Três educadoras, da rede municipal de Itanhaém, estão entre as selecionadas em todo o Brasil pelo Edital de Boas Práticas do Programa Literatura Atlântica, do Instituto Coral Vivo. A premiação acontece no Rio de Janeiro, nos dias 6 e 7 novembro.
Siga a Prefeitura de Itanhaém no Instagram, no Facebook, no Twitter, no Youtube e no Flickr
Se tem alguém que carrega histórias capazes de transformar vidas, são as professoras. Todos os anos, elas passam por diferentes histórias, acompanham descobertas, enfrentam desafios e ajudam crianças a enxergar possibilidades que, muitas vezes, elas ainda não conseguem nem imaginar.
É assim que a professora Fabiula Berti guarda uma de suas histórias mais marcantes. Há alguns anos, ela foi até a casa de um aluno, morador do Baixio e filho de pescadores, para convencê-lo a voltar para a escola. Para o menino, aprender a pescar e ajudar a família era suficiente. Fabiula insistiu.
Naquele ano, ele foi alfabetizado. No fim do período, ao escrever uma carta para o Papai Noel, revelou um novo sonho, além de pescador, queria ser biólogo marinho.
A professora nunca soube se ele conseguiu seguir esse caminho, mas guarda a lembrança como uma das provas de que a educação pode ampliar horizontes. “Tenho certeza de que ele abriu seus horizontes e enxergou novas possibilidades”, conta Fabiula, professora da rede municipal desde 1999.
Agora, é a própria professora quem vai atravessar novos horizontes. Fabiula é da EM Leonor Mendes Barros e é uma das professoras que estará no Rio de Janeiro. Com ela, estarão as professoras Kelva Aires, também da EM Leonor e Bárbara Suelen, da EM Luiz Gonzaga.
As experiências desenvolvidas nas escolas da rede municipal foram reconhecidas por desenvolverem a cultura oceânica, a educação ambiental e a sensibilização das crianças para a preservação dos ambientes marinhos. Durante o encontro presencial, elas receberão menção honrosa pelos trabalhos realizados e terão suas experiências integradas ao Portfólio de Boas Práticas do programa.
Quando a Boca da Barra vira sala de aula
O projeto de Fabiula começou com uma caminhada até a Boca da Barra. As crianças observaram o encontro do Rio Itanhaém com o mar, conheceram melhor o entorno da escola e começaram a perceber que aquele cenário tão presente no cotidiano guardava outras vidas.
A sala de aula, então, ganhou outros espaços. Em um sábado, professora e famílias embarcaram em um passeio pelo Rio Itanhaém para aprofundar os estudos iniciados na escola.
Vieram pinturas de peixinhos feitos com rolos de papel higiênico, ondas, cartas ao planeta Terra, dicas para economizar água, leituras das obras do Coral Vivo e ações de conscientização. Entre elas, o projeto Tampinhas Solidárias, que já retirou quase 10 mil tampinhas do meio ambiente.
Além de produzir trabalhos, as crianças passaram a incorporar pequenas atitudes ao seu dia-a-dia. “Eles relatam que recolheram tampinhas encontradas na praia, que levam sacolinhas para trazer o lixo que produzem quando vão à praia e que orientam e cobram suas famílias dessas ações. Eles contam tudo!”, relata Fabiula.
A experiência também dialoga diretamente com a realidade de muitas famílias da cidade. “As crianças aprenderam que o mar é um ecossistema repleto de vida, que somos responsáveis por preservá-lo e orientar as pessoas com as quais convivemos sobre essa preservação. Para muitos de nós, que moramos no litoral, o mar ainda é fonte de renda e sustento de muitas famílias. Todos temos que fazer a nossa parte!”, destaca.
Aprender brincando, descobrir cuidando
Ainda na EM Leonor Mendes Barros, a professora Kelva Aires encontrou na literatura uma porta de entrada para o universo marinho.
O projeto nasceu a partir da leitura dos livros “Tá Limpo!” e “Grude-Grude”, obras do Programa Literatura Atlântica que apresentam histórias relacionadas ao mar de maneira lúdica e acessível às crianças.
A partir das histórias, vieram as experiências: animais marinhos, água, preservação, brincadeiras, descobertas e atividades que convidaram os estudantes a explorar e vivenciar o conteúdo.
Kelva conta que nunca imaginou que o projeto pudesse chegar a uma premiação. “Minha pretensão era proporcionar para as crianças uma aprendizagem significativa, com descobertas e encantamento, para que elas aprendessem brincando e se divertindo e plantando a sementinha na cabeça delas de que são os cuidadores do nosso meio ambiente”, explica.
Um dos momentos que mais marcou a professora aconteceu dentro da própria escola, em uma sala imersiva transformada em um verdadeiro fundo do mar.
