A menopausa é o momento de declínio hormonal do corpo feminino, em que ele para de menstruar. Nesse período, a queda de estrogênio e progesterona leva ao aparecimento de sintomas como ondas de calor – também chamadas de fogachos -, suor noturno, insônia, mal-estar e palpitações, que podem durar até dez anos em casos severos. De acordo com o IBGE, cerca de 17 milhões de mulheres brasileiras estão na menopausa. Com o envelhecimento populacional, é esperado que esse número aumente nos próximos anos.
“Até 80% das mulheres apresentarão sintomas vasomotores em algum momento durante a transição menopáusica. Não é uma exceção, é a maioria”, aponta Joana Reis, diretora sênior de Imagem Integrada da Mama na Região Central e Líder do Cluster Nórdico de Análises Clínicas da Bayer. “Eles são um dos principais motivos pelos quais essas mulheres procuram atendimento médico durante essa fase de suas vidas. Embora muitas vezes sejam descartados como meros sintomas, eles podem ser bastante perturbadores e clinicamente relevantes”.
Apesar do desconforto com os sintomas, uma pesquisa feita pela Ipsos aponta que quase metade das brasileiras (44%) não realiza qualquer tipo de tratamento. O levantamento conversou com 800 mulheres entre 18 e 60 anos. Parte dessas mulheres relata que os sintomas são tratados como “exagero” ou “algo normal” por familiares a profissionais de saúde. Na pré-menopausa, essa afirmação é ainda mais frequente, relatada por 65% das mulheres entrevistadas.
“Normalizar o sofrimento é tão frequente e faz com que realmente seja uma barreira para o tratamento e para procurar ajuda”, comenta Cecilia Caetano, vice-presidente de Assuntos Médicos Globais e Líder de Geração de Evidências em Saúde da Mulher da Bayer.
Lançamento de terapia não-hormonal
A terapia hormonal é uma das principais opções atualmente, mas há uma parcela das mulheres com condições médicas pré-existentes que não pode fazer uso desse tipo de tratamento, como os casos de câncer de mama. Mesmo para outros pacientes, como aqueles que tiveram câncer de mama triplo-negativo, a reposição hormonal sistêmica pós-tratamento é geralmente contraindicada. Isso também se aplica a mulheres com propensão genética a desenvolver a doença.
Para a médica mastologista e líder do Centro de Referência em Tumores da Mama do A.C.Camargo Cancer Center, Fabiana Baroni Makdissi, é necessário observar alguns fatores antes de recomendar esse tipo de reposição para mulheres na menopausa. Primeiro, se ela já teve tumor na mama. Outras são as contraindicações relativas, como ter histórico familiar desse tumor ou ter mutações genéticas como o gene BRCA1 ou BRCA2, que indicam risco de desenvolvimento de tumor. “Significa que ela já está dentro de um grupo de mulheres que tem um risco maior do que a população geral”, explica.
A médica reforça que cada caso deve ser analisado individualmente. Uma mulher que teve câncer de mama anteriormente e realizou a cirurgia de retirada da mama é uma paciente que difere de outra que, após o tumor, continua com grande parte do tecido mamário. O impacto sentido pelos sintomas e a segurança da paciente em relação ao uso de reposição hormonal também precisam entrar como critérios dessa avaliação.
Durante o Congresso Anual de Câncer de Mama da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO Breast Cancer), a Bayer lançou um medicamento não hormonal para tratamento dos sintomas vasomotores moderados a graves associados à menopausa. O elinzanetant, vendido sob o nome comercial Lynkuet, já está disponível atualmente no Reino Unido, União Europeia, Canadá e Estados Unidos. No Brasil, o produto foi submetido à análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A agência afirma que não é possível antecipar prazos neste momento, mas a expectativa da companhia é que o medicamento chegue às farmácias brasileiras no próximo ano.
O medicamento atua como um antagonista duplo dos receptores de neurocinina-1 e 3 (NK-1 e NK-3), fazendo a modulação do termostato cerebral. Os cientistas têm compreendido que os sintomas são desencadeados devido a neurônios chamados de neurônios-esfera, que se tornam hiperativos quando os níveis de estrogênio diminuem. Esses neurônios estão intimamente ligados à regulação de temperatura, oscilações de humor e outros sintomas da menopausa.
Nos estudos OASIS 1 e 2, publicados na revista científica JAMA, ao final de 12 semanas, mais de 71% e 74% das mulheres participantes tiveram ao menos 50% de redução na frequência das ondas de calor. A intensidade dos fogachos também mudou, de intensas para moderadas a leves. Cada paciente utilizou a dose total de 120mg, dividida em duas cápsulas de 60mg, uma vez ao dia.
Os resultados também mostram um sono mais repousante com a medicação. Os efeitos colaterais mais frequentes são dor de cabeça e fadiga, sintomas também comuns na menopausa. Segundo Reis, da Bayer, esses efeitos secundários foram ligeiros a moderados e transitórios, ou seja, desapareciam após os primeiros meses de uso do medicamento.
Opção para casos de câncer de mama
Segundo a empresa, o tratamento não hormonal seria uma opção para pacientes com condições médicas que não podem fazer uso de tratamentos hormonais, como é o caso do câncer de mama. Cerca de 80% dos casos diagnosticados são de receptores hormonais positivos (HR+), um subtipo em que estrogênio e progesterona estimulam o crescimento das células cancerígenas.
Além disso, existe uma associação entre o câncer de mama e a menopausa. Uma das principais linhas de cuidado desse tipo de tumor, a terapia endócrina adjuvante, bloqueia ou reduz a produção hormonal. Porém, também pode provocar a entrada precoce na menopausa e o surgimento de sintomas mais intensos.
“Os efeitos colaterais podem impactar significativamente a qualidade de vida e, até mesmo, influenciar a adesão ao tratamento”, aponta Reis. “Se quisermos apoiar plenamente essas pacientes, precisamos considerar não apenas como tratar a doença, mas também como lidar com as consequências a longo prazo dos tratamentos para câncer.”
Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2022, indicam que aproximadamente 2,3 milhões de mulheres foram diagnosticadas com câncer de mama. A diretora de Análises Clínicas da Bayer acredita que o lançamento pode permitir que pacientes retornem ao tratamento oncológico, já que muitas pacientes, sobretudo jovens, tendem a abandoná-lo devido a sintomas como ondas de calor. Estudos mostram que a persistência de terapia endócrina está associada a uma melhor sobrevida.
“A sobrevivência é, sem dúvida, o objetivo que todos buscamos, mas para muitas pacientes, o fim do tratamento ativo nem sempre significa o fim do sofrimento”, aponta a representante. Segundo ela, para aquelas que recebem terapia endócrina, um novo capítulo se inicia com a menopausa induzida pelo tratamento. “O controle dos sintomas da menopausa nunca deve ser visto como uma questão menor ou secundária. Faz parte da restauração da dignidade e da conclusão da jornada de cuidados dessas mulheres.”
Hoje, o preço de venda sugerido pela fabricante para a embalagem de 30 dias de Lynkuet é inicialmente de € 75,00 na Alemanha, aproximadamente R$ 435, e sua venda está sujeita à apresentação de prescrição médica. De acordo com a farmacêutica, esse valor é regularmente reembolsado pelos planos de saúde públicos na Alemanha.
*A jornalista viajou para a Alemanha a convite da Bayer.