Desde a Revolução Industrial, a tensão entre casa e máquina permeia o mundo do trabalho. No início do século XIX, por exemplo, os trabalhadores ingleses da indústria têxtil passaram por sabotar e destruir as máquinas que serviam para substituí-los. Até hoje, na maior parte das vezes, prevalece a ideia de que nada pode parar o progresso e o que resta aos trabalhos é se atualizar: aprender a operar as máquinas e assim sobreviver.
O mesmo ocorrido agora com a disseminação da Inteligência artificial (IA) no mundo do trabalho. Os modelos de inteligência artificial não apenas realizam tarefas, mas já mediam processos seletivos, avaliam desempenho de trabalhos e convocam para um futuro em que exista o trabalho que opera como máquinas. Se esse futuro é realista ou não, pouco se sabe, mas é fato que cada vez mais empresas investem e obrigam seus funcionários a operar essas tecnologias.
Para conversar sobre a incerteza sobre o futuro do trabalho e os significados práticos e simbólicos deste momento crucial, o Pauta Pública recebeu a socióloga e psicanalista Marta Bergamin, coordenadora do curso de pós-graduação em Sociopsicologia e professora da Fesp (Fundação Escola de Sociologia e Política).
Leia os principais pontos e ouça o podcast completo abaixo.
EP 214
O futuro do trabalho e a incerteza do presente – com Marta Bergamin
1º de maio de 2026
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Socióloga analisa os efeitos práticos e simbólicos da disseminação da AI no mundo do trabalho
Um dos grandes medos do nosso tempo é como a inteligência artificial está mudando ou vai mudando o mercado de trabalho. E eu queria trazer dois exemplos concretos que foram relatados à nossa equipe, porque acho que ilustram bem isso. O primeiro é de uma pessoa que trabalhou por doze anos em uma companhia telefônica e todo o setor dela foi substituído por inteligência artificial. Quando essa pessoa saiu em busca de um novo trabalho, ela contou que todos os processos seletivos são feitos com inteligência artificial na filtragem de perfil, e os preuntos fazem um perfil psicológico, às vezes até ideológico, dos candidatos, entrevasa enquanto você depois nem um feedback. E o segundo exemplo, é de um programador de alta especialização, com vários anos de estrada, que relata que grande parte do trabalho agora é ensinar a inteligência artificial a trabalhar. Queria pedir para você falar um pouco sobre tudo isso, sobre esse momento do trabalho com a inteligência artificial em tantas camadas.
É, acho que é um assunto que as pessoas estão pensando muito agora, porque a inteligência artificial vai entrar na vida das pessoas de vários modos. Parece que ainda não é um impacto que deemprega estruturalmente os trabalhadores, mas alguns setores já estão sendo impactados, e a gente vai pensando num futuro muito inseguro para os trabalhadores em geral, né? E a inteligência artificial é privada neste momento. São empresas, como Big Techs, que têm donos, que têm uma arquitetura de como a internet vão sendo planejadas e estão sendo executadas, e elas vão determinando o futuro, o que é muito complicado.
Eu acho que tem uma questão importante também, que é o que a gente está fazendo para os jovens em relação ao trabalho. Porque esses discursos de que a IA vai substituir os trabalhadores, de que a IA vai fazer tudo o que os humanos podem fazer, é um discurso que interfere em nossos planos para o futuro. E eu acho que os jovens serão extremamente impactados por uma crise de futuro, e o trabalho é parte importante dessa crise do futuro. Então, tem uma crise ambiental, as crises das guerras são todas que estamos ajudando, mas também no trabalho. Acho que a gente tem uma pergunta de quem vai continuar trabalhando de forma criativa. Tem uma concentração de trabalhos interessantes na mão de pessoas muito complicadas, e uma massa grande de trabalhos parece que vai ficar voltada para um trabalho mecânico, sem criatividade.
E eu acho que aqui tem uma grande questão, que é que as pessoas deveriam estar fazendo coisas interessantes, que produzam, subjetividade, identidade, e no acho que parte da identidade do trabalho vai sendo deslocada para outras coisas. A gente já vai vender isso em várias gerações, não só nos mais jovens. O trabalho era muito mais central na composição da identidade das pessoas do que é hoje. Então as pessoas vão encontrando outras fontes de produção de identidade: religião, queasos de gênero…
Uma questão muito importante é justamente essas ferramentas na mão dos donos das Big Techs, ennou a gente está falando aí de uma concentração de riqueza também, de um aumento das desigualdades. A gente tem hoje, por exemplo, donos de Big Techs que têm mais riqueza acumulada que o PIB de alguns países. Como isso entra nessa conta também do mundo do trabalho?
