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Topias e tropias universitárias, parte 2 – O lugar dos afetos – Jornal da USP

Por Guilherme Ary Plonski, professor sênior da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP e do Instituto de Estudos Avançados da USP

A profusão de verbetes terminados em -topia (utopia, desutopia, distopia, atopia, heterotopia, retrotopia, protopia) utilizados no instigante texto do professor Naomar de Almeida Filho acerca da universidade e seus desafios suscita uma breve imersão no termo grego tópos, do qual provém esse radical.

Tópos indica um lugar real, imaginário ou conceitual, frequentemente associado a um atributo específico. Na acepção mais usual, indica um espaço físico, uma localização ou uma região. Destaca-se no percurso da civilização humana a forte presença de lugares considerados sagrados, por lhes serem atribuídos significados especiais, tipicamente de cunho religioso, que os diferenciam dos espaços corriqueiros.

O sagrado é, por definição, o apartado do comum. A separação pode se dar no tempo, como ilustram os nomes dos ritos do Shabat na tradição judaica. São eles o kidush, que santifica o dia semanal de repouso que se inicia, e a havdalá, que demarca a separação entre o final do dia sagrado e o começo dos seis dias ordinários da semana subsequente. A diferenciação pode se dar no plano humano, quando pessoas são consagradas para uma missão ou função elevada que exige grande dedicação, como o sacerdócio. E a apartação pode ocorrer no espaço, em que se distinguem dois domínios: o sagrado, materializado em edificações diversas, como templos e monastérios (cujo significado grego é “locais de habitação solitária”), e o profano, que compreende todos os lugares não sagrados (o significado da junção latina pro+fanum é “fora do templo”).

A aura da sacralidade perpassa a trajetória da universidade desde a sua pré-história. Platão estabelece a Academia em um espaço nos arredores de Atenas marcado por doze oliveiras sagradas, localizado em um bosque dedicado à Atena, deusa da sabedoria, e ao herói Academo. Mostrando que o popular “jeitinho brasileiro” tem raízes remotas, a Academia é legalmente estruturada como uma associação de culto às Musas, solução encontrada para contornar limitações da legislação ateniense ao seu funcionamento, que não previa poder uma escola ser dotada de ativos fixos, como terrenos e edificações.

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Guilherme Ary Plonski

Posted: 13/03/2026

As pioneiras universidades medievais, como as de Bolonha, Oxford e Paris, nascem literalmente no domínio do sagrado. A de Paris, por exemplo, é originada nas escolas de catedrais, especialmente a de Notre-Dame, quando professores e estudantes criam uma corporação (universitas) buscando melhor defender os interesses acadêmicos. Essa corporação recebe o privilégio real de se esquivar do foro civil, devendo submeter-se à jurisdição eclesiástica.

Nesse contexto, são adotados na universidade os rituais, a hierarquia e os próprios trajes clericais; a “rainha das ciências” é a Teologia. Essa estrutura sacralizada deixa marcas profundas, que persistem de forma secularizada na universidade laica contemporânea. Evidências cotidianas são os rituais de passagem na carreira acadêmica, como a colação de grau e a defesa de tese, assim como as periódicas solenidades públicas de sucessão reitoral. Nestas, o/a mestre de cerimônias precisa explicar a um público atarantado o uso, em tempos em que a própria gravata está em desuso, de vestes talares e de artefatos esquisitos, como a samarra e o capelo.

As plataformas reitorais recentes apontam para os ambientes tóxicos à ciência e às instituições que a produzem. Não é incomum ocorrerem ações manu militari por parte de governantes incapazes de conviver com a autonomia acadêmica, como ocorreu no Brasil, em particular na USP, quando o autor ali estudava. E como ocorre numa grande nação do Oriente Médio ao momento da escrita do presente texto. O descritor da violação de um espaço universitário é profanação, ressaltando o seu caráter de lugar diferenciado, que deve ser não apenas respeitado, mas também reverenciado pelo valor do conhecimento ali produzido e transmitido.

Mesmo sem recorrer à sacralidade, é factível dotar um espaço físico de valor afetivo que o singularize. Assim, a intensidade das vivências num campus universitário faz com que a instituição seja reconhecida pelos que nela se formaram como sua alma mater, a mãe que os nutriu intelectualmente. Essa afetividade profunda floresce e se consolida a partir de experiências individuais e, principalmente, grupais ligadas a espaços físicos diversos, como salas de aula e laboratórios, corredores diariamente percorridos, o restaurante universitário e a república estudantil, locais de práticas esportivas e centros acadêmicos, espaços para empreendedorismo e anfiteatros onde ocorrem atividades culturais e artísticas.

