A aquisição do Tasy, um dos principais prontuários eletrônicos do país e da América Latina, pela Bionexo, plataforma integrada que conecta todo o ecossistema de saúde, fez nascer uma nova empresa, unindo ambas as potências: a Bionexo Tasy. O anúncio foi feito nesta segunda-feira (4), oficializando a compra do sistema de Electronic Health Record, que pertencia à Philips, por € 161 milhões.
À frente da Bionexo desde agosto de 2025, Solange Plebani chegou à empresa em meio a rumores sobre a aquisição. Em sua trajetória, Plebani foi sócia da Wheb Sistemas, empresa de Blumenau/SC que criou o Tasy, posteriormente vendido para a Philips, em 2010. Com a compra, a executiva atuou na empresa de tecnologia até 2021, como Head of Software Innovation, Connected Care Cluster.
Apesar do Tasy ser um negócio rentável para a Philips, o ativo não fazia mais parte do escopo estratégico da companhia, que optou por colocá-lo à venda. A movimentação abriu espaço para a Bionexo, que identificou uma oportunidade para se solidificar como uma das maiores empresas de saúde digital, com mais de 11 mil clientes, R$ 45 bilhões transacionados por ano e dados de 100 milhões de atendimentos médicos por ano.
Em entrevista ao Futuro da Saúde, a executiva fala sobre o processo de aquisição e os próximos passos da Bionexo Tasy e de temas como inteligência artificial e integração de dados. “A nossa intenção é manter todas as nossas integrações ativas e continuar evoluindo para o setor. Temos que competir e cooperar ao mesmo tempo, esse é o sistema de saúde e esse é o mundo da tecnologia hoje”, afirma Plebani.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista:
Como tem sido o processo de integração da Bionexo com o Tasy até aqui?
Solange Plebani – Tivemos que fazer todo um planejamento para a integração dos negócios, que passa pelo detalhamento da estratégia da aquisição, execução do go-to-market, definição de roadmap de produtos. Viemos trabalhando já nos últimos meses no planejamento e na integração propriamente dita, pois temos uma transição com a Philips. Ela tem que fazer um carve-out, criar uma nova empresa tecnicamente para transferir os ativos, que são os colaboradores, os produtos, as propriedades intelectuais e os contratos de clientes. Isso já vinha acontecendo ao longo do tempo, mas efetivamente ontem fizemos o que estamos chamando de inauguração.
Como foi a recepção e o lançamento da nova empresa?
Solange Plebani – Foi um dia muito especial, porque recebemos os novos colaboradores, mas também anunciamos a criação de uma nova empresa. Se analisarmos os legados, estamos falando de duas linhas que estão no mercado há mais de 25 anos. Uma que é a Bionexo, que fez a disrupção do que é o Marketplace B2B para a saúde. E, do lado de Tasy, o produto que criou esse conceito de sistema integrado, que integra o clínico-assistencial e o back-office, administrativo e financeiro. São empresas e marcas muito queridas do mercado. Os clientes conhecem e têm muita afinidade com o produto.
Essa bagagem fez com que ambas estivessem presentes no nome, virando assim Bionexo Tasy?
Solange Plebani – Lá na Argentina, para ter uma ideia, quando eles mandam uma cotação, eles falam ‘vou te mandar um Bionexo’. E aqui no Brasil, quando os usuários falam que vão enviar uma comunicação interna, que é uma ferramenta de comunicados dentro do Tasy, dizem ‘eu vou te passar um Tasy’. São marcas com uma ligação muito forte com os usuários. Para preservar o que há melhor dessas culturas e produtos, decidimos que estamos criando uma nova empresa. Essa é a nossa estratégia. Participei de muitas aquisições na minha vida. Às vezes, uma aquisição para entrar no site da empresa demorava três, quatro anos. Já nascemos com o site novo, lançado ontem.
Como tem sido o processo de diálogo com clientes Tasy para mostrar que a aquisição não altera a qualidade da entrega?
Solange Plebani – Ainda estamos bem no início, ouvindo as primeiras reações do mercado. Eu sei, por exemplo, que clientes da Bionexo que têm algum prontuário eletrônico concorrente, de repente pode ter algum receio, mas estamos endereçando de forma bem transparente. A nossa intenção é manter todas as nossas integrações ativas e continuar evoluindo para o setor. Temos que competir e cooperar ao mesmo tempo, esse é o sistema de saúde e esse é o mundo da tecnologia hoje. Um bom exemplo é a Oracle e a SAP, que concorrem em ERP, mas a SAP usa o banco de dados da Oracle. A competição e a cooperação são bem saudáveis para o mercado, respeitando todas as leis da concorrência. Também fizemos uma reunião em que convidamos a nossa base de clientes para participar, no primeiro dia da empresa. Falamos com todos os nossos funcionários e também abrimos uma janela importante com os clientes, onde passamos essa mensagem.
