Há três décadas exercito a Semiótica de Charles S. Peirce, arcabouço teórico construído a partir do paradigma interpretativista, posição assumida pelo autor, sempre no entrelaçamento com os preceitos da antropologia, em seus aspectos metodológicos indisciplinados (para usar um terno de Mássimo Canevacci) e da psicanálise, com o objetivo de tentar compreender o mundo. Parece pretensioso e é, mas, a teoria semiótica peirceana traz um método de análise muito rentável a esse propósito, constituído a partir de bases fenomenológicas organizadas em três categorias filosóficas denominadas primeiridade, secundidade e terceiridade. Essas três dimensões explicam como o pensamento, a experiência e a realidade se apresentam aos nossos sentidos e à nossa mente e seu exercício cria as condições interpretativas de todos os fenômenos.
O exercício constante e já naturalizado da semiótica de Peirce nos coloca em posição privilegiada ao entendimento dos signos do nosso tempo, do zeitgeist, conceito hegeliano, permitindo tanto a compreensão dos grandes movimentos que constituem o contexto macro, composto pelas forças sociais, culturais, econômicas, políticas, legais e tecnológicas, quanto as manifestações que revelam valores sociais mais aprofundados, incluindo comportamentos humanos e suas relações no e com o ambiente natural e os códigos de superfície, com forte exploração estética, como as tendências de cores, formas, texturas e as modinhas efêmeras. Assim, resta escolher quais signos serão tomados de modo privilegiado à compreensão do mundo. Quais manifestações apresentam de forma distintiva e potente os valores sociais do nosso tempo? Desde sempre e, ainda mais agora, a arte, em suas expressões mais diversas, nos oferece as respostas, não de maneira direta, mas sensivelmente, pelas sutilezas, com inteligência, de soslaio. Na atualidade essas marcas estão também presentes na cultura material de consumo, no design, na publicidade, no cinema, na moda, principalmente quando estes assumem o compromisso estético com o admirável, antes seara exclusiva das artes.
Por desejo sempre e, vez por outra, por obrigação, dedico tempo, concentração e disposição analítica à compreensão do nosso tempo, por isso, as reflexões anteriores que dão conta dos aspectos teórico-metodológicos, mas é importante ressaltar a robusta empiria que concretiza e, vez por outra, questiona esses preceitos. Esta decisão de pesquisar os valores do nosso tempo impõe a necessidade de imersão em espaços institucionalizados de arte, passando pelas bienais nacionais e internacionais, exposições, galerias, museus, teatros, festivais, cinema, TV, redes sociais, centros culturais, mas também imersão em ruas populares, ruas de alto luxo, centros comerciais, vitrinas; espaços onde existem e trafegam fluxos de produtos, serviços, projetos e ideias, que permitem o acompanhamento das produções criativas de signos diversos, em circulação, portanto, produzidos e partilhados pelas pessoas, que também interferem nesses processos, contestando visões reducionistas acerca do consumo, que o limitem ao simples ato de compra. Neste movimento, extraí manifestações emblemáticas do clima cultural, intelectual, psíquico e moral em que vivemos, que revelam nossos interesses, paixões, ambições e quereres. Para compreendermos esses movimentos é importante ressaltar os caminhos contextuais que nos trouxeram até aqui.
Em décadas recentes, com a crise das grandes narrativas que estruturavam a nossa vida, centradas na ciência e na tecnologia, compreendidas por filósofos, sociólogos, economistas e semioticistas que se arvoraram a esta tarefa, tivemos uma forte centralidade da vida no presente como resposta possível às questões que se apresentavam no cotidiano. O passado já não explicava mais. Com marco histórico na Segunda Guerra Mundial e o emblema ético-estético e midiático da bomba atômica, a ciência e a tecnologia que prometiam e cumpriam, em grande medida, melhores condições de vida, trouxeram sofrimento, morte e destruição massiva. Enxergar o futuro passou a ser muito difícil, porque as incertezas nos tomaram.
As décadas de 1980 e 1990 trouxeram algum respiro, pareciam promissoras: projeto genoma humano, globalização e internet prometendo acesso e exercício do multiculturalismo, mas a virada do milênio chegou com outras camadas de dúvidas; para os mais velhos será fácil lembrar do assombro mundial trazido pelo “bug do milênio”, com uma nova onda de “fim do mundo” e reedições de profecias apocalípticas. 2001 e a “era do terror” contribuíram para o aumento da sensação global de insegurança, medo e de tensões que haviam dado sinais de atenuação com o multiculturalismo, promessa da globalização, só que não.
