Lula ou Bolsonaro: quem pesou mais no seu tanque de combustível?

Às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial, marcado para este domingo (4), a série histórica da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) mostra que os dois grupos políticos que polarizam a disputa deixaram marcas diferentes nas bombas.

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No mandato de Jair Bolsonaro (PL), entre 2019 e 2022, o preço médio do diesel S10 subiu 79,8%, e o da gasolina, 14,5%. No de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de janeiro de 2023 até esta semana, a gasolina avançou 27,9%, o diesel S10, 12,9%, e o etanol, 3%.

A comparação usa a primeira semana de pesquisa de cada mandato e a última disponível — no caso de Lula 3, a encerrada neste sábado (3). A inflação muda a leitura: o IPCA acumulou 26,9% nos quatro anos de Bolsonaro e 17,9% no período de Lula. Descontado o índice, o diesel ficou 41,7% mais caro na gestão anterior e 4,2% mais barato na atual, enquanto a gasolina recuou 9,8% em termos reais com Bolsonaro e subiu 8,5% com Lula.

As duas pontas da série, porém, carregam efeitos de decisões dos próprios governos.

A gasolina de dezembro de 2022 ainda estava sem tributos federais por causa de cortes temporários, e o diesel vendido hoje conta com subvenção de R$ 2,12 por litro paga a produtores e importadores. Nos dois casos, as medidas vieram em ano eleitoral.

CombustívelInício Bolsonaro (jan/2019)Fim Bolsonaro (dez/2022)VariaçãoInício Lula (jan/2023)Atual (out/2026)Variação
Gasolina comumR$ 4,33R$ 4,96+14,5%R$ 5,12R$ 6,55+27,9%
Etanol hidratadoR$ 2,83R$ 3,87+36,7%R$ 4,01R$ 4,13+3,0%
Diesel S10R$ 3,55R$ 6,38+79,8%R$ 6,51R$ 7,35+12,9%

Pandemia, guerras e corte de imposto em ano de eleição

No governo Bolsonaro, a primeira grande virada foi para baixo. A pandemia esvaziou as ruas e derrubou a gasolina para menos de R$ 4 em maio de 2020, o menor preço do mandato.

A recuperação veio rápido e, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, virou disparada. Em junho daquele ano, a gasolina bateu R$ 7,39, e o diesel S10, R$ 7,68.

A resposta do então presidente teve duas frentes: pressão sobre a Petrobras e corte de impostos.

A pressão começou cedo. Em abril de 2019, Bolsonaro admitiu ter ligado para o comando da estatal para barrar um reajuste do diesel.

As ações despencaram, a empresa perdeu mais de R$ 32 bilhões em valor de mercado em um dia, e até o ministro da Economia, Paulo Guedes, considerou a decisão pouco razoável. Ao longo do mandato, a Petrobras teve quatro presidentes.

O corte de impostos veio em 2022, ano eleitoral, quando leis sancionadas por Bolsonaro zeraram os tributos federais sobre os combustíveis e limitaram o ICMS cobrado pelos estados.

Em paralelo, o Congresso aprovou a PEC Kamikaze, que reconheceu estado de emergência por causa dos combustíveis e liberou auxílios a três meses da votação.

O efeito apareceu rápido nas bombas. A gasolina caiu mais de um terço em pouco mais de três meses e chegou ao primeiro turno perto de R$ 4,80, mas a conta veio depois.

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Arte: AutoPapo | Eduardo Passos

Os estados foram ao STF (Supremo Tribunal Federal) contra o limite do ICMS e, por acordo mediado pela corte, a União teve de compensá-los em R$ 27 bilhões, pagos já no governo Lula.

Em 2024, o próprio STF declarou inconstitucionais o estado de emergência e os benefícios criados às vésperas da eleição, por desequilibrarem a disputa entre os candidatos. A decisão não teve efeito prático, porque o dinheiro já havia sido pago.

Já a interferência na Petrobras não é ilegal em si, já que a União é a acionista controladora. O estatuto da estatal, porém, prevê que o governo compense prejuízos causados por esse tipo de decisão.

Impostos, dólar e mais guerras

Lula começou o mandato com uma decisão que pesou no bolso: trouxe de volta, em 2023, os tributos federais sobre a gasolina, para recompor o caixa do governo. O preço subiu nas bombas logo nos primeiros meses.

