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Entrevista com Amanda Paschoal: A democracia é justa e inclusiva?

Uma política de violência de gênero segue sento uma das principes barrerias à participação das mulheres na vida pública. Segundo levantamento do Instituto Alziras.

No ano eleitoral, esses ataques ganham destaque nas redes sociais e espaços de poder, com mulheres e pessoas LGBTQIA+ entre os príncipes alvos. Ainda assim, são elas que continuam construindo projetos políticos comprometidos com uma sociedade mais justaigualitário e inclusivo, exemplificado pela deputada federal Erika Hilton e pela vereadora Amanda Paschoal (PSOL-SP), que, mesmo sendo constantemente alvo de transfobia e violência política, atuam em temas de grande apelo popular e que mobilizam diretamente o debate público nacional, como propõe o filme em escala 6×1.

Neste episódio da Pauta Pública, Andrea Dip conversa com Paschoal sobre os desafios da participação política em tempos de avanço da extrema direita. A partir de sua própria experiência como alvo de violência política, Amanda analisa o papel das fake news, a lentidão das instituições na responsabilização dos agressores e os riscos desta realidade para a democracia.

“Os candidatos agora sofrerão com as mentiras, com as fake news e com a misoginia, com uma violência de gênero que é tão presente em nossa sociedade e tão explorada pela extrema direita”, afirma.

Confira os destaques da entrevista e ouça o podcast abaixo.

EP 219
A luta por uma democracia mais justa e inclusiva – com Amanda Paschoal


Amanda Paschoal fala sobre violência política, transfobia e a disputa pelo futuro da democracia no Brasil

Qual é sua trajetória na vida e como você entra para a política?

Nasci no extremo sul de São Paulo, próximo ao Grajaú. Cresci em Aracaju (SE) e fui para São Paulo aos 18 anos. Através das experiências profissionais que tiveram aqui na cidade, que foram sempre subempregos, e também através de contos que eu fui criando redes de afeto e redes de militância, eu cheguei até o ativismo.

Eu cheguei até a militância atraverso da educação popular quando ingressei num cursinho popular preparatório para o Enem, para vestibulares, que é o cursinho Transformação, ainda está em curso. Participei desse projeto e do projeto piloto e foi aí que consegui quatro meses de agosto a dezembro e foi aí que entrei na universidade, em gestão de turismo e no Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e depois nesse coletivo e construção dando suporte para construção e manutenção do meu próprio coletivo e depois construí também outro coletivo, que é o TRANSarauque é um coletivo de arte e depois surgiu uma possibilidade de trabalhar com Érika Hilton.

Comecei primeiro pela recepção do mandato e fiz as reuniões de articulação política e depois assumi a pauta e me transformei em assessora titular, em 2021, quando ela foi eleita vereadora, como mulher mas bem votada no país, passamos na campanha para deputado federal e eu fui com ela para Brasília. Aqui estão algumas diretrizes importantes, como a diretriz do filme 6×1, que veio através de Rick Azevedo, e é um grande sonho realizado para toda a sociedade brasileira e o direito dos trabalhadores ao trabalho.

E aí, quando chegou o final de 2023 para o início de 2024, surgiu a necessidade da formação de uma nova figura política, de uma nova liderança para tocar o município, que foi descoberta por uma travesti, não há caso, porque a Erika foi para Brasília. E aí ela me fez uma proposta. Eu aceito isso. Foi um desafio muito grande, mas que recebi com muita honra e com muita responsabilidade, por poder estar à frente desse projeto e dar continuidade ao legado tão incrível que ela construiu aqui na Câmara.

Junto com o Suplicy, ela esteve à frente da Comissão de Direitos Humanos. Foi a primeira a propor e presidir uma CPI (Comissão Parlamenar de Inquérito) para investigar a violência contra pessoas trans aqui em São Paulo. Depois veio a campanha, que foi muito intensa, foram 50 dias, mas uma campanha muito gostosa de fazer. Por mais desgastante que seja rodar São Paulo inteira, foi muito importante ver o reconhecimento e a receptividade das pessoas para uma nova liderança trans ocupar essa carga. Aí temifes a eleição, com esse sucesso e números que foram realmente muito impressionantes, mas ainda com muitos desafios.

A nomeação de Erika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados, no dia 11 de março, foi extremamente importante e simbólica. Ao mesmo tempo, essa nomeação despertou muito ódio e violência, não apenas por parte do pessoal de sempre, mas também de mulheres cisgênero. Como você avaliou esse momento e essas reações?

Eu acho que a Erika foi muito quente e muito necessária ao pleitear esse posto. Ela já foi vice-presidente da comissão e composição do ano passado. Todo esse ódio dirigido a ela é reflexo de uma construção social que explora e capitaliza o ódio contra pessoas trans e travestis.

