A longevidade tem se tornado um dos polos de interesse da saúde. E não é para menos: há um mercado em ascensão. A Organização das Nações Unidas (ONU) projeta que o número de pessoas com mais de 65 anos deve chegar a 1,6 bilhão em 2050. Diante disso, cresce a demanda por soluções, tecnologias e serviços que permitam um envelhecimento saudável com qualidade de vida.
Projeções da Mordor Intelligence apontam que esse mercado global deve avançar de US$ 31,63 bilhões em 2026 para US$ 46,86 bilhões em 2031, com uma taxa de crescimento anual de 8,18%. Segundo a consultoria, esse movimento reflete uma mudança significativa na percepção sobre o envelhecimento. “Em vez de aceitar as condições relacionadas à idade como inevitáveis, o setor agora aborda o envelhecimento biológico como um processo que pode ser modificado”, afirma o relatório.
Diversos fatores culturais colaboram para esse olhar mais amplo para a longevidade, como maior atenção a práticas de exercícios e alimentação. A ONU, por exemplo, declarou que 2021 a 2030 é a Década do Envelhecimento Saudável. Entram também no escopo tecnologias como dispositivos vestíveis, que ajudam a aprimorar a própria percepção sobre a saúde. “Agora, temos maneiras de monitorar nossa saúde que nunca tivemos antes”, comenta Adam Salmon, diretor associado do Instituto Sam e Ann Barshop para Estudos sobre Longevidade e Envelhecimento, da Universidade do Texas em San Antonio.
No campo da ciência, linhas de pesquisa se concentram em entender os mecanismos que levam as nossas células a envelhecer — e a investigar novos compostos que poderiam retardar esse processo. Já no campo dos negócios, o foco está no cuidado integrado e na trajetória do paciente ao longo de suas décadas de vida, com intervenções de comportamento e indicadores médicos. “É um novo mercado que ainda vai amadurecer no Brasil, buscando cada vez mais soluções que, de fato, funcionem”, avalia Rafael Freixo, diretor executivo da LEK Consulting.
A ciência da longevidade
Ao longo das décadas, estudos trouxeram uma maior compreensão sobre o funcionamento do envelhecer. Na década de 1930, por exemplo, um grupo de pesquisadores demonstrou que a restrição da ingestão calórica em ratos aumentava a expectativa de vida ao desacelerar o envelhecimento. Já na década de 90, a cientista Cynthia Kenyon verificou que uma simples mutação dos genes de vermes nematóides C. elegans poderia dobrar o tempo de vida saudável. Assim, abriu caminho para um novo momento da genética e do estudo da longevidade.
Cada vez mais os pesquisadores buscam entender como funciona o processo do envelhecimento e como ele pode se tornar gerenciável por meio da ciência. Enquanto algumas pesquisas se direcionam para compreender mais sobre a biologia que leva ao envelhecimento e suas principais doenças, outras se dedicam a descobrir medicamentos e possíveis tratamentos para retardar esse processo. Ou, pelo menos, para garantir que seja possível manter uma vida saudável e com autonomia, com o avanço da idade.
Um dos estudos sobre novos compostos capazes de retardar o envelhecimento é com a rapamicina, um medicamento aprovado pela agência reguladora dos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), como um imunossupressor para evitar rejeição de transplantes de órgãos e melhorar tratamento de doenças da artéria coronária. Hoje, a droga também é usada para tratar tipos de tumores.
Em 2009, uma pesquisa mostrou que ratos que receberam doses de rapamicina viveram mais tempo do que o grupo controle. Considerando como base a idade de mortalidade, a rapamicina levou a um aumento de vida de 14% para fêmeas e 9% para machos. Essa foi a primeira evidência de que a expectativa de vida de um animal poderia ser aumentada por meio de uma droga. Isso acontece porque o medicamento atua na inibição da sinalização mTOR, uma proteína que regula o crescimento, metabolismo e sobrevivência celular em resposta a nutrientes.
“Testes já encontraram mais de uma dúzia de medicamentos que fazem algo parecido. Podemos vislumbrar um caminho a seguir, partindo da ciência básica”, comenta Salmon. Contudo, ele ressalta que é necessário avançar nos estudos sobre longevidade, uma área ainda em desenvolvimento, a partir da padronização de abordagens estudadas e ampliação do rigor metodológico.
Na Europa, outras linhas de pesquisa ganham destaque. É o caso do estudo de células senescentes, objeto de estudo de Marco Demaria, diretor do Instituto de Mecanismos de Saúde, Envelhecimento e Doença do Centro Médico Universitário de Groningen.
