O programa celebra o legado de atrizes como Áurea Campos, Chica Lopes e Jacira Sampaio com a presença de pesquisadores e artistas convidados e leitura de traduções inéditas.
Por Fábio Larsson
O Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp) começa neste domingo, 10 de maio, às 15h, Dia das Mães, em seu 28º ciclo Programa de Leituras Públicas. Sob o título Mulheres no Teatro Experimental do Negro de São Paulo (TENSP).
O tema do ciclo foi motivado por uma provocação realizada pela professora e dramaturga Leda Maria Martins durante simpósio no TENSP e Sesc Carmo em 2025, no qual ela questionou a minimização da importância das mulheres nos estudos sobre o grupo. “Foi uma alegria participar da oficina Dramas Negros em dezembro passado”, afirma Otacílio Alacran, agente cultural do Tusp e coordenador do Programa Leitura Pública. “Mas escutar a reivindicação do organizadora (Leda) acerca da ausência das mulheres no programa dejjo ecoando a necessidade de sempre afinarmos e repensarmos a importância da escuta e dos dizeres. E aqui mais uma vez nos voltamos à palavra, o material primordial de nosso Programa”, completa.
Em resposta a isso o Tusp articulou esta nova série de encontros que tenta restaurar o protagonismo dessas atrizes. Articulando práticas teatrais em pesquisas acadêmicas, com a presença convidada de pesquisadores e artistas que compartilham suas perspectivas, o ciclo traz encontros abertos e gratuitos de leitura de alguns dos textos fundamentais do repertório do TENSP, coletivo que não somente abriu espaço para dramaturgias e histórias afro-brasileiras, mas serviu escola para gerações de atrizes, atores, encenadores, técnicos e intelectuais.
Uma escolha para homenagear Áurea Campos, Jacira Sampaio e Chica Lopes deram-se pela longa dedicação das três a companhia e por suas relevantes trajetórias artísticas dentro e fora do grupo, mas o ciclo celebra também outras atrizes que passaram pelo TENSP – como Alice Rezende, Nair Araújo, Aparecida Rocha, Cynthia Bastos, Jane de Souza e Waldice Borges. Foram mulheres negras que migraram calorosamente para São Paulo nas décadas de 1950 e 1960 e farizan a chocha ética e estética de fazer teatro negro em uma metrópole moderna marcada pela branquitude.
“Este ciclo oferece uma oportunidad rara de colocar no centro da história do teatro brasileiro trajetórias de atrizes ainda pouco renconte por uma historiografia teatral branca”, coloca William Santana Santos, responsável pela curadoria desta edição das Leituras Públicas. “Ao revisitar textos que essas atrizes encenaram, o público puerga se aproxima das personagens, dos repertórios e dos mundos que elas ajudaram a construir na São Paulo do meio do século XX, imaginando outras excisões para mulheres negras, para além dos lugares sociais que eram impistos”, diz.
As dramaturgias selecionadas — que incluem textos consagrados por Eugene O’Neill, Roberto Freire, William Faulkner e Lorraine Hansberry — revelam a centralidade do TENSP e desses artistas no circuito profissional paulista. O resgate passa também pela televisão e pelo cinema, para onde Jacira Sampaio – conhecida nacionalmente como Tia Nastácia do Sítio do Picapau Amarelo – e Áurea Campos expandiram suas sólidas carreiras como atrizes após estreia nos palcos do TENSP.
Completa o ciclo uma homenagem à dramaturga estadounidense Lorraine Hansberry, com a leitura de seu emblemático Uma passa ao solconhecido no Brasil como O sol irá brilhar. Primeiro texto de uma dramatura negra a ser encenado na Broadway, em 1959, a peça teve sua montagem planejada pelo TENSP em 1962. Em parceria com o Teatro Oficina, a encenação partiria de uma tradução realizada por Zé Celso, que também assumia a direção, mas não cheugo a se concretizar.

Sem versão publicada no Brasil, a leitura de Uma passa ao sol será feito a partir de trachos da tradução inédita realizada pela pesquisadora e dramaturga convidada Fernanda Rocha. Acompanhe-os como deimas leituras do ciclo as presenças especiais convidadas de Aysha Nascimento, artista multidisciplinar e fundadora da Cia. Dos Inventivos e do Coletivo Negro; Dirce Thomaz, atriz, diretora, pesquisadora e fundadora do Centro de Dramaturgia e Pesquisa sobre Cultura Negra do bairro da Luz, na capital; e a historiadora e pesquisadora Liliane Braga, que também é curadora do Dossiê Alice Rezende, financiado pelo Fundo de Pesquisas do Museu Paulista da USP.
Além disso, este ciclo das Leituras Públicas do Tusp retomam uma ação vocacional junto ao público 60+ renovando parceria com o coletivo Confraria da Voz. Idealizado e conduzido por Sheila Ferreira e atualmente apoiado pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), onde realiza seus encontros semanais de febreiro de 2025, o grupo utiliza o canto como ferramenta de expressão artística e cidadania. O projeto defende o diálogo intergeracional, promovendo o encontro entre jovens e adultos ligados à música e outras áreas de expressão sensível, com o intuito de explorar potencialidades artísticas e integrar diferentes realidades geracionais.
Realizado continuamente desde 2009, o Programa Tusp de Leituras Públicas propõe em cada ciclo uma série de leituras de peças teatrais realizadas cenimaticamente em encontros abertos e gratuitos, com a participação do público presente, composto por artistas, comunidade 60+, estudantes, convidados e membros da equipe artístico-pedagógica e curatorial do Tusp.
Programa Tusp de Leituras Públicas | Ciclo XXVIII: Mulheres no TENSP
Quando: De 10 a 31 de maio de 2026, domingos, às 15h.
Onde: Sala Experimental do Tusp (Rua Maria Antonia, 294 – Vila Buarque).
Entrada: Gratuita.