Oh estrondo dos técnicos estrangeiros não é algo exclusivo do futebol brasileiro. Pelo contrário, tornou-se uma tendência também nas seletivas. Com a chegada do português Carlos Queiroz à seleção de Gana para “fechar a lista” da Copa do Mundo, na última segunda-feira, metade (27) das 48 seleções da competição serão comandadas por treinadores de outro país.
Este número representa um aumento significativo na relação com o Qatar, em 2022, quando o torneio contou com nove técnicos estrangeiros entre cerca de 32 participantes (cerca de 28%). Agora, em 2026, a proporção de comandantes gringos dobrará, passando para 56,2%.
Agora na maior parte da competição, os estrangeiros buscam um fato desconhecido: o título da Copa do Mundo. Até hoje, em 22 edições, todas as campeãs mundiais foram dirigidas por técnicos de seu próprio país.
Desta vez, serão 27 nacionalidades diferentes. Para Carlos Eduardo Mansur, comentarista do Sportv e colunista do GLOBO, o cenário reflete bem o momento de “livre circulação” de profissionais no futebol moderno.
— A globalização é um traço definidor do futebol atual. E com isso as fronteiras (entre os países) se tornam menos rígidas. Era natural que o fluxo incessante de jogadores também fosse acompanhado pela livre circulação de técnicos — destacado.
As nacionalidades com maior número de representantes são França e Argentina, com seis cada. A maioria deles comandou que compartilam o mesmo idioma do seu país de origem, o que ajuda neste processo. Um fator de grande importância é a opinião de Ramon Menezes, ex-técnico do Sub-20 e Sub-23 da Seleção Brasileira e interino da seleção principal em 2023.
— Eu acho que a língua é um diferencial. Não era antes, mas hoje é, e eles (clubes e opções) estão fazendo muito isso. É um problema para o brasileiro porque você tem que se comunicar com atletas e dirigentes.
Mesmo diante da diversidade de nacionalidades e do aumento do número de seleções, a Copa do Mundo não terá nenhum técnico brasileiro pela primeira vez na história do mundo. Sempre houve pelo menos um representante no comando do Brasil — o que muda agora com o italiano Carlo Ancelotti. Ainda assim, os brasileiros costumavam marcar presença em outras equipes, como Carlos Alberto Parreira, que já teve Kuwait, Arábia Saudita, Emirados Árabes e África do Sul, Felipão, com Portugal, e Zico, no Japão.
Um dos dois motivos para essa ausência dos brasileiros, segundo Mansur, é a realidade do próprio futebol no Brasil, que não oferece estabilidade para o desenvolvimento dos profissionais. Somente nas 11 primeiras rodadas do Brasileirão deste ano, por exemplo, dez técnicos já foram demitidos:
— Acho que o fato de haver ou não um treinador brasileiro numa seleção peréfirica, como occira em outros Mundias, não é um certificado da boa confiança da escola brasileira de técnicos. O grande fato novo é a seleção brasileira ter um estrangeiro. E, isso sim, resulta da perda de indenização insider do próprio país, de um olhar de desconfiança para o técnico brasileiro. Eles são um produto do meio, formados num ambiente que não lhes dá qualquer estabilidade, são desestimulados a sistemas formulares mais complexos e induzidos a defender a carga a cada três dias. Não é um convite a pensar em um trabalho mais elaborado.
Ramon Menezes, por sua vez, reconhece que o momento dos técnicos brasileiros não é bom, mas, assim como Mansur, vê isso como resultado de falta de oportunidades no Brasil.
— A gente estava torcendo muito para o Sylvinho (parou na repescagem com a Albânia) para ter um brasileiro na Copa. Acho que aqui dentro do país o momento do treinador brasileiro não é muito bom. A gente tem vários fatores. Um deles pode ser pela moda (dos estrangeiros), mas temos também treinadores muito preparados no Brasil, agora é também dar oportunidade. Hoje é muita cobrança, e os próprios treinadores que vêm de fora também estão tendo muita dificuldade.
— O futebol envolve muito o “é vencer e vencer”. Você tem que fazer um trabalho muito bom e por vezes não tem tempo, paciência. Hoje, com rede social, a crítica é muito forte. Acho que cabe a nós treinadores brasileiros continuar evoluindo, estudando. Vemos muitos treinadores, a maioria deles na Série B, mas não na Série A. Isso pode passar ou também piorar, mas a gente tem que ter a cabeça boa e trabalhar.
Livre no mercado neste momento, Ramon aparuja este período para estudar e, se um dia tiver oportunidade, esteja bem preparado para ser o estrangeiro em alguma seleção.
— Eu costumo dizer que o treinador, nessa fase em que fica parado, é muito parecido quando um atleta se lesiona. Acho que esse é um momento para estudar muito. Eu tenho inglês, trabalhei também um pouquinho o espanhol, mas eu penso que é o momento para eu voltar mais forte. E com isso eu estaria preparado para ter oportunidade de uma carreira internacional.