A senescência celular é, essencialmente, quando uma célula com danos se acumula nos tecidos envelhecidos, mas não morre. Assim, acaba secretando substâncias inflamatórias. “Elas são muito prejudiciais ao corpo. Quando você tenta eliminá-las com um fármaco ou mesmo geneticamente, o tecido parece se beneficiar dessa eliminação“, comenta o pesquisador.
Até o momento, Demaria explica que esse tipo de estudo é voltado para o entendimento de doenças relacionadas à idade, e não exatamente para o processo biológico do envelhecimento. Isso porque os resultados diretos do envelhecimento não são mensuráveis com facilidade. “Precisamos encontrar substitutos, como estudar várias doenças ligadas à idade e mostrar que a mesma molécula tem efeitos em todos esses tipos diferentes de doenças. Isso sugere, potencialmente, que ela pode ser aplicada a um organismo envelhecido em geral”, pontua.
Enquanto os estudos estão em curso, os cientistas avaliam que a melhor tática a ser adotada para quem busca longevidade são as recomendações clássicas de saúde. Assim, a preparação do corpo para essa fase pode se beneficiar de um estilo de vida equilibrado, com uma alimentação rica em alimentos naturais e a prática constante de exercícios, com maior força e resistência, e um sono de qualidade.
O mercado das clínicas de longevidade
No mercado, clínicas oferecem cuidados personalizados e multifacetados com esse olhar para a longevidade. O amadurecimento desse segmento acompanha uma tendência cada vez maior de cuidado com o bem-estar. Na saúde, cresce a busca por procedimentos como cuidados de check-up com sistema imunológico e saúde cardiovascular, tecnologias vestíveis, testes de sequenciamento genético e outras novidades.
Segundo a Global Wellness Institute, a economia global do bem-estar deve crescer de US$ 5,6 trilhões, em 2023, para US$ 8,5 trilhões até 2027. Esse aumento é impulsionado por uma mudança nesse setor, com o cuidado do bem-estar se associando a um comportamento de consumo para maior prevenção, otimização de performance e longevidade.
“Muitos estão tentando fazer essa conexão, especialmente no exterior, da longevidade com o mercado de wellness”, afirma Freixo, que observa um movimento de clínicas integrando cada vez mais serviços em seu portfólio. “É um mercado que será bastante disputado, e o grande vencedor será quem conseguir oferecer mais do que soluções pontuais”. Contudo, o diretor também ressalta que não é um lugar fácil de ser ocupado por grandes players, devido à atividade, margem ou falta de comprovação científica de algumas abordagens. Para ele, ainda há espaço para crescimento e maturidade, especialmente, de evidências científicas.
De acordo com a Mordor Intelligence, investidores de capital de risco têm demonstrado forte apoio a essa área do envelhecimento. Em 2024, empresas de longevidade captaram US$ 8,49 bilhões em 325 negócios, mais que o dobro dos US$ 3,82 bilhões captados em 2023. A América do Norte lidera o mercado com uma participação de 41,23% na receita, influenciada por gastos substanciais com saúde e pela adoção precoce de tecnologias avançadas. A região Ásia-Pacífico, por outro lado, chega como um mercado de crescimento acelerado, com uma taxa de crescimento anual composta projetada de 10,35% até 2031, sustentada pelo aumento da renda disponível e pela crescente conscientização sobre saúde.
Nos Estados Unidos e em outros países, clínicas já se consolidam como exemplos de cuidado voltado para a longevidade. É o caso da The Health Longevity Clinic, com unidades na Flórida e República Tcheca. Ela tem avaliação 360º do paciente, com serviços de equilíbrio hormonal, medicina regenerativa, saúde cardíaca e cerebral, melhora do sono e saúde sexual. A prerrogativa é de prolongar o número de anos saudáveis em que o corpo é funcional, forte e flexível. O negócio oferece assinaturas do básico ao avançado, com realização de exames como predisposições genéticas, idade biológica, saúde mitocondrial e de microbioma.
Os modelos de cada país variam segundo o apetite do mercado. A indústria da longevidade norte-americana, de acordo com a consultoria, adota uma abordagem farmacêutica e tecnológica, frequentemente acompanhada de preços elevados. Clínicas como a Fountain Life oferecem planos de assinatura que variam de US$ 6.500 a mais de US$ 21.500 anualmente, com serviços como ressonâncias magnéticas de corpo inteiro analisadas por inteligência artificial e exames de sangue para detecção precoce de múltiplos tipos de câncer. Já modelos europeus combinam bem-estar de luxo com rigor médico, com programas de “Revitalização” como na Clinique La Prairie, na Suíça, com duração de uma semana, com preços de aproximadamente US$ 27.000 a 62.990.
