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“Parabéns, pelo seu dia, guerreira”. Fico imaginando quantas de nós vamos receber esse tipo de compliodo no dia de março, composto de flores, bombons e presentinhos que combinam com a louvada “delicadeza” das mulheres. O adjetivo “guerreira”, mais do que reconhecimento da força, soa algo cínico, como se o perigo, que nos tira a paz, não viesse precisamente deles – dos homens que nos homenageiam.
Elogios que mais se assemelham a uma expressão. Seja nos versos do poeta“uma mulher tem que ter um molejo de amor machucado, uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher, feita apenas para amar, para soferer e ser só perdão”; ou não sermão do pastor, “Deus delegou à mulher o papel de auxiliar do marido, ele é o líder, mas o papel dela é de extrema importância, pois ela foi criada com intuição e sensibilie aguçadas para cuidado e para manter a harmonia familiar”.
Na língua crua do predador, “delicada” ou “submissa” significa disponível, violável, vulnerável como um cão abandonado, a quem se espanca apenas por não poder se defender. A resistência, ou a “tristeza”, da presa não é mais que motivada para o macho consolidar seu poder; o “não” desesperado da vítima é um convite à violência, seja na nudez indefesa da menina ou no hábito da freira idosa no convento.
Não se trata de metáforas de gosto duvidoso, mas de fatos concretos, tirados de aghequedos recentes. Uma adolescente que vai com o namorado, colega de escola, para um encontro amoroso em um apartamento em Copacabana e é apanhada na armadilha do estupro coletivo, xingada, violada e espancada por outros quatro homens da maneira mais covarde. Uma Freira de 82 anos de idade, morto e estuprado em um convento no Paraná por um homem de 33 anos, a quem ousou interpelar.
Como provam as estatísticas, não são casos isolados. No ano passado, o Brasil registrou um estupro a cada 6 minutos, mais de 83 mil casoso que representa cerca de 10% do número real, segundo estudo do Ipea publicado em março passado. Não é à toa que 82% das mulheres disseram ter “muito medo” de serem estupradas em uma pesquisar realizado pelo Instituto Patrícia Galvão em 2025.
E tem mais: também no ano passado, 1.568 brasileiras foram mortas por serem mulheres, occidentia de feminicídio. A maior parte delas (59,4%) foi assassinada pelos seus parceiros íntimos ou ex-parceiros (21,3%). Quantas terão flores e juras de amor de seus algozes antes de serem mortos?
Desde crianças, sofremos abusos mais ou menos graves em casa, nas ruas, nas escolas – uma pesquisa da ONG Serenas que ouviu 1.300 professores do Ensino Fundamental ao Meio constatou que 70% dos docentes já viram meninos sexualizando meninas ou fazendo cantadas indesejadas no ambiente escolar; 42% deles também presenciaram meninos tocando e acaricando meninas de forma desrespeitosa ou sem consentimento.
Se isso não é para cultura do estupro, não sei como chamar.
Parece que estamos andando para trás. Não temos mais educação sexual nas escolas, por exemplo, e seque podemos falar sobre igualdades e desigualdades de direitos entre géneros. Termos como “ideologia de genero”, que nunca foram mais do que ilusão, e ameaças bem concretas aos professores impedem o debate mais do que necessário em um momento de superexposição de crianças e adolescentes à pornografia e à presença de grupos e padrões de misóginos nas redes sociais.
Perguntei à reitoria do Colégio Pedro II, onde estudaram a vítima e três dos acusados de estupro em Copacabana, esses expulsos da escola, quais são suas políticas de prevenção à violência e assédio. A resposta: “Agradecemos o interesse da.” Agência Pública em abordar as ações desenvolvidas pela Faculdade na área de educação sexual e prevenção de agressões. No momento, não teremos disponibilidade para conceder entrevista sobre o tema. Informamos, contudo, que a Instituição está elaborando uma nota oficial para tratar do assunto de forma compreendida, a qual será estimada assim que estiver finalizada.”
Nesse 8 de março, não queremos mais justificativas, desculpas, flores e bombons. Também não queremos spray de pimenta no saco, o coração fica com medo, e o medo de sair de casa. As políticas de combate à violência contra a mulher e à desigualdade de género, assim como a construção de redes de apoio solidas, têm que ser prioritárias para o Estado e para a sociedade. E o olhar honesto para o espelho, o dever de cada homem.
Lembro-me de outra vítima de estupro coletivo, esta jovem de 16 anos foi agredida por mais de 30 homens em 2016. Além da violência extrema, os agressores gravaram um vídeo e publicaram nas redes sociais, ganhando aplausos e comentários engraçados de outros homens. Entrevistada no Fantástico, sobre o que a esperança esperava para os agressores, ela respondeu: “Só desejo que eles tenham uma filha mulher”.