As rotas dos tropeiros que cruzavam o interior de Santa Catarina entre os séculos 18 e 19 estavam longe de oferecer uma viagem tranquila até Florianópolis (antiga Desterro).
De acordo com Nilson Thomé, mestre, doutor e pesquisador da história regional pelo Universidade do Planalto Catarinense de Lages, na Serra catarinense, os condutores de tropas precisavam atravessar extensas áreas de matas fechadas, campos isolados, rios e terrenos acidentados que exigiam constantes adaptações ao percurso.
Relatos históricos mencionam a necessidade de construir pontes improvisadas, além de abrir caminhos “à força do braço” em regiões como a Serra do Espigão, na atual cidade de Monte Castelo. As áreas eram marcadas por matas densas, frequentes inundações e trechos pedregosos que dificultavam o deslocamento de pessoas e animais de carga.
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Esses fatores demonstram os desafios enfrentados por tropeiros durante as longas jornadas pelo Planalto Catarinense. Entre os antigos caminhos de tropas estão “Ribeirão do Gado” e “Sepultura do Aredes”, localizada na região das nascentes dos rios Timbó e Canoinhas, em Santa Catarina.
Já entre o Rio Pelotas e Urupema, a Coxilha Rica, na região dos Campos de Lages, na Serra catarinense, era uma vasta região de campos com 70 km de campos de altitude à beira de precipícios de meio quilômetro de profundidade, o que poderia apresentar riscos aos tropeiros e aos animais. As tropas paravam ali após cerca de 600 km percorridos.
Campos de Lages se tornaram um corredor comercial do Sul do Brasil
Monumento ao Tropeiro de Lages, na Serra catarinenseFoto: Prefeitura de Lages/DivulgaçãoO Caminho das Tropas, aberto no século 18, configurou de forma decisiva a paisagem e a cultura do planalto catarinense, especialmente no recorte geográfico situado no rio Pelotas, na divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e Canoas.
Essa região, que compreende a antiga área dos Campos de Lages e o atual município de Correia Pinto, servia como um corredor estratégico para o fluxo de mercadorias e animais que interligava o sul do Brasil aos principais centros consumidores do país, de acordo com o estudo “Arqueologia do Caminho das Tropas”, realizado pela pesquisadora Ana Lúcia Herberts.
Os tropeiros que cruzavam essas terras enfrentavam o isolamento geográfico e as barreiras naturais impostas pelos rios e acidentes topográficos da região.
Era necessário o uso de animais de transporte que pudessem viabilizar o escoamento de produtos até os portos exportadores. Essa conjuntura transformou os Campos de Lages em uma passagem de gado e tropas rumo às feiras de comercialização em outros estados, como São Paulo.
Dentre os animais utilizados na atividade tropeira, as mulas (ou muares) destacavam-se como o meio de carga e transporte mais adequado para vencer a acidentada geografia e as longas distâncias do percurso. Além dos muares, as tropas eram compostas por gado vacum (bovino) e gado cavalar.
Morte de gado, mulas e animais de carga durante o percurso
Travessias perigosas causavam morte, afogamento ou ferimentos aos animais de carga, devido à correnteza dos rios ou aos terrenos acidentados. Foto: Entrevero Cultural/Reprodução/ND MaisDurante as travessias de rios e de margens rochosas escarpadas, a exemplo do rio Pelotas e do rio do Inferno, os tropeiros sofriam perdas materiais e acidentes fatais com seus animais, que podiam cair dos desfiladeiros ou saíam machucados e mancos após vencerem os estradas repletas de pedras.
O rio Pelotas era um dos pontos mais temidos das antigas expedições tropeiras. O trecho, composto por trilhas íngremes cercadas por barrancos de pedra, era conhecido por oferecer riscos elevados tanto para os animais quanto para os condutores.
Lidar com chuva, terreno escorregadio e longas jornadas tornavam a condução das tropas uma tarefa arriscada. Períodos chuvosos aumentavam a possibilidade de acidentes.
Relatos apontam que tropeiros perdiam animais de carga e também companheiros nas águas do Pelotas. As dificuldades eram agravadas pelas pedras, pela correnteza e pela necessidade de fazer os animais de carga atravessarem a nado, o que podia causar afogamentos de mulas, cavalos e gado.
Diário de tropeiro no Sul revela jornada difícil com transporte de animais
No Sul do Brasil, registros do diário do tropeiro Reinaldo Silveira Loureiro, de 1891, revelam as dificuldades enfrentadas por homens e animais durante as jornadas pelos caminhos das tropas.
Em um dos relatos, segundo a pesquisa “Entre Mio-Mios e Embiras: Homens E Animais no Caminho das Tropas”, Loureiro descreve o que classificou como um “trabalho ingente e bárbaro” fazer com que os muares atravessassem um rio de forte correnteza.
Segundo o registro, a tropa havia “refugado o trajeto”, expressão utilizada para indicar a recusa dos animais em seguir adiante diante das condições consideradas perigosas.
Conhecidos pelo instinto de autopreservação, mulas costumam resistir à travessia de rios caudalosos, exigindo grande esforço dos tropeiros para prosseguir viagem.
O episódio retrata a dureza da atividade tropeira e os riscos constantes impostos pela natureza. Para vencer a resistência dos animais, os condutores possivelmente precisaram forçá-los a nadar contra a correnteza, em uma operação marcada por desgaste físico e perda de controle da tropa.
O resultado foi o “extravio de diversas mulas ao pôr do sol”, ou seja, muitos se perderam ou provavelmente morreram afogados, e a baixa luminosidade dificultou tentativas de localização.
Lugar de descanso das tropas deu origem a cidades em SC
Tubarão era ponto de parada para os tropeiros que desciam da região serrana.Foto: Divulgação/Prefeitura de Tubarão/ND MaisCom o surgimento do tropeirismo, o Caminho das Tropas atravessava o território catarinense, passando por áreas como o vale do Rio Araranguá, o planalto de Lages, os campos de Vacaria e os Campos de Curitiba, até alcançar Sorocaba, em São Paulo, segundo a pesquisadora Zélia Maria Nascimento Sell.
As viagens, longas e cansativas, exigiam paradas frequentes em locais conhecidos como pousos, onde tropeiros e animais descansavam antes de seguir caminho.
Os registros de viagem indicam que os pousos ocorriam principalmente em campos abertos e ao relento, junto a cursos de água estratégicos, como o rio Caveiras, o arroio das Pombas e o arroio dos Porcos, em Santa Catarina.
Pesquisas apontam que muitos núcleos urbanos atuais surgiram em antigas áreas utilizadas para descanso das tropas, geralmente espaçadas conforme a distância média percorrida em um dia de viagem.
Caminho das Tropas entre a Serra de SC e a Grande Florianópolis
O Caminho das Tropas em Santa Catarina começava em Lages, na região de Coxilha Rica, e seguia até Florianópolis. Os tropeiros passavam por lugares que hoje são cidades constituídas, como:
- Lages;
- Bocaina do Sul;
- Bom Retiro;
- Alfredo Wagner;
- Rancho Queimado (que teve seu nome inspirado em um rancho de pouso dos tropeiros que pegou fogo);
- Angelina;
- Águas Mornas;
- Santo Amaro da Imperatriz;
- São Pedro de Alcântara;
- São José e,
- Florianópolis (antigamente chamada de Desterro).