Enquanto isso, a consultoria destaca que Brasil e partes da Europa preferem priorizar a prevenção. Nesse sentido, focam em “mudanças no estilo de vida e abordagens naturais, tornando a medicina da longevidade mais acessível”. Segundo o relatório, o Brasil, inclusive, se posiciona como um líder de medicina do estilo de vida, com foco na saúde intestinal, nutrição e terapias de movimento, de forma holística, em vez de tratamentos isolados.
Longevidade dentro do Grupo São Lucas
Novos negócios têm surgido na busca por ocupar esse mercado no Brasil. Um exemplo é a clínica Age & Health Center, que acaba de iniciar suas operações em São Paulo. Do Grupo São Lucas, que atua há 50 anos no setor da saúde, a proposta é abarcar diferentes cuidados e trabalhar a prevenção e intervenções de saúde ao longo das décadas de vida de um indivíduo. Por isso, é aberta a diferentes faixas etárias, a partir dos 20 anos.
“É uma medicina proativa, não reativa, um cuidado que integra corpo, mente e alma”, define a diretora de Inovação e gerontóloga do Age & Health, Júlia Pinheiro. Os programas são contínuos e mudam a cada período para contemplar as necessidades do paciente de acordo com sua faixa etária e condição. Por exemplo, uma mulher de 50 anos passará por uma atenção personalizada, que incluirá um olhar para a menopausa, diferente de um paciente de outra idade ou gênero. “As empresas precisam amadurecer. Falar sobre longevidade a partir de 20 anos não existia, é algo que estamos percebendo que está se consolidando. Não se trata de idade, mas de comportamento”, pontua.
Ao iniciar a jornada na Age & Health Center, o paciente deve preencher um questionário com perguntas sobre sua saúde física, mental e espiritual, adaptado à sua faixa etária. Depois, é feita uma análise inteligente, apoiada por uso de tecnologia, que gera um relatório com recomendações personalizadas. As informações baseiam o cuidado e vão sendo alimentadas ao longo do tempo.
Hoje, o programa contempla dez áreas de cuidado: medicina do estilo de vida, gerontólogo, geriatra, fisioterapeuta, terapeutas integrativas, educador físico, farmacêutico, psicólogo, fonoaudiológico e nutricionista. Além disso, a clínica, instalada próxima ao Pacaembu, em São Paulo, conta com salas para realização dos atendimentos médicos e espaço para pilates, eletroestimulação e terapias integrativas, como massoterapia e outras técnicas.
A tecnologia, nesse sentido, entra como um facilitador da jornada. A clínica conta com um projeto para a criação de um relógio digital que registra dados de saúde do paciente, com o InovaHC, do Hospital das Clínicas da USP. A ferramenta também está conectada com um agente de inteligência artificial conversacional do WhatsApp. “Se a pessoa acordar e não está se sentindo bem, o chat captura essa informação, que vai para o prontuário, e já dá uma devolução. Dependendo do nível, entramos para ter interação direta humana”, explica a diretora. Tudo isso está contemplado nos programas oferecidos pela clínica, que custam em torno de R$ 1.500 até R$ 2.800, a depender da frequência e das necessidades de cada indivíduo.
Centro de Longevidade do Grupo Fleury
Outro exemplo de negócio a ser inaugurado no país é o Centro de Longevidade do Grupo Fleury. A unidade focará no cuidado com a saúde em todas as fases da vida, em um olhar a longo prazo. Para Patrícia Maeda, presidente da unidade de negócios do Grupo Fleury, a proposta é colaborar para um envelhecimento mais ativo e saudável e, consequentemente, contribuir para a sustentabilidade do setor. O lançamento está previsto para ocorrer ainda no primeiro semestre de 2026.
O centro será voltado para medicina do estilo de vida, seguindo os pilares de movimento e exercício, alimentação saudável, sono reparador, manejo de estresse, conexões sociais e propósito e saúde hormonal. Um dos primeiros passos, explica Pedro Saddi, endocrinologista do Fleury Medicina e Saúde, é identificar a idade biológica do paciente por meio de exames diagnósticos que caracterizam o envelhecimento. A partir disso, elabora-se um guia personalizado. “Mais do que aumentar o número de anos vividos, é conseguir fazer com que esses indivíduos vivam bem, com autonomia e bem-estar”, explica o médico. Segundo ele, a ideia é que médicos externos possam encaminhar pacientes ao centro, assim como pacientes possam acessá-lo diretamente.
Na jornada de cuidado, estão previstos desde exames de análises clínicas já tradicionais, como testes de glicemia, colesterol, insulina até tecnologias pensadas no contexto de ciência da longevidade, como relógios epigenéticos. “Cada pequena mudança faz diferença. Existe uma relação de dose e efeito. Entendemos que o efeito máximo dessas intervenções depende de um acompanhamento contínuo”, comenta o médico. Salienta, também, que a proposta é investir em uma linha individualizada em detrimento de um protocolo padrão.