão no Congresso
A sucessão de escândalos levou o Congresso americano a reagir. O senador democrata Chris Murphy apresentou a lei “BETS OFF”, que visa proibir apostas sobre guerras, mortes ou ações governamentais. “Os mercados de previsão não podem se tornar um incentivo para o vazamento de segredos de Estado ou para a manipulação de operações militares”, defendem os parlamentares.
Van Dyke agora enfrenta acusações de fraude eletrônica, transação monetária ilegal e violações da Lei de Intercâmbio de Mercadorias. Se condenado, as penas somadas podem chegar a décadas de prisão. O caso será julgado em Manhattan pela juíza Margaret M. Garnett.
O que é a Polymarket?
É uma plataforma de mercado de previsões onde usuários compram e vendem contratos sobre o desfecho de eventos reais (política, esportes, ciência). Avaliada em 9,6 bilhões de dólares, a plataforma utiliza criptomoedas e opera de forma anônima em sua versão internacional. Tornou-se famosa em 2024 ao prever o resultado das eleições americanas com mais precisão do que as pesquisas tradicionais.