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Topias e tropias universitárias, parte 1 – O lugar da universidade – Jornal da USP

Por Guilherme Ary Plonskiprofessor titular da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP e do Instituto de Estudos Avançados da USP

UM aurora de uma nova gestão reitoral na USP induz ao aplenamento da reflexão sobre as forças que configuram o presente estágio da trajetória quase milenar da universidade. Em particular, emergem forças que prefiguram tormentas, para que se possam lidar com elas a tempo e horas.

A percepção de que as mudanças acentuadas pela sociedade afetam amplamente a universidade de forma negativa em comparação com a introdução da proposta de ação da recém-concluída gestão reitoral 2022-2026: “O Brasil atravessa momentos difíceis. (…) Tempos difíceis, tempos de desumanização e desinformação. As universidades, como instituições de produção de conhecimento e conhecimento científico, têm sido alvo preferencial do obscurantismo, inclusive como os estados de São Paulo”.

Apreensão semelhante, agora com âmbito ampliado e alcance global, abre o programa da gestão reitoral 2026-2030, selecionado consistentemente nos très estácias do recente processo eleitoral: “O mundo acadêmico e a comunidade científica vivem momentos de incertidade, hostilidade e ameaça no cenário internacional e em nosso país”.

O avanço do pensamento sobre essa questão existencial e sua instituição de segurança se beneficia da trilogia que acabou de ser publicado pelo estimado professor Naomar de Almeida Filho. Seu idealizador, conhecido e reconhecido como educador humanista e gestor universitário inovador, atuou com brilhantismo na Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica do Instituto de Estudos Avançados da USP, da qual foi titular no período 2021-2023.

Sobre o título do segmento central do texto erudito, Universidade: Resposta diante do cercoecoa as inquietações das duas plataformas reitorais acima mencionadas. O fio condutor do artigo tripartido é uma ideia de utopia, adotada pelo professor Robert Hutchins no livro conciso A Universidade da Utopia. Ele abriu o capital em 1953, logo após encerrar seu longo mandato como presidente e, posteriormente, reitor da Universidade de Chicago.

Mais jovem dirigente universitário estadunidense (assumiu a presidência aos 30 anos de idade), ocupando cargos de comando há mais de duas décadas, Hutchins transformou nossos planos estratégicos, culturais, pedagógicos e organizacionais. A Universidade de Chicago está a tornar-se um destino preferido da elite intelectual daquele país e um centro de atração para investigadores de referência mundial em áreas como economia, filosofia e física. E como costume acetar, a intensidade das transformações gera controvérsias simelomente fortes, levando à revisão de algumas das medidas após sua saída da Universidade Águela.

A primeira parte do artigo de Naomar apresenta um glossário abrangente de vocabulário relacionado à utopia, como distopia e heterotopia. É particularmente interessante a noção de retrotopia, que é uma expressão do anseio pelo retorno a um passado idealizado e fictício, para melhorar a compreensão das tendências regressivas que ressurgem em diversas sociedades, em alguns aspectos.

A segunda parte do artigo expande o tratamento da protopia, neologismo que havia sido proposto pelo autor há exatas duas décadas, no contexto de uma concepção de reforma que veio a ser conhecida como “Universidade Nova”; o Manifesto dos Reitores de Universidades Federais Brasileiras pela Reestruturação da Educação Superior no Brasil foi subscrito em 2 de dezembro de 2006. Entre outros interesses, essa proposta tencionava gerar uma mobilização capaz de alterar uma sistemática enraizada no Brasil de “profissionalização precoce e fechada”, pois quais estudantes são compelidos a optar por uma profissão quando ainda estão na adolescência.

As práticas enraizadas são difíceis de mudar. Como diretor ativista, Naomar é testemunha das resistências obstinadas à implementação de transformações na universidade brasileira, bem como à arquitetura curricular e regime de ciclos e flexibilidade para os estudantes transitarem entre diferentes áreas do conhecimento. Exemplifica sua frustração com iniciativas bem intencionadas na proposição, mas tímidas nos avanços efetivos, pelo Programa de Apoio aos Planos de Reesturaturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Considere-o “uma janela de oportunidade perdida”, por ter-se resumido em “oferecer mais do mesmo” – aumento de vagas em cursos que já vinham sento dados de forma antiga e superada.

Em contraposição à busca utópica de uma reforma radical capaz de conduzir a universidade a um modelo idealizado, mas imaginário (utopia = sem lugar), o autor preconiza a protopia como um projeto realista de transformação, pois baseado em melhorias incrementais permanentes. O autor reforça a necessidade atual de um novo olhar para a busca crescente pelas instituições públicas em geral e pelas universidades em particular: “No record of protopia, a university não pode se conceber como um quarto poder soberano, isolado e autossuficiente, nem assumir a posição passiva de espectador do colapso civilizatório (…)”.

O artigo apresenta um esquema pelo qual a protopia é uma alternativa às deimas -topias enunciadas no glossário. Ela se contrapõe, em particular, a três modelos de universidade, dois do século 19 e um do século 21.

O primeiro é o utópico, “baseado na autonomia institucional, na liberdade acadêmica e na centralidade da pesquisa científica como princípio formativo”. Como sabemos, este modelo paradigmático das chamadas “universidades de pesquisa”, como a entende a USP, descende de uma proposta radicalmente inovadora encomendada pelas autoridades do Reino da Prússia, que se materializou na criação da Universidade de Berlim.

