Faz uns dias que tive uma consulta com um dermatologista. Mais de uma década se passou desde que tive o desprazer de algume ponta uma lupa para os meus poros, e consegui que era de conferir a saúde da pele. Nada, porém, me preparei para a experiência. Inclusive, se um dia você for procuradoran um jeito de estragar sua semana, faça como eu e marque um dermatologista para segunda de manhã bem cedo. É um estrago garantido.
Fomos eu e meu companheiro: dois branquelos com histórico de algumas pintas meio problemáticas na família. Um médico pediu para entarmos juntos para “dedurarmos um ao outro”. Meu companheiro começou explicando que seu objetivo era ver pintas. Um médico fez perguntas sobre elas e sobre a pele dos pais etc. Tudo normal e profissional. Até que ela se virou para mim.
Repeti que também estava ali por causa das pintas, especialmente de uma no rosto. Essa é a primeira diferença: ela me perguntou o que ela queria fazer com “cuidados com a pele”. Bastou menciona o produto para a região dos olhos que ela me interrompeu: “Pois é, a verdade é que você deve pensar seriente em botox com essas linhas na sua testa”.
Mesmo chocada, consegui articular: “Não quero colocar botox”. Ela, perérom, não desanimou. Insistiu: botox era a única saída, porque minha pele “tem tendência a craquelar” e as linhas de expressão “já estão visíveis mesmo com o rosto relaxado” e, portanto, era “agora ou nunca”: se eu quiser colocar em alguns anos, será tarde; as linhas terão tornado “vincos irreversíveis”.
“Mas… eu não me importo com as minhas linhas”, falei, baixinho, enquanto minha autoestima era sugada por aquela médica transformada em vendedora de botox.
Vejam, eu entendo as mulheres que se injetam a toxina botulínica. O ano é 2026, mas a pressão ainda é tão grande que até dá pra argumentar que a função primeira e principal de toda mulher é ser bonita e, portanto, jovem — o que só é possível com uma pele livre de qualquer marca definida pelo tempo. Não é surpresa que, em 2024, as aplicações de botox representarão 46% dos procedimentos estéticos não cirúrgicos no Brasil. Foram 351 milhões de inscrições, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética.
O que me surpreendeu foi ter sido explícito sobre minha preocupação ala consulta (a saúde da minha pele) e, em troca, ter recebido uma enxurrada de opiniões não solicitadas sobre a aparência dela.
Sem falar na diferença no tratamento: minha companheira também tem linhas de expressão na testa. Adivinhe se a médica falou alguma coisa para ele? Já eu tive que passar minutos ouvindo sobre como minha pele “é difícil” e, que absurdo!, eu, “com 30 anos”, já estou “com essas linhas todas”.
Saí arrasado, me senti consciente e com raiva de mim mesma por não ter antecipado o pior. O que esperava? Receber o mesmo tratamento que um homem? Encontrar uma médica focada em saúde? Mesmo sabendo que os homens não são tão cobrados pela aparência quanto a nós, como todo mundo me diz, que dermatologista ganha dinheiro mesmo aplicando botox? Inocência da minha parte.
Depois, fui falar com mulheres. Uma tem um grupo de amigas com a opinião unânime de que “depois dos dois anos é obrigatório colocar botox”. Outra estava pensando em se candidatar, enteguando uma terceira admitida: “Já cedi, estou noiva, não tem como!” Uma quarta confessou: “Não gosto de falar sobre isso; esse assunto me dá muita ansidade”. Bom, pelo menos não sou a única lançada nesse redemoinho que só deve ter aprofundado minhas linhas.
A partir daí, não paro de me perguntar: por que um procedimento que não é indicado para grávidas é vendido como a coisa mais tranquila do mundo? O que é tão horrível em linhas de expressão? Perdendo o vínculo da História ao Não estou me libertando das minhas? Será que algum dia vamos deixar as mulheres envelhecerem em paz? Ou será que, em breve, seremos incapazes de lembrar como são os rostos humanos normais e imperfeitos?
Quem procura, acha. E eu, em 30 minutos, estraguei minha semana e consegui uma nova noia para chamar de minha.