Brasil está entre os primeiros países a receber nova geração da navegação, que passa a considerar atalhos e restrições para motos e amplia alertas sobre obstáculos críticos para quem roda sobre duas rodas.
O Waze está ampliando sua atenção aos motociclistas. A plataforma de navegação iniciou a distribuição de uma nova geração do Modo Moto, agora apoiada por inteligência artificial e por informações específicas para veículos de duas rodas. O Brasil está entre os primeiros mercados contemplados, ao lado de Argentina, Colômbia, Malásia, México, Peru e Filipinas, com disponibilidade prevista para Android e iOS.
A novidade merece, porém, uma distinção importante. A possibilidade de selecionar “Motocicleta” como tipo de veículo não nasceu em 2026. O Waze introduziu suporte e roteamento específico para motos ainda em 2017, quando passou a utilizar informações provenientes dos próprios motociclistas para aprimorar trajetos e estimativas de chegada. O que muda agora é o nível de especialização empregado no cálculo das rotas e, principalmente, na identificação de situações que representam maior risco para quem está sobre duas rodas.
Segundo o Waze, o novo sistema utiliza inteligência artificial para incorporar ao planejamento de trajetos atalhos e restrições específicos de veículos de duas rodas. A plataforma parte de uma premissa evidente para qualquer motociclista experiente: nem sempre a melhor rota para um automóvel é a melhor opção para uma moto.
Uma motocicleta pode ter acesso legal a determinados trechos mais estreitos e, ao mesmo tempo, é muito mais suscetível às condições do pavimento. Essas diferenças passam a fazer parte de forma mais direta da lógica do Modo Moto, com o objetivo de oferecer rotas mais adequadas e melhorar a precisão do HEC — horário estimado de chegada, equivalente ao conhecido ETA em inglês.
Essa especialização pode ser especialmente relevante em grandes centros urbanos brasileiros, onde motocicletas convivem diariamente com congestionamentos, mudanças constantes de fluxo, vias secundárias e pavimentos de qualidade irregular.
Uma das mudanças mais interessantes está nos alertas destinados especificamente ao motociclista.
O Waze informa que o Modo Moto passa a destacar situações como buracos, lombadas, faixas de pedestres elevadas, fim de acostamento e pontes estreitas. As informações são combinadas com os dados de trânsito em tempo real da plataforma e com o trabalho de um grupo dedicado de editores de mapas voltado às necessidades dos motociclistas.
A diferença prática é significativa. Um buraco que pode significar apenas desconforto para os ocupantes de um automóvel pode provocar, em uma motocicleta, desvio brusco de trajetória, impacto na roda ou suspensão e, em determinadas circunstâncias, perda de controle.
O mesmo vale para lombadas e faixas elevadas mal sinalizadas. Receber a informação antecipadamente não elimina o risco, mas pode aumentar o tempo disponível para que o motociclista reduza a velocidade e faça a leitura correta do trecho.
O recurso, portanto, deve ser entendido como uma ferramenta adicional de informação, e não como substituto da observação da via, da pilotagem defensiva e da tomada de decisão do condutor.
O peso do mercado brasileiro de duas rodas ajuda a explicar a escolha do país para a fase inicial da nova funcionalidade.
O anúncio oficial informa que Argentina, Brasil, Colômbia, Malásia, México, Peru e Filipinas estão na primeira etapa de distribuição do novo Modo Moto. Outros mercados deverão receber o sistema posteriormente. A liberação está sendo realizada para aparelhos Android e iOS.
Por se tratar de uma distribuição gradual, a disponibilidade das novas funções pode não ocorrer simultaneamente para todos os usuários.
A configuração continua simples. No aplicativo, o usuário deve acessar Menu → Configurações → Detalhes do veículo → Tipo de veículo → Motocicleta.