O segundo modelo é atópico, “derivado da Reforma Bonaparte na França pós-revolucionária, caracterizado pela subordinação direta do ensino superior ao controle estatal”. Naomar tem se dedicado a estudar e divulgar essa concepção em artigos e num recente livro sobre a chamada Reforma Cabanis (Georges Cabanis foi um reformador da prática clínica e do ensino médico, à época da Revolução Francesa).

Os caminhos universitários da atopia e da utopia se cruzam. Em face dos conflitos militares recorrentes entre a Préssia e a França, as configurações das suas universidades referenciais são pensadas, também, entevanto componentes das respectivas “estratégias nacionais”. Na verdade, a fundação da Universidade de Berlim em 1810 poderia ser entendida como uma contra-ofensiva estratégica à derrota esmagadora da Prússia pelas forças francesas de Napoleão em 1806. A nova universidade foi promovida pelos seus idealistas como uma forma de reconstruir a Prússia através da renovação intelectual, cultural e científica. Leitores atentos associados serão essa resposta da sociedade à mobilização analógica que ocorreu na década de 1930 entre nós, levando à criação da Universidade de São Paulo.

O terceiro modelo, este dos nossos dias, é o distópico, em que se “ameaça a autonomia universitária, subordina o conhecedor às lógicas de mercado e fragiliza a universidade pública ententeug instituição estratégica para a democracia, a ciência e a inclusão social”. Ele é anotado pelo autor como enviado o propósito da reforma proposta pela gestão 2019-2022 do Governo Federal, consignado num projeto que carrage o algo esdrúxulo título “Futuro-se”. É notório o fato de variantes do modelo distópico serem exercidas presentemente numa extensa lista de nações vitimadas por governos autoritários ou insólitos, inclusive quando democraticamente eleitos.

A proposta do modelo protópico como alternativa para uma universidade brasileira tem como base uma “inclusão social e étnico-racial, por meio de reorganização curricular em ciclos formativos e fortalecimento do vínculo entre universidade, educação básica e desenvolvimento nacional”. E, como é de esperar do ex-reitor de duas universidades públicas, Naomar reafirma os princípios da autonomia institucional e da liberdade acadêmica como condições indispensáveis ​​ao desenvolvimento do ensino e da pesquisa. Ao mesmo tempo, ele reconhece que é “especialmente desafiante a existência de um ente público independente em relação à instância que o financeira”, mesmo quando “legitimado por competências científicas, tecnológicas, artísticas e culturais socialmente recontadas”.

A propósito, há um movimento nacional das universidades públicas, estaduais e federais, em defesa da plena autonomia universitária, garantida pelo artigo 207 da Constituição Federal, como fundamento do desenvolvimento nacional e da democracia brasileira. Além da autonomia didático-científica, a autonomia administrativa e a gestão financeira e patrimonial estão contempladas na Carta Magna. Na realidade, pouquíssimas universidades, todos eles estados, gozam, ainda que completamente, dessas duas dimensões da autonomia.

Com o envolvimento da Reitoria e do Instituto de Estudos Avançados (IEA), a USP tem participado ativamente desse movimento que, no biênio 2024-25, organizou um Ciclo Nacional de Seminários sobre Autonomia Universitária, abrangendo cinco regiões do país, finalizando com a Capital Federal. O registro do evento realizado na USP está disponível nenhum site da IEA.

No terço final de sua reflexão propositiva, Naomar expõe uma proposta de “utopia esperançosa” para uma universidade. Nas suas próprias palavras, “compartilho uma reflexão sobre a relevância e as possibilidades de uma tecnoprotopia como estratégia capaz de articular forças políticas e movimentos sociais em torno de um projeto universitário público de fato autônomo, comprometido com a competência sociotécnica, a soberania tecnológica, a emancipação dos sujeitos epistêmicos e a sensibilidade ecoetno-social”.

O autor fundamenta a evolução da proposta original de protopia para a da tecno-protopia num texto, como de hábito provocante, do professor Silvio Meira, inspirador do bem-sucedido ambiente de inovação que é o Porto Digital no Recife. Nele, Silvio aponta quatro diretrizes para que a universidade mantenha sua respeitabilidade e o atual tsunami da inteligência artificial: recuperar a agência epistêmica, “em que uma universidade, não uma corporação, defina que conhecimento conta e porquê; transformar uma avaliação – “parar de avaliar respostas para avaliar o processo cognitivo”; reafirmar sua função pública, onde a discordância é sagrada; e democratizar o conhecimento da verdade, que deve ser entendido como “democratizar a capacidade de pensar criticamente sobre as respostas”.

E, conhecendo a prolífica atuação do professor Naomar, epidemiologista de nome, é razoável supor que a proposta da tecnoprotopia também reflita sua experiência atual como participante ativo no esforço de transformação digital do Sistema Único de Saúde.

Uma reflexão elaborada sobre a necessária evolução da ideia de universidade pode então ser sintetizada como “da utopia à protopia e da protopia à tecno-protopia”.

Essas três ideias, assim como os conceitos referidos no glossário expostos na parte inicial do artigo, remetem ao termo de origem grega tópos, que designa lugar. Quais são as conexões entre “lugar” e “universidade”?

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões de veículos nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. (Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

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