Os planos para construções na Lua estão a todo vapor: enquanto a missão Artemis II sobrevoa o satélite natural em busca de estudar suas possibilidades, empresas de todo o mundo começam a delinear seus planos para explorar o território lunar. Desde data centers até catapultas de satélites, as expectativas são altas — a questão é se tudo isso é realmente viável.
Um dos entusiastas é o japonês Atsuyoshi Koike, que planeja fabricar chips de computador na Lua por meio de sua empresa, a Rapidus Corporation. A companhia, liderada pelo governo japonês, vem lutando para assumir a liderança entre as fabricantes mundiais de chips.
Fundada em 2022, a Rapidus produziu seu primeiro protótipo de chip de dois nanômetros em julho, utilizando uma tecnologia desenvolvida em conjunto com a IBM. Os chips foram desenvolvidos com transistores do tipo nanosheet gate-all-around (GAA) com múltiplas tensões de limiar, o que permite que os chips executem operações complexas com menor consumo de energia.
Esses chips são os melhores para processadores usados em data centers de inteligência artificial, smartphones e carros autônomos. Atualmente, eles são produzidos em larga escala apenas por líderes do setor, como a Taiwan Semiconductor Manufacturing (TSMC) e a Samsung Electronics.
Para 2026, a Rapidus planeja fornecer a clientes informações e ferramentas para projetar os chips que desejam que a empresa fabrique. O objetivo é iniciar a produção em massa no ano seguinte.
A empresa captou cerca de US$ 1,7 bilhão em financiamento adicional, incluindo mais de US$ 600 milhões do governo japonês, em fevereiro. Entre os investidores do setor privado estão a Sony, a Toyota e a NTT.
Para Koike, a sua vantagem será a velocidade. Numa fábrica comum, vários discos de silício (wafers) são processados em grupo, passando juntos por cada etapa da fabricação. A Rapidus quer fazer diferente: ela pretende produzir um wafer de cada vez, processando cada um imediatamente, sem esperar os outros.
No entanto, tudo indica que a companhia ainda tem um longo caminho a percorrer para competir com essas gigantes — caminho esse marcado por mais de dezenas de bilhões de dólares, algo que Koike reconhece. A TSMC, por exemplo, afirmou que investirá até US$ 56 bilhões somente neste ano para atender à alta
Como a Lua entra nesse plano?
A ambição de longo prazo de Koike é construir uma fábrica de semicondutores na Lua. Isso porque ele acredita que a baixa gravidade e o vácuo do espaço tornariam a fabricação de chips mais fácil e produtiva.
Construir qualquer estrutura na Lua, porém, é um desafio histórico. Temperaturas extremas, ausência de atmosfera, radiação intensa e micrometeoros constantes são alguns dos obstáculos que qualquer fábrica precisaria superar. A logística de transporte de equipamentos também não é nada fácil: cada quilo enviado custa dezenas de milhares de dólares.
Esses fatores, no entanto, são vistos apenas como contratempos a serem superados pelos otimistas. A NASA cancelou recentemente os planos de implantação de uma estação em órbita lunar e redirecionou os recursos para a construção de uma base diretamente na superfície da Lua, com investimento previsto de US$ 20 bilhões nos próximos sete anos. O plano inclui sistemas de energia e infraestrutura para possibilitar presença humana de longo prazo.
E a China não fica para trás: testes para um pouso tripulado até 2030 foram concluídos com sucesso, reflexo dos esforços do país para consolidar sua liderança em infraestrutura de comunicação e navegação lunar.
Para Koike, da Rapidus, a construção da fábrica de semicondutores poderá acontecer em algum momento da década de 2040.
Uma tendência global
O Japão não é o único país tentando internalizar essa produção tecnológica. O presidente Donald Trump vem pressionando fabricantes globais de chips a produzir nos Estados Unidos, enquanto a China tem investido em produtores nacionais.
Recentemente, Tóquio intensificou o apoio governamental à tecnologia de semicondutores, um setor que o Japão costumava liderar antes de ser ultrapassado por rivais como Taiwan e Coreia do Sul.
O desenvolvimento da indústria japonesa foi prejudicado principalmente por questões estruturais: enquanto empresas como Hitachi e Toshiba insistiam no modelo integrado entre design, fabricação e vendas, a TSMC inaugurou o modelo foundry, especializado exclusivamente na fabricação, o que reduziu o custo de entrada no setor e deixou o Japão para trás nessa corrida.
O presidente da Rapidus, Tetsuro Higashi, já afirmou que a empresa é a “última chance” do país para retomar uma posição de liderança global no setor.