A massificação do ensino superior e a associada proliferação de universidades que ocorre a partir da segunda metade do século 20 fazem com que nos deparemos atualmente com dois gêneros de lugares acadêmicos – campi e avatares que os pretendem semelhar, cada qual abrangendo espécies diversas.

A diferenciação entre os dois gêneros é baralhada pela vulgarização do termo campus, lugar característico de instituições dedicadas ao ensino superior. Essa designação é também utilizada por instituições que carregam o nome de universidade, embora tenham natureza diferente e não se enquadrem na categoria jurídica específica, definida no artigo 52 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Destacam-se as chamadas “universidades corporativas”, entidades que existem há mais de século, originalmente criadas por empresas para capacitar os seus colaboradores. Um exemplo pitoresco é a Hamburger University (não confundir com a University of Hamburg, na cidade homônima), que é apresentada como tendo oito campi no mundo, além do central em Chicago; um deles está em São Paulo. É mais apropriado considerar esse centro de treinamento como um avatar de campus.

Trata-se de programa que beneficia os que trabalham na companhia e, em alguns casos, também os seus fornecedores e parceiros. Mas quando o colaborador sai da empresa, o eventual vínculo afetivo com a universidade corporativa tende se dissolver junto com a quebra da relação com o empregador. Isso dificulta a experiência duradoura de “nutrição” que a ideia de alma mater pressupõe.

Em contraposição ao uso desmedido do nome campus, no ensino superior a distância, que no Brasil recebe hoje mais da metade das matrículas, adota-se a denominação polo. Recente decreto estipula como princípio a “valorização do polo de educação a distância das Instituições de Educação Superior como espaço de interação e promoção da identidade institucional, do curso e do estudante”. Requer-se a existência de salas ou ambientes para estudos individuais e coletivos, assim como laboratórios e outros espaços formativos. Todavia, essas âncoras espaciais corporificadas são exíguas. Lugares (topoi) mais capazes de gerar afetividade são os espaços virtuais compartilhados, como comunidades online entre alunos e grupos de WhatsApp que persistem após a formatura.

Menciona-se aqui, sem se aprofundar, a emergência de formatos alternativos de configurações universitárias – são exaltadas pela imprensa como inovadoras as “sem muros” e as “em rede”, as “nômades” e as “plataformas”. Formatos heterodoxos são tipicamente adotados por novos entrantes, instituições recém-criadas que desde o início assumem ser universidades, cabendo observar que apenas algumas são credenciadas como tal em seus países-sede.

Uma dessas é a Minerva University, que se promove como sendo consistentemente “a mais inovadora universidade do mundo nas classificações do World University Rankings for Innovation (WURI)”. Um dos numerosos participantes do crescente mercado de rankings universitários, o WURI pretende medir de forma abrangente as contribuições criativas das instituições para o avanço da sociedade por intermédio de 24 categorias, agrupadas em três classes: para quem inovar, como inovar e o que inovar.

Nessas circunstâncias, afloram paradigmas novos de instituições de ensino superior, credenciadas inicialmente como faculdades (colleges), na esteira do espalhamento de recursos tecnológicos despontantes, em especial os da chamada inteligência artificial. Individualizando o processo de aprendizagem, utilizam avatares digitais como instrutores, que pesquisas iniciais mostram ser mais efetivos quando mimetizam fidedignamente um ser humano. A propósito, que tal ter aulas de física com um avatar assemelhado a Albert Einstein?

Potencializar a relação afetiva durante a formação e cultivá-la após a graduação geram um constituinte precioso para o ecossistema universitário: o conjunto dos ex-alunos ou, na terminologia internacional, alumni. A relação formal dos egressos com a respectiva alma mater apresenta configurações diversas, em função das peculiaridades dos contextos.

Na Europa medieval os ex-alunos continuavam a fazer parte da instituição na qual se formaram. No modelo das guildas, a graduação dos aprendizes os incorporava à categoria dos mestres, atribuindo-se ao corpo coletivo de aprendizes e mestres o nome universitas, termo latino que indica totalidade. Nas universidades inglesas funcionava a convenção, pela qual os ex-alunos tornados mestres eram incorporados automaticamente e, assim, passavam a ter o direito de influenciar os caminhos da instituição, por exemplo, na eleição do dirigente principal (chancellor).

