A pergunta que não quer calar: cadê a diretoria da Unidade Bertioguense de Especialidades Médicas (Unibem), para acompanhar, orientar e se pronunciar a respeito do caso envolvendo os procedimentos médicos na morte do garoto? Onde estava a secretária municipal de Saúde, Fabiana Paviani para esclarecer mais essa tragédia em meio a tantas outras? A vida ceifada de Bernardo Augusto Rocha, de 11 anos, ainda é motivo de muita revolta no fatídico setor de saúde de Bertioga. Lembrando que a secretária da pasta, Fabiana Paviani e a ex-diretora da Unibem, Camila Fernandes Borin foram denunciadas e respondem por inquéritos no Judiciário por dupla jornada de trabalho e são investigadas também no Ministério Público (MP).
Entenda o caso: Bernardo Augusto passou mal na escola de Bertioga José de Oliveira Santos. Ele teria levado uma bolada na cabeça durante atividade no colégio. O menino voltou para a sala de aula e passou mal. Ele teria caído e batido a cabeça no chão.
Os próprios alunos alertaram os funcionários da unidade escolar para que acionassem o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
Um funcionário do colégio, que já foi bombeiro, tentou reanimar o garoto. No desespero, uma funcionária colocou o menino em um carro e o levou à Unibem.
Ainda na unidade de saúde, o Samu assumiu a ocorrência e transferiu o estudante em estado grave ao Hospital de Bertioga. No local, após cerca de 40 minutos de tentativas de reanimação, a morte foi constatada.
Investigação
Para os familiares, os procedimentos de primeiros socorros prestados à criança na Unibem são questionáveis. Em desolação pela perda do garoto, eles relatam que Bernardo era uma criança saudável, sem histórico de problemas de saúde ou alergia a medicações.
Já com relação ao procedimento dado à criança na Unibem, os parentes questionam o atendimento prestado ao garoto. “Um médico da unidade teria realizado o procedimento de intubação de forma equivocada, o que teria prejudicado a respiração do menino e agravou ainda mais o quadro clínico dele”, apontam.
Profissional faz alerta sobre atendimento
Um profissional da área da saúde conversou em off com a reportagem apontando erros no atendimento na Unibem e falha médica e direção técnica.
Ele disse que a ocorrência do evento com desfecho no óbito, durante o qual foram identificadas inconsistências técnicas na realização do procedimento de intubação orotraqueal, faz-se necessária a avaliação da atuação da diretoria Clínica no âmbito de suas atribuições institucionais.
Nos termos das normas do Conselho Federal de Medicina, compete ao Diretor Clínico zelar pela qualidade da assistência médica prestada na instituição, supervisionar tecnicamente o corpo clínico, promover a implantação e o cumprimento de protocolos assistenciais, bem como fomentar ações de educação permanente, treinamento e atualização profissional, visando à segurança do paciente e à melhoria contínua da assistência.
Embora a responsabilidade técnica pela execução do procedimento recaia sobre o médico assistente que realizou o atendimento, cabe avaliar se foram adotadas, pela Diretoria Clínica, medidas adequadas de supervisão, capacitação da equipe médica, monitoramento de competências e implementação de protocolos assistenciais, especialmente para procedimentos críticos, como o manejo avançado das vias aéreas. Dessa forma, recomenda-se que, além da apuração da conduta individual do profissional envolvido, seja analisado o cumprimento das atribuições gerenciais e técnico-assistenciais da diretoria Clínica, verificando a existência de ações de treinamento, educação continuada, supervisão e gestão da qualidade, bem como eventuais oportunidades de melhoria que possam contribuir para a prevenção de novos eventos adversos.
E a prefeitura?
As primeiras informações prestadas pela Prefeitura de Bertioga, deixam claro que querem empurrar a negligência para uma fatalidade, uma espécie de cortina de fumaça em cima de um caso tão sério, mesmo com tudo aquilo que já foi divulgado.

Jornal já havia denunciado a Unibem
O prefeito Marcelo Vilares (União) poderá também ser responsabilizado pela morte do garoto Bernardo Rocha, de 11 anos, se constatar que a unidade possui uma diretora clínica fantasma que não trabalha, que não coordena, que não fiscaliza, que não treina seus subordinados.
O MP investiga as denúncias e pode a qualquer momento fazer a quebra de sigilo bancário, inclusive divulgadas em primeira mão pela reportagem do Jornal Impresso Brasil (JIB). “A morte poderia ter sido tranquilamente evitada se não faltasse material adequado no carrinho de emergência da Unibem e se o médico tivesse feito o procedimento correto”.