A própria Central de Ajuda do Waze informa que a seleção correta do veículo é utilizada para oferecer rotas e atualizações de horário estimado de chegada adequadas ao perfil escolhido. Atualmente, as opções são Particular, Táxi e Motocicleta.
Isso significa que o motociclista que utiliza o aplicativo mantendo o perfil configurado como automóvel pode não aproveitar integralmente a lógica específica destinada às motos.
A atualização vai além das motocicletas.
O Waze também está implantando uma navegação personalizada, capaz de considerar os trajetos realizados anteriormente pelo usuário juntamente com os padrões locais de trânsito. Assim, alguém que normalmente prefira vias expressas a ruas locais, por exemplo, poderá receber sugestões que reflitam esse histórico. A personalização pode ser desativada nas configurações.
Outra novidade é o modo “Less Chatty”, ou menos falante, destinado a reduzir a quantidade de comandos de voz durante a navegação. Alertas considerados importantes, mudanças de direção e orientações de faixa continuam sendo fornecidos, mas com menor frequência de interrupções.
Para quem utiliza intercomunicador Bluetooth no capacete enquanto escuta música, rádio ou podcast, a proposta pode tornar a navegação menos intrusiva.
A integração com o Gemini, inteligência artificial do Google, é outro componente da transformação do Waze.
O sistema de relatos conversacionais permite comunicar situações utilizando linguagem mais natural. Também está sendo ampliado para receber sugestões de atualização do mapa, como uma rua fechada ou um endereço desatualizado. Essas informações são encaminhadas aos editores locais para verificação antes da atualização do mapa.
O Waze também está testando, inicialmente entre usuários beta, uma busca conversacional de destinos. Em vez de informar necessariamente o nome de um estabelecimento, será possível solicitar, por voz, algo como um estacionamento próximo, um posto de combustível ou determinado tipo de estabelecimento aberto naquele momento.
É importante separar as funcionalidades confirmadas de recursos encontrados em aplicativos especializados em mototurismo.
Até o momento, o Waze não anunciou que o Modo Moto escolherá estradas sinuosas por prazer de pilotagem, criará automaticamente roteiros turísticos, privilegiará estradas panorâmicas ou selecionará trajetos com base na qualidade geral do asfalto.
Também não há confirmação oficial de que a plataforma calcule seus trajetos levando especificamente em consideração a circulação entre faixas realizada pelos motociclistas no trânsito brasileiro.
O foco anunciado está nos atalhos e restrições destinados aos veículos de duas rodas, na estimativa de chegada e nos alertas sobre obstáculos especialmente relevantes para motos.
A evolução do Modo Moto representa uma mudança interessante na forma como grandes plataformas digitais enxergam a motocicleta.
Durante muito tempo, sistemas de navegação essencialmente adaptaram aos veículos de duas rodas uma lógica desenvolvida para automóveis. O novo passo do Waze começa a reconhecer algo que para o motociclista sempre foi evidente: rodar de moto exige uma leitura diferente da via.
Buracos, lombadas, estreitamentos e mudanças de pavimento possuem consequências distintas quando existem apenas dois pontos de contato com o solo. Incorporar essas particularidades ao mapa pode transformar o smartphone em uma ferramenta mais adequada à realidade de quem pilota.
Ainda será necessário observar o novo sistema em uso real para avaliar quanto as rotas efetivamente mudam em relação ao perfil de automóvel, qual a qualidade dos alertas nas cidades brasileiras e até que ponto a inteligência artificial melhora as previsões de chegada.
É justamente aí que começa a próxima etapa: colocar o novo Modo Moto do Waze à prova nas ruas. Para a Pró Moto Magazine, a novidade abre espaço para um teste comparativo entre os modos Automóvel e Motocicleta, utilizando os mesmos destinos, horários e condições de trânsito para verificar, na prática, se a tecnologia realmente passou a compreender melhor quem vive o trânsito sobre duas rodas.
Pró Moto Magazine — informação de quem vive o mundo sobre duas rodas.