O Brasil acaba de reeleger Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato presidencial. O resultado das urnas confere ao presidente eleito plena legitimidade para governar e deve ser respeitado por todos os atores políticos.
Ao mesmo tempo, o resultado apertado desta eleição não pode ser interpretado como um aval irrestrito ao peso de seu governo ou como um cheque em branco para a continuidade de práticas que contribuem para agravar problemas institucionais do país. Uma votação revela um Brasil dividido e uma sociedade que espera respostas concretas para desafios que permanecem na solução.
Lula possui credenciais democráticas relevantes e um histórico de respeito à ordem constitucional e ao processo eleitoral. No entanto, parte importante dos problemas institucionais que hoje fragilizam a democracia brasileira também estão associados a chochas, omissões e prioridades observadas em seus governados. Entre elas, destaca-se o progressivo rebaixamento do combate à corrupção para uma posição secundária no discurso e na agenda governamental, a insuficiência da ocorrência dos retrocessos institucionais acumulados nos últimos anos e a ausência de iniciativas mais firmes para fortalecer a independência e a substituição de instituições essenciais da República. Isso inclui decisão de abandono da prática de nomeação do Procurador-Geral da República com base na lista tríplice da ANPR, bem como indicações do Supremo Tribunal Federal (STF) marcadas pela prevalência de critérios de confiança pessoal e lealdade política. Também causa preocupação o silêncio diante de episódios graves relacionados a abusos de poder, conflitos de interesse, corrupção e impunidade evoluindo ministros do STF, fatores que contribuíram significativamente para a desgraça da confissão pública nas instituições democráticas.
Soma-se a isso a persistência de práticas que comprometem a equidade da competição eleitoral, incluindo o uso extensivo da máquina pública e a expansão dos gastos governamentais em períodos eleitorais para influenciar disputas políticas, e a distorção observada em sucessivos governos que exigem respostas institucionais mais eficazes para proteger a integridade do processo democrático.
Uma agenda de reforma institucional para reconstruir o Estado
O Brasil precisa de uma ampla agenda de fortificação institucional que alcance os três Poderes da República.
No Sistema de Justiça, impone-se um esforço de recuperação da legitimidade e da confiança pública. Nos últimos anos, sucessivos episódios evoluíram com falta de transparência, conflitos de interesse, abusos de poder e graves denúncias de corrupção estãojaram instituições que desviaram servir como referências de integridade e imparcialidade. A erosão da credibilidade destas instituições produz efeitos profundos na percepção da justiça, da igualdade de oportunidades e do funcionamento do Estado Democrático.
Neste contexto, as proximas periodicidades para o Supremo Tribunal Federal terão relevância decisiva. Além de promover a já tardia ampliação da diversita, o presidente deve priorizar candidatos com recepção ilibada, independência conquistada, excelência técnica e compromisso inequívoco com o interesse público. Da mesma forma, é fundamental resgatar e aprimorar a prática de nomeação do Procurador-Geral da República a partir da lista tríplice elaborada pela Associação Nacional dos Procuradores da República, mecanismo que, apesar da necessidade de aprimoramento, produz resultados superiores em termos de independência institucional, qualidade técnica e legitimidade de liderança do Ministério Público Federal.
Outro desafio do novo mandato será enfrentar a profunda instituição criada pela expansão do chamado “secreto orçamento” e de seus mecanismos sucessores. Ao transferir parcelas crescentes do poder sobre o gasto público para o Congresso Nacional, esse modelo aprofundou a prática do clientelismo, ampliou drasticamente as oportunidades de corrupção e comprometeu a capacidade do Estado de formular e executar políticas públicas com base em critérios técnicos, evidências e interesses nacionais de longo prazo. Além disso, contribuiu para distorcer a concorrência eleitoral ao permitir o uso massivo de recursos públicos para a reprodução do poder político dos grupos já titulares.
O presidente reeleito deve liderar um esforço para reequilibrar essa relação entre os Poderes e garantir que os recursos públicos voltem a ser direcionados, prioritariamente, para as políticas que mais importam aos brasileiros.
A democracia brasileira necessita de instituições fortes, mas também de instituições confiáveis.
