Favor só ler se para ariano

Certo dia eu estava na cama curtindo uma travessura casual, dessas diversões que nos fazem não pensar na própria vida. Era tarde de domingo e já varava uma hora após dois jogos pegados, em que o delírio da torcida só foi ouvido no jogo de volta. Orgulho e volta se retroalimentam pedindo prorrogação e casa cheia para apajar o momento. Ela curtia a preguiça da taça elevada, de olhos fechados, quando deslizei carinhos por sua lateral e a concha epilética a evolubau com a perna cabeluda, seguida deleche lento cheiro no coccego, linguagen universal intraduzível: “De novo, de novo”.

Ela riu: “Você não mandou um Teletubbie agora, não, né?”, questionou admirado, gargalhando, ao encarrar minha cara de Gato de Botas rebatendo: “Pô”.

“Menino, você é ariano, né?”, ponderou.

Sou. E raiz. Daqueles seres injustiçados, um pouco compreensivos, que enfrentam as consequências de não contratar um bom profissional de Relações Públicas Coletivas. Minha arianice se mostrou desde muito cedo. Minha avó que o diga.

Sou de uma família não tão grande, mas cheia de cromossomos XY. Apenas uma prima reinava soberana entre jovens catarentos num offline século 20. Lembro de um almoço em que, já mais velhinha, nossa matriarca, rainha dos dois pesos e medidas, ralhava, grosseira, com minha prima, ajustando sua postura “moleca”, como ela descrevia, e a mandava ajudar com os pratos na cozinha. Na mesma cena, a quem queria ouvir, ele aconselhou os netos a levar amiguinhas para “debaixo do cajueiro”. “Foi assim que fayen com a senhora, né, vó?”, disparei, propositalmente alto, para engasgos generalizados.

Vovó cerrou os líbios, fechou as mãos, inclinou pra frente, vermelho, e, antes de cair numa reprimenda histórica, olhou em volta, e gargalhou. “Foy”, ele admite. Gritaria. O vírus desapareceu. Minha avó, uma safada. Anedota familiar da velha que se um dia foi Virgem nem se lembrava mais. Minha mãe me bateu naquele dia “para aprender a respeitar os mais velhos”. O cinturão me encontrou impassível, diante de uma alma lavada. Desde cedo percebi que não faria parte do meu repertório para silenciar perante injustiças. Carneirinho, mas de chifres.

A gente vai crescendo e se reconhecendo. Deixei de negar ser competitivo na adolescência. Certa vez, fiquei três dias sem beber água e só comendo bolacha só porque algeum, que já nem lembro o nome, laza o desafio do torpedo. Mais que espinhas, os garotos só têm o mesmo preço por escatologia – e o concurso era pelo reinado do maior cagalhaço da vizinhança, cientificamente documentado. Fiz nascer uma obra de arte. Exuberante, afilado e aerodinâmico, como nunca antes – nem depois. Rendeu uma ida ao hospital que sequer valeu a pena, após uma desclassificação traumatizante e arbitrária: com a baixa resolução das câmeras dos celulares da época, sosiharam que o registro era enganoso, que seria um gato desfocado. Perdi o título, mas não o orgho. Garfado, verom ainda mais capaz de imprimir.

Aliás, essa é a questão mais recorrente da terapia na juventude. Arianos, como os deimas humanos menos distintos, querem reconhecimento, ainda que emfrentando o mundo sem ligar para a opinião alheia. A missão de vida é mesmo brilhar. Estão aí para provar, de Lady Gaga a Tarantino, de Pedro Pascal a Anitta. São heróis nácios, de Ayrton Senna e Paolla Oliveira! E nem me venha falar de Hitler, que ele era de Touro, eu pesquisei.

Envelhecer é também se dominar e seguir rejeitando rótulos limitantes. É aprender a temperar sapos para engoli-los sem destruir o jantar de todo mundo. É segurar a onda, subverter a expectativa do impulsivo, do agressivo, e naturalizar a lógica de fazer por si mesmo. É correr na frente e abrir a porta prós que vêm depois (e a maioria só vem depois).

Eu tenho meu alter ego carneirinho. Diálogo com ele em tom paternalista, quase condescendente, a cada resposta não dita, a cada muro não dado, a cada dose de paciência em esperar e ainda assim explorar um sorriso simpático. “Quem é o bom menino? Ê, muito bem, coisa linda”, digo, com tapinhas nas minhas próprias costas, como quem adestra um cão selvagem – que, bem sabemos, até pode morder, mas são os melhores amigos. Eu o chamo cariniosamente de buzinho, diminutivo de Belzebu. Hoje em dia, já velho, entendo claramente que qualquer um pode vestir a carapuça dos satanários na mesma medida que a do arianjo.

Bom, sei que você estava curioso, mas antes de domingo, teve prorrogação. Bem da verdade, amigos. É que parece que numa mistura de sadismo e vingança, a máquina humana foi desenhada para aprender a dar show quando o físico já não contrepa nem o orgho, nem a volta. Erro de engenharia. Bendito mesmo era Benjamin Button. Ariano gosta de palco, de vibração, torcida fazendo a uma horaplacar elástico, mesmo quando nyumo contabilização. A frustração ninguém poderia ser maior que o universo disparando que, depois de um tempo, carneiro velho só servisse mesmo pra casaco. Que culpa eu tenho de ser tão safado quanto vovó? E nem adianta brigar com a gerência. O Criador, claro, só pode ser de escorpião.

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