Sua chegada como CEO da Bionexo também traz, de alguma forma, essa confiança para o mercado? Pensando que ao longo da sua história atuou desde a criação do Tasy na Wheb Sistemas, mas por muito tempo junto a Philips. Como tem sido esse retorno ao produto?
Solange Plebani – É algo tão inusitado o que está acontecendo na minha carreira. Primeiro vendi o negócio para a Philips, fui executiva e me aposentei. Saí do mercado. Você dá um reset geral na sua cabeça. Eu estava no conselho da Bionexo e me convidaram para ser CEO. Eu pensei, nossa, vou voltar para o Brasil? Mas a Bionexo é tão bacana, gosto tanto dessa empresa. É muito emocionante estar em uma empresa que sempre admirei e estar tocando uma agenda de inovação tão positiva na América Latina, e de repente trazer o Tasy, que foi grande parte da minha carreira. É uma honra porque é parte de uma engrenagem que pode realmente criar uma nova face para o setor de saúde. Além dos sistemas, é extraordinário ter oportunidade de viver o momento da disrupção da inteligência artificial e ter esse portfólio na mão. É uma grande responsabilidade.
Por que a aquisição do Tasy foi estratégica para a Bionexo?
Solange Plebani – Estamos fazendo isso diante de um cenário de grandes desafios de pressão de custos na saúde, não só no Brasil, mas nos outros países de Latam em que operamos. Nos hospitais são ligados ao custo operacional, à eficiência, ao custo do fluxo de caixa, que chega muito no longo prazo, ao custo das glosas. Do lado da operadora, o custo da desconfiança da cobrança indevida, e se cria um operacional entre hospitais e operadoras tão pesado que gera mais custos. Existem redes hospitalares com 600 pessoas trabalhando no faturamento, ou seja, é uma pressão de custo muito grande que não está se revertendo em benefício direto ao paciente. Agora tem a reforma tributária, IBS e CBS, que vai impactar os resultados de muitos hospitais filantrópicos. Tem também a discussão da escala 6×1, que pode ter impacto. Por outro lado, é um setor extremamente fragmentado, em termos de informação. Um paciente que foi atendido em um hospital ou consultório médico, quando vai ser internado, vai ter um outro médico que vai cuidar dele e os dois lados não têm a informação. Essa fragmentação piora o tratamento e aumenta custos, porque se pedem exames repetidos. Se tivermos soluções que entregam valor e funcionalidades de software para toda a cadeia de saúde, temos condição de integrar melhor o setor, com interoperabilidade de dados, e garantir uma redução de custos. Melhorando, inclusive, a relação entre os atores.
Em relação ao portfólio, o que muda?
Solange Plebani – Com a criação da Bionexo Tasy temos três grandes sistemas integrados. Um é o Tasy, o outro é Bionexo 360º, que é o nosso tradicional suprimentos e ciclo de receita, e o Clínica Nas Nuvens, que é o sistema do consultório, da universidade e da pequena clínica. Com esses produtos, estamos já entregando ferramenta de software para todo o ecossistema: fabricante de material e medicamento, distribuidores, hospitais, clínicas, serviços de home care, farmácias e universidades, com treinamento do aluno de medicina e de farmácia, consultório do dentista e fisioterapeuta, banco de sangue, laboratório e centros de imagens.
“Portanto, podemos promover a interoperabilidade de dados. Podemos criar padrões ou utilizar de mercados internacionais. No primeiro momento, temos que garantir que meu portfólio é super integrado e entrega valor”.
No segundo momento, preciso que ele se integre muito bem com todas as outras empresas de software, de tecnologia, concorrente e não concorrente. E aí, consigo promover essa ajuda para o setor, que é a redução de custos e a redução de fragmentação. E, claro, maximizar o resultado para os clientes. Hoje estamos com mais de 11 mil clientes. Com entrega de mais valor, vamos, com certeza, ter mais clientes.
O quanto o mercado está maduro em termos de tecnologia?
Solange Plebani – Tecnologia não falta. O problema é querer fazer, além de ter tempo e dinheiro para fazer. O que falta em alguns casos são fornecedores terem uma boa integração, promovendo o resultado para o cliente deles e, por fim, para o paciente. Não posso te prometer o que as outras empresas vão fazer, mas tenho certeza que se uma empresa grande como a Bionexo, que é a maior em número de clientes agora, começar a criar padrões e integrar mais e melhor, os outros vão ter que fazer. É um ambiente competitivo. O impacto da fragmentação é para o usuário.
Você vê interesse das empresas da saúde e dos serviços públicos na interoperabilidade dos dados?
