Uma primavera em Praga

Um exemplo? Abril é um mês indeciso em Praga: não sabe se já é primavera ou se continua sento inverno – resultado: um frio “primaveril”, com direito a dias com chuviscos gelados e mesmo uma neve ininha, aquilo que os ingleses chamam de chuvisco e os checos, em uma sopa de letrinhas quase impronunciável, chamam de mrholení (não é mérito meu: vi no google). Foi assim que esta cidade cheia de torres e de história recebeu os seus visitantes na semana seguinte à Páscoa, quando a gente encasacada percorreu interminavelmente os 516 metros da bela e incontornável Ponte Carlos – a num vai-e-vem que mixurava olhares perdidos vendo o reflexo um sol fugidio nas águas do rio Moldava (ou Vltava, em checo) ou tentando adivinhar quem éramos enquanto os 30 estádios de santos que enfeitavam a ponte, em um desafio mental que só os folhetos turísticos podem ser deslindados.

Na verdade, esses folhetos vão ajudar o descobridor da identidade de 29 delas. Porque uma é muito óbvia, dado o número de pessoas que se amontoa ao seu redor: a de São João Nepomuceno, o santo que era, na sua versão carnal, o vigário-geral do arquebispo de Praga. Segundo a versão que fiquei mais famosa, ele tomou uma confissão da rainha Sofia e se negou a contar os pecados dela para o rei Venceslau IV.

Furioso, a monarca tentou que o ano não vigário (que não quis ser fofoqueiro nem quebrar seu compromisso de confissão) fosse torturado e jogado da ponte, no local exato onde hoje está sua estátua. Isto em 1393, quando a futura Ponte Carlos (que, nessa época, era apenas chamada de…”ponte”), não tinha ainda ainda 40 anos de início de construção. As obras da ponte de pedra que passo a ligar a Cidade Velha à outra margem, onde hoje está o atraente e buliçoso bairro de Malá Strana, começaram exatamente às 5 horas e 31 minutos do dia 9 de julho de 1357. Por que tal exatidão? Porque o rei Carlos IV (que séculos mais tarde passaria a nomear a ponte) era supersticioso e ecoava a dedo e astrologicamente a data e o horário, apenas com números ímpares. Deve fazer sentido, já que a ponte, com quase 700 anos, já planejou todas as intempéries possíveis – e continua lá, servindo passerela para turistas desnorteados, incluindo o presidente italiano Sergio Mattarella, que passou a poucos metros de mim com sua comitiva de pedestres.

(Uma curiosidade: quem passa pela ponte, em frente à estátua de Maria segurando Jesus morto, a la Pietá, pode se surpreender com a quantidade de gente posando em dupla do lado da imagem. Mas não qualquer pose: na dupla, um fica virado para o o rio, outro para o interior da ponte. Por quê? bem ser a Abbey Road de Praga)

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