Mais de 150 milhões de vidas. Esse é o número de pessoas que as vacinas salvaram nos últimos 50 anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Mesmo assim, essa tecnologia milenar, cujo conceito remonta à China do século 10, vez ou outra é vítima de fake news: de que causa autismo, altera o DNA, provoca danos irreversíveis ao corpo e por aí vai. Nada disso é comprovado.
Para separar fatos de mitos e entender o real poder dessa ferramenta, a reportagem do Portal Drauzio explica como funcionam os diferentes tipos de vacina existentes. A ideia é apresentar exemplos de cada tecnologia e mostrar como elas atuam no organismo, destacando vantagens e limitações.
Mas, antes, é preciso dar um passo atrás. Para compreender como as vacinas funcionam, é essencial entender o sistema imunológico — a complexa rede de células e mecanismos que protege o corpo contra patógenos, como vírus, bactérias e outros microrganismos causadores de doenças.
O sistema imunológico e as vacinas
O sistema imunológico é dividido em dois grandes grupos. O primeiro se chama imunidade inata, aquela com a qual você já nasce. Nela, células entram em ação logo nos primeiros sinais de invasão, atacando qualquer ameaça de forma rápida, mas pouco específica. É como um pelotão de frente: ágil, mas não tão preciso. O segundo grupo é a imunidade adaptativa. Ela se desenvolve ao longo da vida e demora mais para agir, mas é muito mais certeira. Aqui entram respostas especializadas contra cada invasor, como os famosos anticorpos.
Anticorpos são proteínas produzidas pelo sistema imunológico para reconhecer e neutralizar antígenos (estruturas específicas presentes nos microrganismos invasores).
Dá para pensar assim: um patógeno é como um ladrão circulando pela cidade. Ele carrega um “disfarce” próprio: o antígeno. No corpo, existem células de defesa que funcionam como policiais. Elas aprendem a reconhecer esse disfarce e passam a produzir armas sob medida — os anticorpos — capazes de identificar o invasor, neutralizá-lo e ainda acionar reforços. É exatamente aí que entram as vacinas.
Elas simulam uma invasão, sem causar a doença de fato. É como um treinamento. Ao entrar no organismo, elas “enganam” o sistema imunológico, que passa a produzir anticorpos específicos contra aquele agente. Assim, quando o ladrão real (o patógeno) aparece, o corpo já sabe como reagir, porque, de certa forma, já “viu” aquele inimigo antes.
“As vacinas, de forma segura, fornecem dados para nosso sistema imunológico ganhar ‘memória’, sem ser necessário pegar a infecção”, explica Maria Helena Estevam Alves, bióloga e pesquisadora de pós-doutorado em bioquímica e biologia molecular em doenças neurológicas do Instituto Keizo Asami da Universidade Federal de Pernambuco (iLIKA-UFPE).
Veja também: Vacinas combinadas: como uma única dose protege contra várias doenças?
Tipos de vacinas
As tecnologias de vacinação se dividem em diferentes categorias, cada uma com estratégias próprias para estimular o sistema imunológico:
Vacinas inativadas
São feitas com vírus ou bactérias “mortas”, incapazes de se replicar, mas ainda reconhecíveis pelo sistema imunológico.
“Basicamente, aplica-se uma reação química no patógeno, que impede sua divisão”, afirma Cristina Bonorino, bióloga imunologista, professora titular da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e membro do comitê científico da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
Esse tipo de imunizante não induz uma resposta imunológica tão efetiva como as vacinas vivas atenuadas. Por isso, podem ser necessárias doses de reforço. Exemplos desse tipo de vacina são gripe e hepatite A.
Vacinas atenuadas
Essas vacinas usam versões vivas dos patógenos (vírus, bactérias, etc.), enfraquecidos em laboratório. Elas conseguem se replicar no organismo de forma limitada, simulando melhor uma infecção natural.
“As vacinas atenuadas induzem uma resposta do sistema imune semelhante à doença, com proteção duradoura para toda a vida. No geral, são preconizadas duas doses para que se houver falha na resposta vacinal, a outra dose faça a cobertura induzindo proteção duradoura”, explica Cláudia França Cavalcante Valente, coordenadora do Departamento Científico de Imunização da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai).
Por conterem o patógeno vivo, não são indicadas para imunossuprimidos e gestantes e exigem maior cuidado no armazenamento. Alguns exemplos são as vacinas de febre amarela e do sarampo.