Em maio, cumpriu uma promessa de campanha: a Petrobras abandonou o Preço de Paridade de Importação (PPI), política que atrelava os preços ao mercado internacional, e anunciou cortes. O diesel caiu para menos de R$ 5, o menor valor do mandato.

O alívio durou pouco: com o preço interno muito abaixo do externo e relatos de falta de diesel em postos, a estatal aplicou em agosto um reajuste forte nos dois combustíveis. Em 2024, Lula também trocou o comando da empresa: demitiu Jean Paul Prates e nomeou Magda Chambriard.

O maior teste veio em 2026, quando a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, a partir do fim de fevereiro, restringiu a navegação no Estreito de Ormuz, rota de cerca de um quinto do petróleo do mundo. Em cinco semanas, o diesel subiu quase 25%.

A reação do governo veio em série: imposto zerado no diesel, subsídio a produtores e importadores, taxa sobre a exportação de petróleo e, depois, ajuda também à gasolina.

O pacote mais recente saiu em setembro, a menos de um mês da eleição, quando Lula ampliou o subsídio do diesel e cortou tributos da gasolina e do etanol. Mesmo assim, a gasolina não caiu nas bombas, e o diesel voltou a subir.

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Arte: AutoPapo | Eduardo Passos

O governo diz que reage a um choque externo, que as medidas são pagas com a arrecadação extra do petróleo e que têm prazo curto justamente para respeitar a lei eleitoral.

Diferentemente de 2022, o dinheiro vai para empresas, e não diretamente para a população, e não houve decreto de emergência.

Mesmo assim, a oposição fala em pacote eleitoral e críticos lembram que cada R$ 1 de subsídio por litro custa cerca de R$ 5 bilhões por mês e que o benefício foi esticado até 26 de outubro, um dia depois de um eventual segundo turno.

Economistas apontam ainda um limite: como mais de um quarto do diesel consumido no país vem de fora, o subsídio só amortece parte da alta.

Até agora, nenhuma das medidas foi suspensa pela Justiça.

O que Lula e Flávio prometem ao setor automotivo

Inelegível até 2030 por decisão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Jair Bolsonaro está fora da urna. Quem disputa pelo PL é o filho, o senador Flávio Bolsonaro, que apresenta seu plano como continuação do governo do pai.

Do mandato de Bolsonaro, o motorista herdou uma CNH que vale até dez anos e um limite maior de pontos antes da suspensão da carteira. Em 2022, o governo também cortou duas vezes o IPI dos carros.

Foi nesse período ainda que a Petrobras deixou a BR Distribuidora, hoje Vibra.

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Jair Bolsonaro estendeu a validade da CNH (Foto: AutoPapo | Gabriel Fernandes)

Já Lula aposta em incentivos: em 2023, deu descontos de até R$ 8 mil na compra de carros mais baratos. Em 2024, criou o Mover, que oferece quase R$ 20 bilhões em créditos às montadoras que cumprirem metas de eficiência e descarbonização.

Depois vieram o IPI zero para compactos nacionais menos poluentes, o fim da obrigatoriedade da autoescola para tirar a CNH e uma linha de crédito para motoristas de aplicativo e taxistas comprarem carro novo.

O governo também voltou a cobrar, aos poucos, imposto de importação sobre carros elétricos.

Se reeleito, Lula promete levar a Petrobras de volta ao mercado de distribuição de combustíveis, algo que uma cláusula da venda da BR impede até meados de 2029. O plano também prevê mais refino, mais biocombustíveis, eletrificação gradual dos ônibus e proteção previdenciária para motoristas de aplicativo.

Linha de montagem da GWM em iracemápolis presidente lula
Lula apostou nas visitas às fábricas de carros, linhas de crédito e CNH simplificada (Foto: GWM | Divulgação)

Flávio aposta em menos impostos. Promete reduzir a carga sobre combustíveis e energia e rever a reforma tributária para baixar o novo imposto sobre o consumo, que o plano estima em cerca de 30%.

O candidato do PL também defende manter as regras atuais para motoristas de aplicativo, retomar privatizações caso a caso e ampliar a produção de petróleo e gás, inclusive com a liberação do fracking.

O plano não cita a Petrobras nem traz um programa específico para a indústria automotiva.

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