Segundo comentou um profissional da área da saúde que pediu anonimato, o procedimento foi equivocado, com a entubação entrando no esôfago ao invés das vias respiratórias, relatou.
Outra situação foi não acompanhar o menino na ambulância até o Pronto-Socorro (PS). “No PS foi constatado tubo no estômago ao invés da via respiratória”, procedimento supostamente errado.
As denúncias feitas pela reportagem a respeito do sistema de saúde de Bertioga estar caótico, abandonado e desassistido por quem deveria estar à frente, segue tramitando no Judiciário e Ministério Público (MP).
Relatório constata série de erros no socorro prestado
A reportagem do Impresso Brasil (JIB) teve acesso a um relatório elaborado por profissionais da Saúde que constataram vários erros no atendimento ao menino Bernardo Augusto Rocha, de 11 anos.
Confira: Conforme os protocolos vigentes de urgência e emergência, a criança em crise convulsiva com insuficiência respiratória deveria ter recebido atendimento imediato, com prioridade para proteção das vias aéreas, ventilação eficaz com bolsa-válvula-máscara pediátrico, administração precoce de anticonvulsivantes e, que não tinha no carrinho de emergência, quando indicada, intubação orotraqueal corretamente posicionada e confirmada. A demora do SAMU foi um fato preponderante para a evolução desse quadro de insuficiência respiratória, vez que os profissionais são habilitados para o manejo inicial para retirar dessa condição, mesmo removendo com brevidade para o Pronto-Socorro, caso necessário.
Os profissionais da escola, angustiados com a demora, resolveram remover de meios próprios a criança, sem a devida proteção específica e profissional que esse caso requer. Ao chegar na Unibem, que não é uma unidade de pronto atendimento, se deparam com a ausência de materiais essenciais no carrinho de emergência, obrigatório em todas as unidades de saúde, como anticonvulsivantes, bolsa-válvula-máscara pediátrico, o que caracteriza situação grave não conformidade assistencial, comprometendo a prestação de um atendimento seguro. Da mesma forma, com a ocorrência de intubação esofágica, trata-se de falha crítica, por impedir a ventilação adequada, exigindo reconhecimento e correção imediatos.
O que não foi feito, evoluindo o quadro para uma parada respiratória seguida de parada cardíaca, mesmo possuindo dispositivos que facilitariam o procedimento, como o laringoscópio infantil.
Acrescenta-se, ainda, a necessidade de apuração quanto à ausência de acompanhamento médico durante a remoção de paciente em estado crítico, uma vez que os protocolos de transporte inter-hospitalar determinam que pacientes instáveis sejam acompanhados por profissional médico para manejo avançado das vias aéreas e suporte de vida, como ressuscitação cardio-pulmonar. Também merece apuração a inexistência de Diretor Clínico na unidade, situação que pode comprometer a supervisão técnica, a organização da assistência e a responsabilidade pela qualidade dos serviços prestados, conforme a regulamentação aplicável, o que pode ser facilmente comprovado pela inobservância dos itens vitais e necessários no carrinho de emergência.
Diante dos fatos, recomenda-se a instauração de apuração técnica e administrativa para verificar a conformidade da assistência prestada, identificar eventuais falhas estruturais e assistenciais e avaliar o nexo entre essas ocorrências e a evolução clínica do paciente que culminaram em uma morte evitável.
IML constata aneurisma
Exame preliminar do Instituto Médico Legal (IML) atestou que Bernardo teve aneurisma na cabeça, que evoluiu para infarto. O atestado de óbito, porém, apontou insuficiência respiratória como causa da morte.
“Prefeitão” se nega a falar com o Jornal Impresso Brasil
O prefeito Marcelo Vilares não responde a este jornal. No último e-mail, deixou claro que tudo que quiser de informação a respeito da Prefeitura de Bertioga não será fornecido, portanto, não há o que retratar do ponto de vista da administração pública que se cala diante de um caso supostamente criminoso. Mesmo com o negacionismo do gestor Marcelão (nome carinhoso que recebe na cidade), a reportagem pondera e divulga trechos da nota emitida pela gestão: “A Prefeitura de Bertioga lamentou profundamente o falecimento do aluno e manifestou suas mais sinceras condolências aos familiares, amigos e toda a comunidade escolar neste momento de imensa tristeza. De acordo com a administração municipal, o menino foi encaminhado à Unibem devido à gravidade da situação e por ser o serviço de saúde mais próximo”.