Ter amigos faz bem à saúde

Em novo artigo, o médico Francisco Balestrin escreve sobre a relação entre interações sociais e longevidade

“Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito”, diz a música de Milton Nascimento e Fernando Brant, Canção da América. Quem tem e convive com um bom amigo sabe disso. Amigo é abrigo, luz, ponte e confiança; é o silêncio que não constrange, a leveza quando o mundo pesa. A amizade traz um sentimento de pertencimento que nos completa e acompanha. Após décadas de pesquisa, hoje sabemos que relacionamentos construtivos e positivos, como as amizades, são fundamentais para a saúde física e emocional.

Essa relação vem sendo estudada desde o final da década de 1930. Em meados de 1960, por exemplo, o médico Lester Breslow, do Departamento de Saúde Pública do Estado da Califórnia, deu início a um estudo, com 7 mil participantes, para identificar os hábitos e comportamentos associados a uma vida mais longa. Após uma década, foram identificados alguns fatores essenciais, como não fumar, beber com moderação, dormir entre sete e oito horas, praticar exercícios físicos e manter um peso adequado. Em 1979, dois cientistas de sua equipe descobriram outro fator decisivo para a longevidade: as conexões sociais.

Desde então, diversas pesquisas têm demonstrado que a desconexão social e a solidão aumentam a suscetibilidade a uma série de doenças. Uma das mais contundentes foi publicada em 2010, pela psicóloga Julianne Holt-Lunstad, da Universidade Brigham Young, nos EUA. Ao analisar 148 estudos, reunindo dados de aproximadamente 300 mil participantes, ela concluiu que as amizades e as conexões sociais desempenham papel muito mais relevante para a saúde do que fatores como o consumo de álcool, nível de atividade física, índice de massa corporal e exposição à poluição do ar.

Já está comprovado que boas relações sociais reduzem inflamações, promovem a saúde mental, diminuem o risco de Acidente Vascular Cerebral (AVC), de doenças cardíacas, diabetes, declínio cognitivo e morte prematura. Em síntese, quanto mais as pessoas se sentem apoiadas por quem está à sua volta, melhor é a sua saúde e menor a probabilidade de adoecer.

Quando os humanos deixaram de viver exclusivamente como caçadores-coletores e passaram a se organizar em grupos, a cooperação se tornou essencial para a sobrevivência. Como descreve Yuval Harari no best-seller Sapiens, a vida em comunidade viabilizava desde o compartilhamento de alimentos até a proteção contra ameaças externas. Nesse contexto, o isolamento passou a representar um risco concreto: quem estava só tinha menos acesso a recursos, proteção e apoio. Por isso, há hoje um amplo consenso científico de que o cérebro e o corpo humanos evoluíram para interpretar a desconexão social como um sinal de perigo. Estudos indicam que a solidão ativa respostas semelhantes às de outras ameaças, como o aumento dos níveis de estresse, maior liberação de cortisol e um estado de hipervigilância – mecanismos que, quando persistentes, podem comprometer o sistema imunológico e favorecer o desenvolvimento de doenças.

A relação entre interação social e longevidade é tão estreita que a Organização Mundial da Saúde (OMS) criou, em 2023, a Comissão sobre Conexão Social. No ano passado, essa Comissão divulgou um relatório com dados preocupantes. Além de reforçar que vínculos sociais consistentes estão associados a uma boa saúde e a uma maior expectativa de vida, o documento revela que uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão – condição associada a cerca de cem mortes por hora, ou mais de 871 mil por ano. O fenômeno atinge todas as faixas etárias e se mostra especialmente crítico nos países de baixa ou média renda. Entre pessoas de 13 a 29 anos, de 17% a 21% relatam se sentir solitárias, com índices mais elevados entre os adolescentes. Já nos países de baixa renda, 24% da população declara vivenciar a solidão – mais que o dobro do percentual observado em países de alta renda (11%), o que evidencia o peso das desigualdades sociais na experiência do isolamento.Ainda segundo o relatório, adolescentes solitários têm 22% mais chances de obter notas ou qualificações mais baixas. Entre os adultos, a solidão também cobra seu preço: aumenta a dificuldade de ingressar no mercado de trabalho e de manter vínculos profissionais estáveis. Além disso, o isolamento social está relacionado a comportamentos prejudiciais, como sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de álcool e baixa adesão a tratamentos médicos.

Priorizar as amizades e relações pessoais é, portanto, o primeiro passo para quem deseja ter uma vida longa e saudável. Precisamos encontrar tempo, em meio ao corre-corre diário, para cultivar e construir vínculos. Como lembra a OMS, “a saúde é criada e vivida pelas pessoas dentro dos ambientes de sua vida cotidiana: onde aprendem, trabalham, brincam e amam”. São principalmente os bons relacionamentos que dão sentido à vida e nos mantêm felizes e saudáveis.

*Os artigos publicados pelo Futuro da Saúde expressam a visão de seus autores e não representam, necessariamente, a posição do veículo. O objetivo é ampliar a reflexão e promover um debate qualificado sobre temas relevantes para a saúde.

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