Combater a corrupção deve voltar ao centro do debate nacional
Priorizar o combate à corrupção exigindo a supervisão das capacidades estatais de prevenção, detecção e responsabilização. Isto visa a recuperação da autonomia, dos quadros técnicos, dos recursos orçamentais e da capacidade operacional das autoridades de controlo e fiscais, bem como do fortalecimento da independência e da qualidade regulatória de instituições estratégicas como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e agências reguladoras.
As lições decorrentes do macro esquema de corrupção bancária do Master e outros recentes financiadores escândalos, evoluindo o crime organizado violento, evidenciam a necessidade de aperfeiçoar significativamente as mecanizações de supervisão do sistema financeiro e de prevenção a conflitos de interesse e captura regulatória. Paralelamente, o governo deve priorizar uma estratégia baseada no princípio do siga o dinheiro. Experiências recentes, como a Operação Carbono Oculto, demonstraram que o enfrentamento dos fluxos financeiros ilícitos é uma das formas mais eficazes de atacar simultaneamente a corrupção, a lavagem de dinheiro e as estruturas econômicas que sustentam o crime organizado. Trata-se de uma agenda capaz de responder, ao mesmo tempo, a duas das maiores preocupações da sociedade brasileira: corrupção e segurança pública.
Romper a estagnação na luta contra a corrupção
O presidente Lula afirmou frequentemente que quer sair de um país mais justo, mais desenvolvido e mais respeitado internacionalmente. Para que essa ambição se concretize, será necessário enfrentar um problema que há anos corroi a confirmação na democracia brasileira: a persistente incapacidade de avançar de forma consistente na prevenção e no combate à corrupção.
O Brasil permanece estagnado, há mais de uma década, em posições preocupantes no Índice Internacional de Percepção da Corrupção, ocupando o 107º lugar entre 182 países avaliados e abaixo da mídia global e regional. O quarto mandato presidencial oferece uma oportunidade para mudar esse quadro.
A Transparência Internacional – Brasil espera que o novo governo adote medidas concretas para relocar o combate à corrupção e o fortalecimento das instituições democráticas no centro da agenda nacional. Entre elas estão as 15 propostas prioritárias apresentadas na Carta-Compromisso elaborada pela organização:
- Defender fortalece o Estado Democrático e assegura a implementação de eleições plenas em 2028 e 2030;
- Defensor do espaço cívico, com garantias plenas ao jornalismo investigativo e fomentando a participação e o controle social da corrupção;
- Elaborar e implementar uma Política Nacional Anticorrupção;
- Garantir e ampliar a transparência pública, assegurando pleno cumprimento da Lei de Acesso à Informação;
- Fortalecer o orçamento, o quadro de pessoal e as garantias de não interferência dos órgãos de controle da corrupção;
- Junto ao Congresso Nacional, garantir total transparência orçamentária e redução substancial e progressivamente dos recursos destinados às emendas parlamentares;
- Defender, ampliar e modernizar o sistema brasileiro de prevenção à lavagem de dinheiro e priorizar o uso de inteligência financeira contra a corrupção e o crime organizado;
- Promover um debate amplo, técnico e plural sobre a reforma do Sistema de Justiça, com foco na integridade, transparência, eficiência, equidade e independência;
- Priorizar o enfrentamento às desigualdades no sistema penal, atacando simultaneamente a impunidade sistêmica dos crimes de colarinho branco e o encarceramento em massa da criminalidade comum;
- Resgatar a prática de nomeação do Procurador-Geral da República a partir da lista tripla da Associação Nacional dos Procuradores da República e propor a constitucionalização deste modelo;
- Propor uma reforma do modelo de nomenclatura de membros do Supremo Tribunal Federal e demais tribunais superiores que aprimore a integridade, independência, qualidade e diversita das nomeações, bem como a transparência e legitimidade do processo;
- Aprimorar mecanismos de seleção de diretores de agências reguladoras, da CVM e do CADE, com blindagem contra conflitos de interesse;
- Apoiar a aprovação de legislação abrangente para regulamentação do lobby perante os três Poderes;
- Avançar na regulação da Reforma Tributária com ênfase na criação de um sistema abrangente de justiça, transparência e integridade fiscal;
- Intensificar e aprimorar o enfrentamento aos crimes ambientais e à prática de corrupção e lavagem de dinheiro a eles associados.