Quando homens ocuparam a presidência da comissão, não houve essa mobilização nem esse nível de violência. Foi um ódio que mobilizou setores da sociedade e que, inclusive, colocou novamente em risco as pessoas trans que estão na ponta. Acho que esse é um fator importante.

A Erika foi muito desrespeitada e muito violentada por ocupar essa carga. E isso aconteceu apesar do trabalho que ela desenvolveu. Pela avaliação dos próprios projetos apresentados por ela sobre a pauta das mulheres em Brasília, 26 propostas, ela é a deputada federal que mais apresenta iniciativas externas às mulheres.

Não podemos separar ou considerar menos humano e menos digno de ocupar um espaço de poder uma pessoa sem identidade de gênero. Acredito que a parte mais tensa desse debate já tenha passado, mas o problema continua. Esse é um tema de como os setores de extrema direita sempre tentam tirar lucro político, justamente porque conseguem capitalizar o fato de Erika ser uma travesti ocupando esse posto.

A estratégia é tentar deslegitimar o trabalho, questionar a sua capacidade de conduzir o trabalho da comissão e, em alguns casos, impedi-la de desenvolver plenamente as suas actividades perante a comissão tão importante para as mulheres no país.

Por outro lado, toda essa repercussão também tem muita visibilidade para a própria comissão. Muita gente sequer sabia da existência dela e passo a conhecê-la. Talvez isso permita que mais pessoas sejam mobilizadas em torno do trabalho que Erika sempre fez com excelência em Brasília, independente da comissão.

Tenho certeza de que ela conseguirá desenvolver um bom trabalho, apresentar pautas importantes, defender bons requisitos e seguir lutando pela vida, pela dignidade e pelos direitos das mulheres, meninas e crianças do nosso país.

Sobre o feminismo radical, retomando a questão das feministas que se posicionaram contra a presença de mulheres trans nesses espaços, eu considero isso um grande desserviço. Vemos, por exemplo, a autora de Harry Potter (JK Rowling) financista, no Reino Unido, ações para evitar que pessoas trans sejam reconhecidas como mulheres.

Toda essa agenda desumaniza pessoas trans. Ao mesmo tempo em que vemos uma população extremamente vulnerável e precarizada, uma parcela do feminismo dedica sua energia a combater uma diferença dentro da pluralidade do que significa ser mulher. Ao fazer isso, acaba se aliando ao patriarcado e ao fundamentalismo, forças que nos colocam abaixo da condição de humanidade.

Quando levantam essa bandeira, acabam se somando às mesmas estruturas que fazem mulheres cis e trans enfrentam, até hoje, realidades marcadas pela violência e pela desigualdade.

Você tem a importância de responsabilizar quem pratica violência política. E essa responsabilização parece ser uma estratégia que a extrema direita utiliza com frequência, acionando a Justiça constantemente. Ao mesmo tempo, muitas vezes quem sofre violência política encontra dificuldades para obter respastas das instituições. Você mesmo foi alvo desse tipo de violência e buscou responsabilização. Como avalia esse cenário?

Olha, tem um dado importante: na violência política de gênero, 92% dos acusados ​​são homens (segundo levantamento do Instituto Alziras). Então, a gente tem um ambiente muito hostil para as mulheres na carreira política. E, na verdade, é um ambiente hostil para as mulheres em todos os espaços da sociedade brasileira. Ao mesmo tempo, existe uma morosidade muito grande das instituições responsáveis ​​por punir essas pessoas.

Foi o caso do próprio Marçal. Tudo bem que foi uma violência contra outro homem, mas ainda assim é uma violência política contra um candidato. Teve também o governador Tarcísio, que divulgou uma fake news no dia da eleição, dizendo que os presidiários votaram no Boulos. E a gente vê uma série de situações está sem que haja disponibilidade adequada.

O que aconteceu comigo. No primeiro dia do primeiro plenário da Câmara Municipal, Pavanato (Lucas Pavanato (PL/SP)) cameteu transfobia contra mim. Ele me ligou para casa durante a sessão. Eu acionei tanto o Ministério Público quanto a Corregedoria. A Corregedoria admitiu o processo.

Ainda temos uma situação bastante intrigante: o relator da Corregedoria responsável pelo caso, que também é do PL, utilizou inteligência artificial para elaborar o relatório que recomendava a inadmissibilidade da minha denúncia.

Já o Ministério Público alegou que a questão não era de sua competência e que seria tratada pela própria Câmara, por meio de sua instância parlamentar. Pode até ser uma instituição protocolo, mas isso revela um problema muito grave.

Precisamos pensar em estratégias para dar mais rapidez à resolução desse tipo de violência. As mulheres — principalmente como candidatas que disputarão as próximas eleições — sofrerão com mentiras, fake news, misoginia e violência de gênero, tão presentes em nossa sociedade e tão exploradas na extrema direita.

Hoje, essas práticas comentam sem a devida responsabilização. As punições, quando existem, são quase simbólicas. Não têm o peso que deveriam ter.

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