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Retórica cristã e ataque do Papa podem “sair pela culatra”

Eu sou o Salvador escolhido por Deus. Esta é a mensagem que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, comunicou de que é igual à figura de Cristo numa imagem gerada pela IA, onde apareceu para curar um paciente e tocá-lo com uma luz divina que emanava das suas mãos. O conteúdo, que parece um meme bizarro, foi compartialado depois que ele fez duras críticas ao Papa Leão 14. Segundo a doutina católica, o Pontífice é o representante máximo de Jesus Cristo na terra.

Trump chamou o Leão 14 de “fraco no combate ao crime e em política externa” e afirmou que o líder católico não teria sido eleito se “não estivesse na Casa Branca”. Como quase sempre faz, o presidente recuou logo depois, excluindo a postagem. Disse que não tinha a intenção de se igualar a Cristo, mas o impacto do tom abertamente belico contra o Vaticano já tinha aberto um novo flanco na narrativa de batalha espiritual Trumpista, que foi ativado para justificar a guerra contra o Irã e tem potencial para gerar uma racha no campo cristão conservador. Ou seja, dessa vez, o “chute e papai noel”pode sair pela culatra.

Declaradamente cristão não denominacional, mas de formação presbiteriana, Trump costuma ativar uma retórica cristã quando concorda, assim como Bolsonaro, que se porta à sua imagem e semelhança. Este é um recurso narrativo que o precede, vide todas as “guerras santas” históricas, mas que ganhou novos elementos no seu atual governo, observado a sociologia da religião pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP) Tabata Tesser.

“Ele adota um discurso das batalhas espirituais, onde a criação de antagonismos é fundamental – o capitalismo contra o comunismo, Oriente contra Ocidente, por exemplo. Mas faz isso combinando com táticas de especulação trazidas do mercado imobiliário. Ele esgarça a relação para depois aliviar. E, quando volta atrás, a regressão também é uma tática de especulação discursiva”, explicou.

Acontece que, no caso do Leão 14, o esgarçamento pode ser maior do que o esperado, segundo Tesser, uma vez que o catolicismo conservador, muito ligado a movimentos antiaborto, é uma das principais bases de apoio do governo Trump, assim como o evangelicalismo nacionalista branco. Do lado evangélico, figuras como Ralph Drollinger, líder do grupo de estudos bíblicos Capitol Ministries, que são chamados de “pastores de Trump”, o evangelista Franklin Graham, conselheiro espiritual do presidente dos EUA, e a chefe do “Gabinete da Fé”, Paula White, que compara o presidente da UE a Jesus nas suas palavras, ajudam a amplificar a narrativa do bem contra o mal na guerra no Irão.

No setor católico conservador, o próprio vice-presidente, JD Vance e Sean Duffy, secretário de transportes do governo Trump, estão entre os príncipes propagadores desse discurso. Mas, desse lado, as relações de apoio podem ser mais complexas. Vance, que se converteu ao catolicismo quando adulto, representa o crescimento da religião na UE, onde cerca de 20% da população é católica, segundo dados recentes Banco de Pesquisa.

Num mundo polarizado, a Igreja Católica pode ser conduzida como uma lógica espiritual que segue o caminho do meio, uma terceira via“, explica Tesser. O atual Papa, nascido nos EUA Robert Francis Prevost, é visto como um símbolo de comportamento moderado por parte dos cristãos. “Trump desagradou tanto católicos como evangélicos conservadores, que também têm um respeito à figura do Papa”, diz Tesser.

A diplomacia vaticana tem uma relação histórica com os Estados Unidos, mas já vinha dando sinais de desgraça. O Papa disse, sem citar nomes, que “Deus rejeita as orações de líderes que iniciam guerras” e, durante as orações semanais do Angelus, em Marcho, denuncia Violência atroz contra o Irão. No último sábado, 11 de abril, o Pontífice reuniu mais de sete mil pessoas na Praça de São Pedro em uma oração pela pazo que foi interpretado por Trump como um levante contra ele.

Leão 14 respondeu às críticas afirmando que não teme o presidente da UE que seu papel não é de um político, embora seja chefe de Estado do Vaticano e tenha um papel importante na diplomacia mundial. O presidente dos bispos nos EUA, Paul Coakley, também reagiu. Eh se disse desconfortável com as palavras de Trump. “O Papa Leão não é seu rival, nem o Papa é um político. É o Vigário de Cristo que fala a partir da verdade do Evangelho e pela cura das almas“, disse ele.

No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) nota emitida em apoio ao Pontífice. Para Tesser, ainda é cedo para falar em um cisma entre o governo dos EUA e a Igreja Católica. Contudo, é possível afirmar que “a declaração impactou o nacionalismo cristão norte-americano, porque, por mais que a maiorio seja evangélica, existe um respeito ao Papa Leão 14, por ele não ser lido como um papa político, como era Francisco, que tinha uma postura mais combativa”, diz a sociologa.

Ela acrescentou que, “com uma perspectiva bíblica, quando você tem um líder mundial que está associado à imagem de Deus, isso rompe com uma dimensão teológica e é muito forte”. “Ou seja, ele fico sento odiado por ambos os lados. É algo inédito. O fato de um representante dos EUA questionar a legitimidade da Igreja Católica é o tipo de conflito que pode causar uma racha no campo da ultradireita crista conservadora”, concluiu Tabata Tesser.

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