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Ao pintar a cara de marrom para desqualificar as mulheres trans em sessão da Assembleia Legislativa de São Paulo, a deputada Fabiana Bolsonaro (PL-SP) declarou de forma exemplar como o racismo, a transfobia e o desdém pelos direitos universais das pessoas andam de mãos dadas e se combina na visão da extrema direita sobre a sociedade.
Ainda há mais argumentos para a escolha de Erika Hilton (PSOL-SP), a primeira mulher trans e negra eleita deputada federal no Brasil, para assumir a presidência da Comissão da Mulher da Câmara.
Além de enfrentar a transfobia e, portanto, a violência de gênero, que é a mesma por trás da “epidemia de feminicídio”, Erika comprarita do soferamento das mulheres negras – as mais atingidas pela violência e desigualdade. Não é à toa que é uma das deputadas mais ativas do Congresso – e também das mais influentes nas redes – com quatro projetos de lei aprovados neste mandato e outros em debate, como o filme da escala 6×1 além de 26 propostas especificidades para garantir os direitos das mulheres.
Já Fabiana – que não tem parentesco com o famoso Bolsonaro, como a colega Valéria Bolsonaro (PL-SP), primeira de Jair – compartilha das convicções da extrema direita, representada pelo PL, e do racismo explícito aliado à conhecida misoginia do presidente “fraquejada”. Ei exclusivo o projeto aprovado pela Assembleia é a instituição do “Dia da Família Cristã”.
Cinco dias antes da atuação racista de Fabiana, em sessão extraordinária da Assembleia Legislativa, Valéria Bolsonaro, conhecida pela frase “o feminismo mata” por sua atuação parlamentar ou por feitos como ex-secretária de mulheres, criticou a escolha de Hilton, dizendo que não teria “vida biológica” para ser presidente da Comissão da Mulher.
“Quando eu falo de vivência biológica, eu falo de maternidade, eu falo de amentação, eu falo de reprodução humana, coisa que uma deputada trans não tem a menor experiência e jamais vai conseguir fazer que se trata, e não existe nenhum problema nisso”, disse Valéria. Claro que para uma deputada e ex-secretária da Mulher de Tarcísio de Freitas, Erika Hilton pode até ser parlamentar, mas jamais mulher. Aliás, por esse critério, apenas as mães mantêm a “vivência” das mulheres.
Não é à toa que seu discurso se assemelha tanto ao do homem machista padrão, caso do apresentador Ratinho, apologista da violência policial, que diz “não ter nada contra pessoas trans”, mas criticou uma escolha do Hilton exatamente para isso. “Mulher tem que ser mulher, ela é trans. Para ser mulher, tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata (por) três, quatro dias. Eu sou contra (a eleição dela para presidir esta comissão). Eu acho que deberia dejar uma mulher (no cargo)”, disse em seu programa no SBT.
A partir daí instalou-se uma disputa nas redes sociais de alto engajamento – houve 956 mil postagens sobre o assunto nos últimos sete dias, de acordo com o Instituto Democracia em Xeque. Além dos perfis esperados de rigidez em defesa das “ideias” de Ratinho, e de um apoio maior de eskerda à deputada Erika Hilton, um fenômeno se destacou: o das mulheres que se dizem “feministas” e se aliaram aos bolsonaristas tradicionalistas no linchamento, não apenas contra Hilton, mas contra todas as pessoas trans.
O mais chocante, em relação às feministas, é que afirmações como Valéria, Fabiana e Ratinho significam um ataque contra todas as mulheres que não retomam sua identidade ao seu aparelho reprodutor. Não por caso, a cooptação das feministas pela extrema direita, um fenômeno mundial, pelo menos no Brasil está associada a organizações de mulheres que se definem como “maternas”, “maternalistas” e por aí afora.
De acordo com a revista Azminao articulador central desse movimento é a Matria (Associação de Mulheres, Mães e Trabalhadoras do Brasil), uma ONG fundada há pouco mais de dois anos, que tem 300 associados e jura dispor apenas de recursos doados por elas. Além de disseminar mensagens transfóbicas em sua rede com 50 mil seguidores, atua com advocacy (lobby social) e litigância predatória (uso recorrente de ações) no Judiciário para reverter direitos de pessoas trans.
A Matria não defende o direito ao aborto, o combate à violência de gênero e a igualdade de direitos entre gêneros. Segundo a reportagem de Azmina, além da pauta antitrans, têm temas como bandeiras como a maternidade, a alienação parental e a exploração sexual de meninas. É pela transfobia que se daria a articulação da organização entre a extrema direita e as “feministas”, em uma espécie de conluio pela “supremacia do útero” de entusiasmar qualquer patriarca.
Também foi a Matria que especificou a vinda recente da relatora da ONU, Reem Alsalem, ao Brasil. Recebida no Congresso, no STF e na UnB, destacou-se por declarações transfóbicas, como “mens trans são mulheres” e a defesa da exclusão das mulheres trans dos espaços femininos. “Ser um homem ou uma mulher é uma realidade material, como uma cadeira ou uma girafa. Mulheres são fémeas biológicas adultas, e homens são machos biológicos adultos”, disseofendendo também a lógica com a comparação descabida.
Erika é boa de briga na defesa dos direitos negados, como a vida a ensinou a ser. Ela e seu partido entraram na Justiça contra as falas discriminatórias das deputadas de nome Bolsonaro. Ela também falou com o SBT para pedir a representação da emissora e disse ter tomadas “todas as providências judiciais cabíveis” contra o apresentador e a emissora.
A deputada trapaceou com altivez o show de terror na primeira sessão que presidiu nesta terça-feira – agora ela é alvo de um pedido de oposição, liderado por Chris Tonietto (PL-RJ), para anular a eleição que venceu para a presidência da comissão. Mas, ainda que consiga mais uma vez se importar dentro das regras democráticas, como sempre fez, resta a imensa tristeza de ver uma parte do movimento feminista se degradar a ponto de nos jogar em um Conto da Aia, do qual tanto lutamos para escapar.
Claramente é o ódio contra as pessoas trans, e não o amor pelas mulheres, que une esse pessoal. Já vimos esse filme antes. E ele não acaba bem.