O silêncio que tomou conta do auditório Antonieta de Barros, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, não foi apenas um recurso de cerimônia. Foi um gesto de respeito e, sobretudo, de denúncia.
Enquanto os nomes de mulheres assassinadas eram projetados no telão, um a um, homens atravessavam o salão carregando pares de sapatos vermelhos. Não havia discursos naquele momento. Não era necessário. A ausência falava por si. Cada par de sapatos simbolizava uma vida interrompida.
Mulheres que tinham histórias, famílias, projetos e que não chegaram ao fim de suas próprias trajetórias. O gesto, forte e simbólico, marcou a abertura do seminário “Vivas e Decididas – Contra o Feminicídio”, mas também revelou algo que a sociedade brasileira ainda precisa enfrentar com mais coragem: o feminicídio não é um episódio isolado. É o último estágio de uma cadeia de violências que começa muito antes do crime.
Os números apresentados no encontro deixam claro que se trata de uma emergência pública. Santa Catarina registrou 52 feminicídios em 2025, além de 255 tentativas de assassinato. No mesmo período, mais de 31 mil mulheres solicitaram medidas protetivas contra companheiros ou ex-companheiros.
Os dados não apenas chocam, eles desenham um padrão. Antes da morte, houve ameaça. Antes da agressão física, houve controle, humilhação, invasão de privacidade. Antes do crime, houve sinais. Ignorar esses sinais tem custado vidas.
Por muito tempo, o debate sobre violência contra a mulher ficou restrito à reação após a tragédia. A sociedade se comove diante dos casos mais brutais, manifesta indignação momentânea e, pouco depois, segue em frente. O risco dessa dinâmica é a naturalização. Quando a repetição de números tão graves deixa de provocar mobilização real, a violência passa a ser tratada como uma triste rotina.
O seminário realizado na Alesc aponta justamente na direção oposta. Ao reunir representantes do Legislativo, Judiciário, Ministério Público, Tribunal de Contas, governo do Estado, universidades e organizações da sociedade civil, o encontro reconhece que o enfrentamento ao feminicídio exige ação coordenada.
Não se trata de uma responsabilidade isolada de um poder ou de uma instituição. A assinatura de um termo de compromisso entre os poderes públicos é um passo importante nesse sentido.
O documento estabelece metas, integração de dados e, sobretudo, a obrigação de apresentar resultados concretos em dez meses. Em um tema tão sensível, compromissos precisam deixar o campo simbólico e se transformar em políticas públicas efetivas.
Isso significa garantir delegacias funcionando quando as mulheres precisam, ampliar redes de acolhimento, fortalecer medidas protetivas e investir em prevenção. Significa também olhar para as raízes culturais da violência, muitas vezes invisíveis no cotidiano.