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O Último Carroceiro

Caro leitor, consegue imaginar um tempo em que as ruas de Paranaguá ainda não eram tomadas por automóveis? Antes do ronco dos motores, eram as carroças que transportavam mercadorias, objetos e pessoas, marcando o ritmo cotidiano da cidade. É desse tempo que nasce esta história.

Numa tarde mansa, à sombra generosa de um velho cajueiro, a terra recebeu José Lima dos Santos — para todos, Nho Lima. Partia o mais antigo dos carroceiros de Paranaguá: corpo alto e magro, mãos marcadas pelo trabalho, bolso vazio de riquezas, mas o coração pleno de humildade.

Nho Lima já empurrava sua carroça quando muitos nomes ainda nem haviam surgido nas ruas da cidade. Começou menino, aos doze anos, e jamais abandonou o ofício. Foram cerca de setenta anos de trabalho contínuo, sustentados pela honra silenciosa e pela dignidade firme de quem nunca precisou de alarde para ser essencial.

Trabalhou nos tempos dourados do Cais do Itiberê, quando o porto fervilhava de embarcações e a Rua da Praia se cobria de mercadorias vindas de longe. Açúcar do Norte, querosene que cruzava oceanos, máquinas trazidas da Europa, farinha que atravessava fronteiras — tudo passava por suas mãos calejadas e por seus passos pacientes. Em meio ao comércio pulsante, às firmas e aos nomes que erguiam a cidade com suor e esperança, lá estava Nho Lima: discreto, constante, indispensável.

Meses antes do fim, quando o cavalo morreu, faltaram-lhe os meios, mas não lhe faltaram amigos. A cidade que tantas vezes se apoiara em seu trabalho estendeu-lhe a mão, e a solidariedade permitiu que ele seguisse por mais um tempo.

Seu adeus teve a singeleza das coisas verdadeiras. Duas fileiras de pequenas carroças acompanharam, em silêncio, o caixão até as portas do Campo Santo. Não era um cortejo comum: era a reverência dos que partilharam o mesmo chão, o mesmo sol e a mesma lida. Gente de toda condição misturou-se ao caminho, porque há vidas que ultrapassam fronteiras sociais. Nho Lima não pertencia apenas à sua classe — pertencia à cidade.

Com sua morte, Paranaguá não perdeu apenas um carroceiro. Perdeu um homem justo, alguém em quem se confiava sem palavra escrita, sem recibo, sem temor. Tudo o que lhe era entregue chegava inteiro. Jamais levou para casa o que não fosse fruto do próprio esforço: cada grão, cada moeda, cada pedaço de pão custaram-lhe sol, chuva e suor.

Perdeu-se as carroças, substituídas por veículos a gasolina que aceleram nas ruas de calçamento, sempre com pressa para chegar a lugar nenhum, não deixando as pessoas observarem com cuidado os casarões e suas memórias, perdeu-se um tempo que já não volta, soterrado pelo asfalto da modernidade e pela pressa que trocou a sombra das árvores pelo concreto, perdeu-se os antigos casarões trocados por prédios envidraçados que ofuscam a vista nos dias de sol, perdeu-se a memória que foi trocada pela “modernidade”.

Há vidas que não brilham nem chamam atenção só frutificam.
A vida do último carroceiro foi assim.

Referência:

EVANGELISTA, Caetano. Crônicas. 001. ed. Paranaguá: Própria, 1978. 262 p. v. 1.

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