Inadimplência rural bate recorde

Inadimplência no crédito rural chega a novo recorde e acende alerta sobre o acesso dos produtores à renegociação das dívidas.Foto: Imagem gerada por IA/ND Mais

Segunda-feira é dia de colocar as contas em dia. Mas, no campo, cada vez mais produtores estão começando a semana com a conta atrasada, o crédito mais difícil e a renegociação ainda distante da realidade da propriedade.

A inadimplência no crédito rural para produtores pessoas físicas bateu novo recorde em agosto. Segundo dados do Banco Central, o índice chegou a 9,69% da carteira de crédito rural com recursos direcionados. Em agosto de 2023, essa taxa era de 0,95%. Ou seja: em três anos, a inadimplência praticamente multiplicou por dez.

É um salto que ajuda a explicar o aperto vivido pelo produtor rural brasileiro. Não é apenas um número em planilha. É o retrato de uma cadeia pressionada por juros altos, perdas climáticas, queda de preços, aumento de custos, menor liquidez e dificuldade de acesso a novas linhas de financiamento. E o alerta vem no pior momento possível: a safra 2026/2027 já começou a ser plantada.

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Crédito mais cauteloso, produtor mais apertado

Quando a inadimplência sobe, o sistema financeiro reage, os bancos passam a emprestar com mais cautela, as garantias ficam mais exigentes, o crédito encarece e o produtor que precisa de fôlego para comprar insumo, alongar dívida ou manter a atividade, passa a enfrentar mais portas fechadas.

É aí que a crise deixa de ser apenas financeira e passa a ser produtiva. Se o produtor não consegue crédito, reduz investimento. Se reduz investimento, compromete produtividade. Se compromete produtividade, diminui renda. E, com menos renda, a dívida fica ainda mais pesada. É um ciclo conhecido, perigoso e difícil de quebrar.

No crédito rural direcionado para pessoas físicas, o atraso acima de 90 dias avançou de forma contínua nos últimos anos. Em julho, já havia chegado a 8,79%. Em agosto, subiu para 9,69%, o maior patamar da série. Nas operações com taxas de mercado, o quadro é ainda mais delicado. A inadimplência passou de 15,6% para 17,6% em agosto. Nas operações com juros controlados, também houve alta, chegando a 3,8%. O campo está financiando a safra com menos margem, mais risco e mais incerteza.

Renegociação anunciada, acesso difícil

É nesse ambiente que a Medida Provisória 1.376/2026, a MP das dívidas rurais, deveria funcionar como instrumento de alívio. A medida criou linhas para composição de dívidas rurais, permitindo liquidação ou amortização de operações de crédito rural e Cédulas de Produto Rural, as CPRs, em condições especiais para produtores afetados por perdas de safra, eventos climáticos e queda de preços.

No papel, a intenção é clara: evitar que a dívida rural se alastre, preservar a capacidade produtiva e permitir que o produtor volte a acessar crédito. O problema é o caminho entre o anúncio e o contrato assinado. E é justamente esse ponto que a Frente Parlamentar da Agropecuária, a FPA, passou a criticar com mais força após a apresentação do relatório da MP na comissão mista.

Na avaliação da bancada, o texto apresentado pelo relator, deputado Paulo Pimenta, não resolve o principal problema: o acesso às linhas de renegociação. O presidente da FPA, deputado Pedro Lupion, resumiu a crítica ao afirmar que “os principais entraves continuam”. Ele também alertou que o endividamento “já chegou ao patrimônio das famílias rurais”. Essa é a frase que deveria acender luz amarela em Brasília. Porque quando a dívida sai da operação e chega ao patrimônio, a crise muda de estágio.

O nó dos laudos

A FPA apresentou carta aberta com pelo menos sete entraves classificados como gargalos para a implementação da MP. Um dos pontos mais sensíveis é a exigência de laudos agronômicos para comprovação de perdas passadas. A bancada pediu simplificação desses atestados, já que não é permitido emitir laudos retroativos, e também defendeu a possibilidade de comprovação por laudos coletivos no caso de pequenos produtores.