Com a vida no presente, o culto à felicidade ganhou força, a hora é agora, carpe diem, pílula da felicidade (Prozac ou balinhas de mesmo nome), fábrica da felicidade (Coca-Cola), lugar de gente feliz (Pão de Açúcar) e assemelhados imperavam na paisagem global. No Brasil, “O gigante acordou” e “Vem pra rua” demonstravam a euforia de uma década de crescimento e maior igualdade econômica. Mas os conflitos, de natureza diversa, se espalharam pelo mundo, acrescidos de novas crises financeiras, econômicas, sociais e ambientais. Para lembrarmos de algumas, bolha financeira americana que se transformou no tsunami econômico de 2008 e nos seguintes, conflitos bélicos e guerras no Afeganistão e no Iraque, na Síria, Primavera Árabe etc. No Brasil, as manifestações de 2013 (0,20 centavos e os rolezinhos), o 7 x 1 da Alemanha sobre o Brasil na Copa do Mundo de 2014, os protestos de 2015 (SOS intervenção militar e outros que tais), o desastre de Mariana (2015) , a polarização expressa na linguagem verbal com os “Coxinhas e Mortadelas” (2016), os “Petralhas e Bolsominions” (2018), desastre de Brumadinho (2019) são marcas inesquecíveis.
Em abril de 2020, a pandemia da covid-19 se torna um evento global, com mais de sete milhões de mortes pelos dados oficiais da OMS, encerrada como emergência global apenas em 2023. O medo se instalou com toda a força, e aquela possibilidade de viver o presente foi definitivamente banida, o presente tornou-se angustiante. As manifestações desse mood sofrido já estavam escancaradas na arte desde 2017 (Bienal de Veneza, Documenta de Kassel, Bienal de Arte de São Paulo e outras tantas), sinalizando que algo insuportável estava por vir e veio. Sem cessar as tensões, os conflitos bélicos seguem, Israel, Palestina, Líbano, Síria, Iêmen, Sudão, Miamar, Congo, Rússia e Ucrânia, são expressões das lutas e da dificuldade de construir consensos mínimos entre humanos.
No ambiente tecnológico, a inteligência artificial protagoniza grandes feitos e enormes tensões, com impactos na democracia, já desgastada, na vida cotidiana dos cidadãos, no psiquismo de crianças e jovens, na soberania de países. A sensação de atordoamento é geral ninguém melhor que Florentina Holzinger, 40 anos, artista austríaca, para expressar com a sua performance, essa sensação de zonzice. Na Bienal de Veneza de 2026, Florentina, desnuda, escala a corda em direção ao grande sino de bronze e, de cabeça para baixo, toca o sino com seu corpo se movimentando de um lado para o outro, tornando-se, ela própria, o badalo. A performance chama a atenção para o apocalipse climático, no entanto, é a mais expressiva manifestação de como estamos nos sentindo: atordoados, sem referências, sem forças para imaginar. Em Step into the fog, instalação imersiva da artista japonesa Fujiko Nakaya, 92 anos, na Bolsa de Comércio de Paris, no verão de 2026, provoca deslocamentos parecidos por meio da imersão em uma escultura de névoa densa, branca e flutuante. Estamos perdidos.
Quando o passado já não explica, o presente antes possível se torna angustiante, e ficamos atordoados, onde depositamos nossas forças para continuar em condições de imaginar um futuro possível? As respostas estão, como sempre, na arte. Vejamos.
O título da 61ª Biennale di Veneza, In Mirror Keys, é um convite a ouvir os sinais persistentes da terra e da vida, conectando-se às frequências da alma, como afirma a curadora Koyo Kouoh. Se, na música, os tons menores são frequentemente associados à estranheza, à melancolia e também ao sofrimento, durante a Biennale os tons menores vêm com alegria, consolo, acolhimento, esperança e transcendência. Ao recusar o espetáculo de peso e horror que consome o nosso presente, podemos ouvir as notas menores, sendo possível sintonizar os sussurros, os murmúrios, as frequências mais baixas. É preciso encontrar os oásis, as ilhas, as brechas, onde a dignidade de todos os seres vivos é salvaguardada e, portanto, pulsa. A franco-camaronesa curadora afirma que aceitou o convite com o desejo de compor uma exposição que carregasse significado para o mundo em que vivemos atualmente — e, mais importante, para o mundo que queremos construir: “Os artistas são os visionários e os cientistas sociais, aqueles que nos permitem refletir e projetar o amanhã; olhar para o tom menor não é recuar; é um ato de resistência radical através do cuidado, da atenção fina e da restituição do humano”.