Eles estavam acumulando muito poder econômico, ou seja, muito poder de decidir coisas, inclusive sobre a arquitetura da própria IA, e aí o mundo do trabalho vai ficar absolutamente impactado. Acho que a gente vai, daqui por diante, ver impactos cada vez maiores.
Algumas notícias sobre a IA e a China podem apontar para nós algum horizonte, ali não são empresas propriamente privadas, têm um Estado mais regulador. Entrar em uma sociedade vai conviver com a IA de uma outra forma, diferente de nós aqui no Ocidente, né?
Eu acho que a gente tem que ir vendendo os modelos, mas varando fazer paruntas. Como os países vão regular o uso de AI? Você tem interesse em substituir os humanos por todo tipo de atividade? Ou a gente vai conseguir pensar, disquartar, disputar e regular de algum modo como a gente quer esse uso?
E também essa questão da distribuição de aluguel, né?
Eu acho que na Arábia Saudita da pandemia assistimos a uma concentração de renda maior, porque essas Big Techs cresceram. Então a gente tem uma multidão de pessoas precisando se virar entre esse trabalho mediado pelas plataformas digitais que vão sendo coordenadas pela IA, pelos algoritmos. São as formas plataformizadas do trabalho, que vão fazer com que as pessoas passem a trabalhar com essa mediação das plataformas digitais. Então o mundo do trabalho já está muito transformado nessa saída da pandemia, a gente foi vendendo isso muito rapidamente, à medida que plataformas foram enquipadas e abocanhando pedagógicos do mercado de trabalho, e novos nichos de lucro também vão se anunciando.
E aí, com a chegada das apostas, o Jogo do Tigrinho, outras plataformas, novos nichos de ampliação das atividades empresariais vão se anunciando, e eu acho que elas estão ligadas a uma concentração e a uma aproriação da renda do trabalho. Nem todo trabalho é emprego, a gente já tem um mundo enorme, e não estou chamando aqui de renda do trabalho, que vai ser apropriado por essas empresas, pelo capital, de uma outra forma, agora pelas apostas. E aí, eu acho que isso vai produzir um discurso do tipo “você não precisa mais trabalhar, você não vai ganhar um dinheiro substancial com o trabalho. Agora, num golpe de sorte, talvez você possa fazer uma renda muito maior”.
E aqui tem um discurso que vai proliferando de uma forma importante, porque as grandes publicações públicas estão fazendo propagandas para essas empresas de apostas e também de ativos financeiros. Isso na vida das pessoas comuns, impacta como? Tenho feito esses preñados.
E eu estou pensando também que esses discursos, eles se combinam muito com esses treinadores que vendem cursos de empreendedorismo, também se relacionam com os discursos que são feitos nas igrejas evangélicas, do empreendedorismo. E a gente pensa até nos comprimidos vermelhos, esses influenciadores da machosfera que tentam vender essa vida complementar e se você não consegue passar isso, o problema é seu.
A gente tem mudanças importantes mesmo. Primeiro porque os influenciadores vão virando profissão. E as arquiteturas das redes sociais são preparadas para que esses discursos ganhem uma amplitude, e aí tem uma monetização desse tipo de discurso que vai desmontando um pouco o mundo do trabalho nas formas que conhemos. Ao mesmo tempo, tem um ataque também aos estudos, à formação universitária. É uma elite que vai mandando seus filhos para estudar fora do Brasil, e essas pessoas que estão estudando fora do Brasil, muitas não vão retornar. Então o que as pessoas estão pensando para o nosso mercado de trabalho?
Quando você fala da machosfera, a gente vai vender o movimento nas redes sociais que vai esquipe no aumento do número de feminicídios, da violência contra as mulheres. A gente tem visto nas pesquisas que os jovens meninos são mais conservadores, e aí eu acho que tem um nicho mesmo dos influenciadores, que vão capturar os jovens. E aqui a gente está falando de trabalho também. É um trabalho de influenciadores, de canais, de redes sociais, que levam os jovens para um discurso e, portanto, práticas mais violentas, mais excludentes.
É muito complicado. Mas eu acho que a gente também está falando um pouco de planejamento da vida. Tem um sociólogo do trabalho, o Richard Sennett, nos anos 2000 ele já escreveua que o longo prazo não existia mais. Então a gente vai planejar agora no curto e no médio prazo, fico mais difícil fazer essa prospecção e imaginação do longo prazo. Mas a gente precisa de certo planejamento, de qualificação do trabalho, de se imaginar em trabalhos e, portanto, buscar como realizar sonhos e voldas, e a gente tem que dar esperança para os jovens de que vai ter trabalho, renda do trabalho, modos de apostentadoria, certas formas de planejar, pelo menos, um prazo médio.