Vacina de subunidade
São vacinas que contêm apenas partes específicas do microrganismo (como proteínas ou fragmentos), suficientes para estimular o sistema imune sem expor o corpo ao agente completo.
Segundo Valente, esses fragmentos estimulam as células do sistema imune a produzirem anticorpos específicos ou uma resposta imune celular potente. “Esta proteção é longa e duradoura, com uma resposta imunológica muito mais específica do que se a vacina fosse produzida com o vírus ou bactéria inteiro.”
Elas podem, porém, precisar de adjuvantes e múltiplas doses para gerar boa proteção. Exemplos desse tipo são as vacinas de hepatite B e HPV.
Vacinas toxoides
São baseadas em toxinas produzidas por patógenos que foram inativadas. Ou seja, não utilizam partes do microrganismo em si, mas substâncias produzidas por ele. O objetivo é ensinar o organismo a neutralizar essas toxinas, responsáveis pelos danos da doença.
Como é direcionada a uma toxina específica, também pode precisar de doses de reforço, segundo o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. Exemplos desses tipos de imunizante: difteria e tétano.
Vacinas de vetor viral
Essas vacinas usam um vírus modificado (inofensivo) como “veículo” para levar material genético de outro vírus ao organismo, induzindo a produção de antígenos.
“Este vetor viral permitirá que o material genético do patógeno implicado na doença seja apresentado ao nosso sistema imunológico com rápida produção de anticorpos e resposta celular”, esclarece a especialista da Asbai.
A desvantagem é a possível redução de eficácia se houver imunidade prévia ao vetor. Exemplos: algumas vacinas contra covid-19, como a da AstraZeneca e a da Janssen.
Vacinas de RNA mensageiro (mRNA)
Utilizam o RNA — uma molécula, semelhante ao DNA —, que contém instruções para que as células produzam uma proteína do vírus. O sistema imunológico reconhece essa proteína e gera resposta.
Elas têm tempo de produção mais curtos e não causam doenças na pessoa vacinada. Exemplos desse tipo são as vacinas contra covid-19 produzidas pela Pfizer-BioNTech e pela Moderna.
Vacinas de DNA
Usam um pequeno fragmento de DNA que codifica um antígeno, as estruturas específicas presentes nos microrganismos invasores. Esse DNA entra nas células, que passam a produzir a proteína viral, ativando o sistema imune. Segundo Bonorino, ainda não há vacinas de DNA aprovadas para uso amplo em humanos.
As fake news sobre as vacinas
Apesar das evidências sobre eficácia e segurança, as vacinas seguem cercadas por desinformação, especialmente nas redes sociais. Um dos boatos mais recorrentes é o de que imunizantes, especialmente os de mRNA, poderiam alterar o DNA humano.
Bonorino explica que isso não faz sentido do ponto de vista biológico. O RNA mensageiro funciona apenas como uma instrução temporária, uma espécie de “desenho” que orienta as células a produzirem uma proteína do vírus para treinar o sistema imunológico. Ele não entra no núcleo da célula, onde está o DNA, nem tem capacidade de se integrar a ele.
Para que isso acontecesse, seria necessário um mecanismo específico que o corpo humano simplesmente não tem: uma enzima (proteína que atua como catalisadora de reações químicas) chamada transcriptase reversa, capaz de converter RNA em DNA. “A gente não tem essa enzima, não tem esse maquinário nas nossas células”, destaca.
Esse tipo de processo existe em alguns vírus, como o HIV, que carregam essa enzima justamente para conseguir se integrar ao material genético das células.
Outro mito persistente é a suposta relação entre vacinas e autismo — uma narrativa que, como destaca a pesquisadora, surgiu a partir de um estudo fraudulento já desmentido e retirado da literatura científica. Até agora, não existe nenhum estudo que comprove essa relação.
A especialista lembra ainda que essa falsa relação entre autismo e vacinas foi propagada pelo movimento antivacina. “Mas essa é uma correlação absurda. O que acontece hoje é que passamos a diagnosticar mais o autismo. Isso não tem absolutamente nada a ver com as vacinas.”
Para Alves, a melhor forma de diferenciar uma informação confiável de uma fake news é buscar dados em fontes oficiais e sites reconhecidos, além de acompanhar profissionais e influenciadores que apresentem referências verificáveis e possuam formação técnica comprovada.
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