O formato de associação de ex-alunos à parte da universidade se desenvolve no meio acadêmico estadunidense, inicialmente em colleges. A associação pioneira foi criada em 1821, para salvar uma então jovem faculdade da crise decorrente de uma cisão conflituosa. Essa iniciativa valeu muito a pena, pois o Williams se firmou e é, atualmente, o mais bem conceituado liberal arts college daquele país.

Num mecanismo similar, a Associação dos Engenheiros Politécnicos, fundada em 1935 por egressos da Escola Politécnica da USP, declara ser a mais antiga associação de ex-alunos em atividade ininterrupta do Brasil. Em anos recentes, instâncias congêneres vêm sendo criadas em universidades brasileiras. O Alumni USP, estabelecido como programa institucional em 2018, indica ter mais de 150 mil ex-alunos cadastrados em sua plataforma. Entende ser sua missão: “Construir e manter uma rede integrada de egressos(as) de graduação, pós-graduação (stricto sensu) e programas de residência, oferecendo oportunidades de conexão, desenvolvimento contínuo, mentorias, divulgação de vagas e acesso a recursos da USP, de modo a perpetuar o sentido de pertencimento e retroalimentar a Universidade com experiências reais”.

Quando conduzida com competência e sensibilidade, a relação da universidade com os alumni é um componente dinâmico da vida acadêmica. A CASE, uma associação global voltada ao relacionamento de instituições de ensino com seus ex-alunos, propõe que a universidade desenvolva um “indicador de engajamento” a partir de quatro medidas: ações de voluntariado, como mentoria e palestrantes convidados; participação em atividades, como reuniões e webinários; comunicabilidade, medida por interações digitais; e taxa de filantropia, que é a fração de ex-alunos que doam recursos financeiros de qualquer monta.

A partir de 2025, a filantropia voltada à educação superior e à pesquisa científica tem sido objeto de elevada atenção, inclusive pela grande imprensa, no cenário do entrevero ruidoso do atual governo estadunidense com o meio acadêmico. A principal forma de pressão usada pelas autoridades eleitas naquele país é a tentativa de ruptura espetaculosa do padrão de financiamento das universidades praticado desde meados do século passado. Esse padrão varia bastante de acordo com o tipo de instituição, se pública ou privada, se focalizada em pesquisa ou em ensino, se tem ou não um sistema hospitalar. Na icônica Universidade de Harvard, mais da metade da receita provém da soma dos aportes de contratos de pesquisa, subvencionados principalmente por recursos federais, e dos rendimentos de fundos patrimoniais provenientes de ações filantrópicas.

Como outras medidas extremadas daquele governo, as investidas contra as universidades vêm sendo refreadas por decisões judiciais, algumas transitórias, sendo imprevisível o desfecho desse confronto consternador. Artigo publicado no Jornal da USP examina as transformações do modelo de financiamento às universidades em perspectiva histórica.

Antecedendo a referida crise, o Instituto de Estudos Avançados da USP, com apoio da Fundação José Luiz Setúbal, estabelece um pioneiro grupo de estudos (GEMA Filantropia) voltado à investigação interdisciplinar e aprofundada das conexões entre ciência e filantropia. Seu propósito é contribuir para robustecer o modelo de financiamento à ciência no Brasil, ao estimular a cooperação entre os setores científico-acadêmico e filantrópico e fomentar a participação mais ampla da sociedade no apoio às atividades científicas. Essa iniciativa se amplifica pela criação de um grupo de trabalho voltado à Filantropia em Apoio à Ciência pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que atua sinergicamente com o GEMA.

A ciência avançada também é praticada em lugares que não a universidade, como ilustram os laureados Nobel vinculados a empresas, entre eles o trio que inventou o transistor no Bell Labs e a dupla que desenvolveu no Google DeepMind o AlphaFold, preditor de estruturas de proteína baseado em inteligência artificial. Mas o lugar principal de florescimento da ciência continua sendo a universidade, que honra o seu compromisso institucional “sagrado” de expandir a fronteira do conhecimento, ensinar o processo de busca do saber e ativar a translação do conhecimento para que beneficie a sociedade ampla.

A proposta da tecno-protopia feita por Naomar para a universidade brasileira aponta-lhe um tópos elevado. Pode o parônimo tropos, que indica direção e giro, contribuir para que ela se aproxime desse lugar excelso?

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

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