O pedido não foi atendido no relatório. Na prática, isso mantém uma barreira importante para produtores que, em tese, são elegíveis à renegociação, mas podem não conseguir comprovar as perdas da forma exigida. E aqui está o coração do problema: uma política pública pode ser bem-intencionada, mas, se a documentação inviabiliza o acesso, o efeito na ponta fica pequeno. O produtor que perdeu safra, renda e capacidade de pagamento não precisa apenas de uma linha anunciada, precisa conseguir entrar nela.

O que mudou no relatório

O relatório trouxe alguns avanços. Um deles foi a inclusão das CPRs não bancárias, emitidas em favor de cooperativas e fornecedores de insumos. O texto prevê que bancos poderão adquirir novas CPRs para liquidação ou amortização dessas dívidas antigas. Também foram incluídas CPRs em situação de adimplência como passíveis de renegociação pelas linhas da MP.

Outro ponto foi a mudança da data de verificação da inadimplência. A MP original trazia o limite de 31 de maio de 2026. O relator ampliou para 31 de agosto, considerando a demora no início da execução da medida. São ajustes relevantes, especialmente para produtores que dependem de cooperativas, revendas e fornecedores para financiar a atividade.

Mas, para a FPA, eles não resolvem o problema central. A bancada afirma que seguem pendentes temas como flexibilização de entradas, juros durante a carência, revisão de garantias, simplificação documental e ampliação efetiva do alcance da renegociação.

O governo diz que vai acelerar

Do lado do governo, a leitura é outra. A ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, afirmou que a renegociação deve ganhar ritmo nos próximos 30 dias. Segundo ela, R$ 3,6 bilhões já foram contratados pelas linhas criadas pela MP 1.376/2026.

A ministra atribui o ritmo inicial mais lento ao tempo necessário para regulamentar as linhas e permitir que os bancos operacionalizassem as operações. Dados apresentados pelo Ministério da Fazenda à Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, a CNA, apontam que, até 16 de setembro, R$ 3,19 bilhões haviam sido contratados. O valor corresponde a 10,8 mil novas operações e 17,9 mil renegociações.

O problema é a proporção. Esse volume representa pouco mais de 12% dos R$ 25,8 bilhões autorizados para o programa. Ou seja: há recurso previsto, há demanda evidente, há dívida crescendo, mas a execução ainda anda em ritmo menor do que a urgência do campo.

Prazo curto e eleição no meio do caminho

A MP também enfrenta uma corrida contra o calendário. O prazo final para votação no Congresso vai até 11 de novembro. Já o prazo para contratação das operações termina em 12 de novembro. Em outubro, ainda há o impacto do calendário eleitoral, o que pode atrasar a votação e reduzir o tempo de implementação das mudanças.

E esse detalhe importa. Se o Congresso aprovar ajustes tarde demais, produtores recém-incluídos ou beneficiados por novas regras podem não ter tempo hábil para buscar a renegociação junto aos bancos.

É o tipo de situação em que Brasília resolve no papel, mas a porteira continua fechada na prática e o campo não tem tempo sobrando. A safra anda, o vencimento chega, o banco cobra, o fornecedor precisa receber e a próxima compra de insumo não espera a comissão mista terminar a reunião.

O anúncio precisa chegar ao produtor

A inadimplência recorde mostra que a crise do crédito rural não é discurso de entidade. É dado do Banco Central. A MP das dívidas mostra que o governo reconheceu o problema. A crítica da FPA mostra que o Congresso ainda discute se a solução está chegando a quem precisa e a fala da ministra mostra que o Executivo aposta na aceleração das contratações nos próximos dias.

A pergunta, então, é simples: a renegociação vai chegar a tempo? Porque, para o produtor, não basta existir linha no Diário Oficial. Não basta ter recurso autorizado. Não basta ter discurso de boa vontade. O que conta é contrato assinado, dívida reorganizada, nome limpo, crédito reaberto e condição mínima para plantar, produzir e pagar.

Segunda-feira é dia de pagar conta e, no campo, a conta já passou da gaveta para a mesa.

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