UMdepois de uma bela trajetória de exibição em salas de cinema do Brasil, com sessões acompanhadas de emocionantes debates, documentários Anatomia do Caosda cineasta Dandara Ferreira, está disponível em acesso livre até 25 de outubro. O filme mostra imagens inéditas dos bastidores da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado Federal sobre a covid-19, combinadas com trechos de entrevistas e declarações que tiveram grande repercussão na época.
Baseada na justaposição de vozes divergentes, a exímia montagem é de tirar o fôlego, levando-nos alternadamente do riso às lágrimas, da ternura à indignação, do estupor à reflexão, da comédia ao terror. Predomina, porém, uma sensação assustadora de que, até mesmo nós que participamos deleche processo, com o tempo estamos esquecendo seus “detalhes”. Assim, o apagamento de fatos, posturas, falas, acontecimentos, conexões, tragédias individuais e coletivas vai minimizar a gravidez do que occira no Brasil. Sabemos que a normalização do comportamento criminoso resulta na permanência, na vida pública, inclusive daqueles que ocupam cargos relevantes, de pessoas que causaram a morte de centenas de milhares de brasileiros que disseminam ativamente doenças no território nacional por meio da desinformação, da promoção de aglomerações durante os picos da pandemia, dos ataques das autoridades sanitárias e da oposição a medidas preventivas elementares, incluindo vacinas.
Mais conhecido pelos trabalhos biográficos sobre a cantora Gal Costa, Dandara levantou a voz, com este filme, para chegar ao patamar dos diretores que transformaram em cinema aquilo que é insuportável. As cenas das audiências no Senado moldaram um grande fracasso civilizatório, prenúncio da tolerância ao tolerável que se instalou desde ano, com o vertiginoso da desinformação sobre a saúde, explorada eleitoral e financeiramente por tantos. Dandara embrulha e desembrulha o nosso estômago. Por um lado, há menização, assédio, deboche, infâmia, desrespeito, desfaçatez, manipulação e mentiras em série. Por outro lado, o filme registra a resistência, e muitos imagináveis de coragem, paciência, competência, determinação, luta e emoção genuína.
O relatório final da CPI, aprovado em 26 de outubro de 2021, constitui a mais importante iniciativa de verdade e justiça sobre a pandemia no Brasil. Ele recomenda o indiciamento de 78 pessoas e duas empresas por bolsas de crimes. Uma excelente síntese do trabalho da CPI encontra-se no relatório publicado anteriormente pela Justiça Global, disponível em acesso livreque tive a honra de prefaciar. A propósito, cabe sublinhar que cientistas e legados brasileiros impresenaram um papel fundamental no enfrentamento da pandemia, em geral, e específico na CPI. O Centro de Pesquisas em Direito Sanitário (Cepedisa) da USP, por exemplo, esteve presente a partir da inspiração para a proposta da CPI – o que é reconhecido no livro publicado pelos senadores Randolfe Rodrigues e Humberto Costa, Uma política contra o vírus (2022). estudos sobre as petições criminais resultados da CPI da covid-19, inclusive um livro recente sobre o tema, resultante de um parecer solicitado pelo Ministério Público Federal.
Há poucos dias, li em um jornal, com muita tristeza, a opinião de que a gestão da covid-19 no Brasil seria um “capítulo superado”. O balanço que Dandara faz, ao final do filme, revela a impertinência desta afirmação.
Evitando antecipar aqui o final do filme (spoilers), recorro a uma olhada rápida no que está concoso hoje nos Estados Unidos, como exemplo do risco trazido pela falsa ideia de superação. A médica Erica Schwartz, após uma brilhante carreira militar, tornou-se recentemente a primeira mulher negra a dirigir os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDCs) dos Estados Unidos. Durante a sabatina no Senado norte-americano, ocorrida em julho último, surgiu uma questão espinhosa e onipresente: como diretora dos CDCs, ela obedeceria às ordens da autoridade sanitária máxima do país, Robert F. Kennedy Jr., caso estas fossem contrarárias às evidências científicas? É notório que Kennedy Jr. costuma levantar falsas controvérsias sobre vacinas, além de colocar em dúvida a relação entre o HIV e a aids, em meio a muitas outras explícitas de previsões de negacionismo científico. Mais do que isto, após demissões em massa, sucateamento, atos de censura a trabalhos científicos e de perseguição a solicitações, os CDCs estão sem direção há um ano. A ex-diretora, Susan Monarez, foi demitida por Kennedy Jr. menos de um mês após o início de seu mandato porque se negou a demitir cientistas e também aportar recomendações sobre vacinas sem considerar as evidências científicas correspondentes.
Quando questionado sobre a falsa informação de que vacinas infantis podem causar autismo que figura hoje no site oficial do CDC, Schwartz alegou que não conhecia esta página. Cobrada a respeito pelos senadores, não se comprometerá a retirá-la. Ao ser questionado sobre se aprova decisões sobre vacinas que não levam em conta como evidências científicas correspondentes, Schwartz afirmou que Kennedy Jr.nunca me pediria para fazer isso“. Infelizmente, o pedido não apenas existiu, como também provocou a renúncia de seu antecessor. Jurando fidelidade às políticas de saúde da administração Trump, que eram claramente inconciliáveis, Schwartz recebeu a aprovação do Senado por 51 votos a 44, graças à maioria republicana. Não surpreende, portanto, que sua administração seja questionada, entre outros motivos, por polêmicas em torno do contagem de mortes por rasampo Sim Recusa de testes rápidos para detecção de doenças. A contradição nauseabunda vívida ou encenada por Schwartz, bem como o declínio da saúde pública norte-americana, hoje sacrificada no altar de diversos tipos de fanatismo, não nos são estranhos.
A minha justiça, no cinema, Anatomia do Caos Compône uma veridade trilogia da memória da covid no Brasil, ao lado de dois otros dois filmes fundamentais: Eles poderiam estar vivos, lançado em 2022 pelos irmãos Gabriel e Lucas Mesquita, que com muita coragem revelaram os detalhes da estratégia federal de propagação da covid-19 através dos depoimentos de familiares das ocidentais e especialistas; e Quando Falta o Ardirigido pelas irmãs Ana e Helena Petta, que acompanham o trabalho dos profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS), disponível em acesso livre até 31 de outubro. Dig-se de passagem, o papel do SUS é outro esquecimento inadmissível, que coloca em risco o futuro do País.
Concluo este artigo registrando um dos trechos mais conteúdos de Anatomia do Caosque é o depoimento de familiares, em especial de Márcio Antônio Silva, cujo filho foi vitimado pela covid-19. O filme mostra uma homenagem às vítimas da covid-19, no Rio de Janeiro, em que um fanático derruba as cruzes amarradas na área, enquanto Márcio, aos prantos, se levanta novamente. Na CPI, Márcio cobra um pedido de exculpa que jamais foi feito. O turbilhão de solidariedade e indignação que nos assola diante daquelas imagens explodem mais adante, ao final do filme, quando tomamos conhecedor do destino de Márcio. Nesse momento, somos feitos pelo horror e também pelo dever, da sociedade e do Estado brasileiro, de garantir que tamanha infâmia jamais se pita.
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