Estudo com 800 idosos mostra que ômega-3 acelerou declínio cognitivo em pessoas com gene de risco para Alzheimer. Entenda.
Por Dr. Paulo Budri
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Milhões de brasileiros tomam ômega-3 esperando proteger o cérebro contra o Alzheimer. Uma pesquisa publicada esta semana, porém, sugere que esse hábito pode ter o efeito oposto em pessoas com um gene específico de risco para a doença.
O que a pesquisa descobriu
Cientistas da Universidade Médica do Exército da China analisaram dados de mais de 800 participantes do estudo ADNI (Alzheimer’s Disease Neuroimaging Initiative). Metade deles carregava o fator de risco genético APOE 4, associado a formas mais agressivas de demência.
Os participantes que tomavam suplementos de ômega-3 apresentaram declínio cognitivo mais acelerado do que aqueles que não tomavam. A queda foi medida pelo Mini-Mental State Examination (MMSE), teste padrão para avaliar memória, atenção e linguagem.
O dado que surpreendeu os pesquisadores
O aspecto mais inesperado: o declínio não teve relação com placas amiloides, emaranhados tau ou perda de massa cinzenta, os marcadores clássicos do Alzheimer no cérebro. O problema parece estar na função sináptica neuronal, ou seja, na comunicação entre os neurônios.
“Nossos resultados sugerem uma possibilidade anteriormente não reconhecida: a suplementação de ômega-3 pode, em alguns contextos, afetar adversamente a integridade sináptica, anulando seus benefícios de curto prazo,” escreveram os autores no estudo.
Ômega-3 sempre foi bom, não era?
Não é tão simples assim. Embora estudos observacionais tenham indicado benefícios do ácido graxo para o cérebro, ensaios clínicos rigorosos já haviam mostrado resultados mistos. Muitos testes controlados não conseguiram provar que a suplementação previne declínio cognitivo em pacientes com Alzheimer.
A nova pesquisa reforça que o corpo humano não funciona como uma máquina previsível. O que funciona para uma pessoa pode ser prejudicial para outra, dependendo do perfil genético.
Devo parar de tomar ômega-3?
O estudo é observacional e não prova causalidade. Além disso, a amostra era composta predominantemente por adultos brancos e educados, o que limita a generalização dos resultados. Os próprios autores pedem cautela na interpretação.
A recomendação, por ora, é conversar com um médico antes de iniciar ou manter qualquer suplementação. A indústria de suplementos cresce exponencialmente, mas a ciência ainda tem muito a descobrir sobre os efeitos dessas substâncias no cérebro que envelhece.
Matéria original: https://www.sciencealert.com/omega-3-supplements-may-increase-risk-of-cognitive-decline-scientists-warn