Em direção semelhante, no Brasil, o álbum Equilibrium II de Anitta está orientado à escuta em muitas de suas faixas, como, por exemplo, no título Você já sabe! ou ainda em Sem pressa. Além da sonoridade mais tranquila, as temáticas e as relações com a espiritualidade afro-brasileira e o misticismo como no clipe Abre caminho (em Equilibrium I as conexões com o tarô traziam outras dimensões místicas) e as referências à mãe e aos santos protetores trazem a conexão inequívoca com o cuidado e a proteção, apontando para contração, refúgio e comedimento. O cantor e compositor Jão, que se formou em Publicidade na Escola de Comunicações e Artes da USP, lança o novo álbum Memórias Póstumas, com canções e letras que tecem relação literária com Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, mas também com seus sofrimentos pessoais. Várias faixas remetem à memória, ao luto, mas também ao recomeço, como em Aurora. Já a cantora Dua Lipa abre uma livraria centrada em livros censurados ou que de alguma maneira tencionam valores tradicionais, dentro da icônica Livraria Lelo, no Porto, em Portugal. Rosalia, cantora pop espanhola, explora em Lux a espiritualidade, o misticismo feminino, a mortalidade e a redenção. Inspirada por figuras místicas históricas, a artista constrói uma obra de reflexão existencial profunda, articulando o contraste entre a vulnerabilidade do corpo e a grandiosidade dos arranjos clássicos, posicionando a arte como um ato genuinamente humano.
Na linha que conecta a cultura material com a leitura e o universo literário, Dior lança coleção especial que une moda e literatura ao transformar capas de clássicos mundiais em estampas da icônica bolsa Book Tote. A linha homenageia a alegria da leitura com designs inspirados em obras célebres como Drácula, Orgulho e Preconceito e Madame Bovary. A campanha global é com a velejadora e escritora brasileira Tamara Klink, que integrou a divulgação da peça inspirada em viagens e literatura. Em outro caminho expressivo, a marca de varejo de cosméticos e perfumaria Sephora anuncia no Brasil Compras calmas ou Quiet hours no exterior, um projeto que prevê oferecer uma experiência de compra mais acolhedora, com menos estímulos sensoriais; para isso as lojas terão música ambiente desligada, menor intensidade de estímulos visuais nos videowalls, iluminação reduzida, suspensão da aplicação de fragrâncias e ajustes nas telas digitais, criando uma atmosfera mais tranquila, acolhedora e com menos distrações, inclusive os funcionários estão instruídos a reduzirem as abordagens e o posicionamento ativo de vendas, ainda que se mantenham disponíveis para informações e vendas, propriamente ditas. Em mais um exemplo significativo, a camiseta oficial da Seleção Espanhola de futebol é uma homenagem aos clássicos da literatura local. O modelo em tom marfim remete a páginas envelhecidas de livros antigos, com estampas de manuscritos, detalhes na cor bordô e dourado e o destaque para a letra Ñ na gola, reforço sígnico da língua espanhola.
Um dado de pesquisa ajuda a compreensão do que estamos passando. A empresa de pesquisa Bain & Company divulgou recentemente o estudo Consumer Pulse, focado no Brasil, informando que o brasileiro passa, em média, 9h13 por dia conectado à internet, o que demonstra que são pouquíssimas as horas em que estamos acordados, e que existimos fora da ambiência digital. Essa permanente conexão traz inúmeras consequências de natureza variada. Certamente os excessos, de informação, de dados, de estímulos, são marcas do nosso tempo, provocando fadiga sonora, visual, culto à performance e à produtividade, saturações, acúmulos diversos.
Enquanto o mundo grita e as vozes se distorcem no tumulto, a ponto de todo o sentido ficar aturdido, resta apenas uma maneira de comunicar, que se dá por meio da criação de uma zona de escuta sintonizada em uma frequência mais baixa, no exercício de sonoridades mais intimistas e documentais, acolhedoras, humanas, calmas, mas não menos carismáticas e potentes. Os tons menores dos sons, das imagens, das palavras, das texturas, dos cheiros e de todos os sentidos sobrepostos estabelecem uma sacralidade que coloca a pessoa, o ser humano, de volta ao centro das coisas do mundo. Da arte da Bienal de Veneza ou da instalação na Bolsa de Valores de Paris ao álbum Equilibrium, de Anitta, e ao Memórias Póstumas, de Jão; da livraria de resistência de Dua Lipa às bolsas literárias da Dior, à camiseta da Seleção Espanhola de futebol e ao Quiet hours da Sephora, há uma convergência sígnica que implora pela diminuição, pela calmaria, pela proteção, pelo humano.
Cada manifestação, ao seu modo, oferece, pela inovação e pela redescoberta, um novo sentido de existir, pautado na reaquisição da capacidade de ouvir, de perceber e sentir, dentro de nossas possibilidades tão-somente humanas, nada artificiais. Em tons menores, é isso.
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