Ao reconhecer os animais e elementos que haviam produzido durante as atividades, as crianças tiveram a sensação de que tudo aquilo que tinham conversado, brincado e construído havia ganhado vida. “Foi muito emocionante observar as crianças falando sobre o lixo no mar e entendendo, dentro da linguagem delas, que precisam cuidar e preservar o oceano”, lembra.
Para Kelva, a escolha do tema também tem relação direta com o território onde vivem os estudantes. “Itanhaém tem uma relação muito próxima com o mar. Vivemos na praia, nos rios, nos oceanos, nos manguezais. Temos uma forte conexão com tudo isso. As crianças precisam, desde pequenas, entender que essa relação tem que ser de respeito e cuidado com o nosso meio ambiente”, afirma.
Do livro para a descoberta
Na EM Luiz Gonzaga, a professora Bárbara Suelen também transformou uma obra literária em ponto de partida para uma experiência de aprendizagem sobre a vida marinha.
Professora de uma turma de bebês, Bárbara conheceu o edital e se interessou pela proposta de desenvolver um projeto a partir de um livro. A partir daí, as ideias foram se conectando e o universo marinho ganhou espaço nas atividades com os estudantes.
Para ela, o reconhecimento chegou como uma surpresa. “Até agora estou sem acreditar que fui uma das 25 selecionadas”, brinca.
Entre tantas experiências realizadas durante o projeto, duas ficaram especialmente marcadas. O contato com um polvo de verdade e o túnel sensorial que reproduziu o fundo do mar. “Falar sobre a vida marinha é muito legal por causa do repertório lúdico que podemos desenvolver. O momento mais marcante, com certeza, foi conhecer e manusear um polvo de verdade e o túnel sensorial imitando o fundo do mar”, conta.
Agora, a professora se prepara para viver uma experiência que também ficará na memória, representar Itanhaém em um encontro nacional de educadores. “Levar o nome de Itanhaém para o Rio de Janeiro é muito importante, e ter o reconhecimento do nosso trabalho é maravilhoso. Fico sempre feliz se posso agregar em alguma coisa”, afirma.
Três histórias, uma mesma missão. Embora tenham desenvolvido projetos diferentes, Fabiula, Kelva e Bárbara compartilham uma mesma compreensão, onde falar sobre o oceano com as crianças é falar sobre responsabilidade, pertencimento e futuro.
Para Fabiula, o reconhecimento tem um significado pessoal. Sua trajetória profissional foi construída inteiramente na rede municipal de Itanhaém. Ela chegou à cidade aos 13 anos e ao longo de 27 anos, atuou como professora, assessora pedagógica e integrante de equipes de formação de professores. “Levar o nome de Itanhaém representa a minha história, repleta de lutas, conquistas, dedicação e, principalmente, a realização de uma professora que busca transformar o mundo, tornando-o melhor através da educação”, afirma.
A menção honrosa representa, para as três, mais do que um prêmio. É o reconhecimento de um trabalho que acontece diariamente dentro das escolas e que ultrapassa os muros das salas de aula. É a criança que aprende a recolher uma tampinha na praia. A família que passa a prestar mais atenção ao lixo produzido durante um passeio. O estudante que descobre que o mar não é apenas paisagem, mas um ecossistema cheio de vida. São pequenas mudanças que irão permanecer depois do encerramento do projeto.
Educação que deixa marcas
Para a coordenadora da Educação Ambiental, Carol Peres, em uma cidade como Itanhaém, falar sobre educação ambiental é falar sobre território. “O mar, os rios, os manguezais e toda a biodiversidade costeira fazem parte da vida da população e da história do Município. Levar esses elementos para dentro das escolas permite que os estudantes aprendam a partir de uma realidade que conhecem”, destacou.
É nesse ponto que o trabalho das três professoras se transforma em legado. Três projetos diferentes. Três formas de ensinar. Uma mesma missão, formar crianças capazes de conhecer, valorizar e cuidar do lugar onde vivem.
Sobre o Projeto
O Programa Literatura Atlântica, do Instituto Coral Vivo, utiliza livros e experiências pedagógicas para aproximar crianças e educadores da biodiversidade marinha e fortalecer a cultura oceânica. As obras do programa são utilizadas como ferramentas para trabalhar temas como educação ambiental, conservação da biodiversidade, comunidades costeiras e relação entre território e oceano.
Em 2026, o Instituto Coral Vivo abriu um edital nacional para reconhecer experiências pedagógicas desenvolvidas a partir das obras da Editora Coral Vivo. Entre os critérios de avaliação estiveram inovação, impacto pedagógico e comunitário, articulação com a BNCC, cultura oceânica e potencial de replicabilidade.
Agora as experiências selecionadas participarão do encontro presencial no Rio de Janeiro e integrarão o Portfólio de Boas Práticas do Programa Literatura Atlântica.
Criado em 2003, o Projeto Coral Vivo atua com pesquisa, educação, comunicação, políticas públicas e mobilização social voltadas à conservação dos ambientes costeiros e marinhos. O projeto é patrocinado pela Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.