Solange Plebani – Tem muito interesse do prestador, porque eles estão sofrendo com o custo. É claro que quando integra um produto, muitas vezes você está integrando com um módulo que é de um concorrente, que tira um pedaço do seu escopo do produto. Mas se a gente ficar nessa, não vamos melhorar o setor. Se tenho um módulo central de material esterilizado que o meu cliente não está usando, e ele está usando uma solução terceira, me pedindo para integrar, o problema não é a integração. O problema é que eu não fiz o módulo melhor. Se quero ter aquele produto, preciso garantir que ele é o melhor. Travar o mercado não vai fazer ninguém ser mais bem sucedido e sei que os clientes estão sofrendo muito com isso. Temos que ser mais abertos e ganhar o nosso retorno com base em tecnologia boa, que o usuário quer usar, não o contrário.
Falando em inteligência artificial, como vocês estão trabalhando esse tema na Bionexo Tasy? Existe uma demanda dos clientes para mais tecnologias integradas neste sentido?
Solange Plebani – Para o produto, temos um programa que já vem de longo prazo de infraestrutura de dados para IA, e a Bionexo tem o maior banco de dados da América Latina para suprimentos. São as compras que rodam na Bionexo desde 2000. Temos informação de preço e materiais, por exemplo. E isso proporcionou com que pudéssemos no ano passado lançar dez ferramentas de inteligência artificial dentro do produto.
“Esse ano temos mais dez lançamentos no roadmap que estamos trabalhando, envolvendo agentes de IA e IA generativa. Estamos nessa fase. Conseguimos lançar muito rápido as ferramentas porque é Cloud”.
Sabemos também que muitos clientes têm muito desenvolvimento interessante dentro de casa, com médicos, enfermeiros, etc., criando agentes. Estamos cada vez mais cooperando e trabalhando perto dos clientes para poder co-criar, dentro do negócio de inteligência artificial. Os clientes estão buscando IAs que dão impacto e reduzem custos. Naturalmente, tem sempre a preocupação de melhorar a qualidade, gerar ganhos qualitativos, mas a dor do custo está tão alta. Percebemos muito isso no mercado e também é onde nós estamos atacando mais.
O mesmo vale para o Tasy?
Solange Plebani – Com a entrada de Tasy, temos uma imensidão de informações, desde o clínico até o back-office administrativo. Também queremos trazer essa competência que já tem dentro da Bionexo para o Tasy. Estamos usando para codificar, por exemplo. Não posso dizer que somos um benchmarking de uso de IA internamente, porque está difícil comparar com a velocidade que o mercado está indo, mas somos um grande promotor de que todos os nossos funcionários usem ferramentas de inteligência artificial.
E pensando no suporte clínico, que é um dos grandes interesses de hospitais, o quanto já é realidade?
Solange Plebani – O Tasy tem muitas ferramentas de suporte clínico e decisão que não necessita de IA. O grande passo agora é o operacional e a redução de custos. Estamos trabalhando em uma IA de produtividade para médicos e enfermeiros que deve ser lançada em breve.
Quais os planos para a América Latina, já que em alguns países atuam com diferentes produtos, e como essa integração vai aumentar a possibilidade de mercado?
Solange Plebani – O Brasil exportar software é muito importante para nós e para o nosso país. Até fico feliz que o Tasy voltou para a mão dos brasileiros, assim ele não vai embora. Os países da América Latina são muito ávidos por tecnologia, porque normalmente o Brasil está à frente dos demais. Sempre podemos pivotar muita coisa, levar para os países e normalmente dá certo. Temos hoje um portfólio que está pronto para sete países.
“E a Bionexo, mais do que o Tasy, tem muitos clientes Latam. Temos muitos hospitais na Argentina, México e Colômbia, por exemplo. Esses são os hospitais que queremos nos focar para desenvolver oportunidade para a Tasy. Tem sinergia muito forte, de produto e base de clientes”.
Também temos equipes. O Tasy está trazendo um time bem robusto no México, onde a Bionexo já não tinha um time tão grande. Mas a Bionexo tem um time mais robusto na Colômbia, onde Tasy não é tanto. E, na Argentina, a gente junta as equipes. A aquisição também está trazendo mais competência técnica e de pessoas de vendas e implantação nesses países fora do Brasil. Nós, do management, apostamos muito em crescer em Latam e queremos continuar desenvolvendo esse mercado com bastante foco.
A Bionexo Tasy continua olhando para outras aquisições?
Solange Plebani – Compramos três empresas recentemente. Brasíndice, Overmind e Tasy. Nesse momento, estamos com o prato um pouco cheio. É focar e botar todo esse negócio para funcionar integrado, entregando para os clientes. É um momento de foco, estabilidade, integração gradual e planejada de todas essas soluções dentro da Bionexo. Mas continuamos monitorando o mercado. Tem muita coisa boa acontecendo no mercado Latam, não fechamos os olhos, mas a prioridade é integrar os negócios.