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Rede de espionagem: grupo de Vorcaro acessava sistemas da PF, do MPF e do Infoseg – Gazeta Brasil

Relatório da Polícia Federal obtido após a retirada do sigilo do caso Master aponta que o ex-controlador do banco mantinha uma célula clandestina batizada de “A Turma”, com cerca de seis policiais cooptados, para invadir sistemas sigilosos, monitorar jornalistas e desafetos e forjar documentos. Os documentos também detalham um contrato de assessoria jurídica de R$ 3 milhões líquidos por mês firmado com o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes, com atuação em cinco frentes.

A Polícia Federal revelou a existência de um esquema de espionagem ilegal e intimidação armada mantido para atender a interesses particulares do empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Os dados constam em relatório elaborado a partir da extração telemática do celular do banqueiro e foram tornados públicos após a retirada do sigilo de documentos ligados ao inquérito do caso Master pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A estrutura clandestina “A Turma”

As apurações apontam a existência de uma estrutura clandestina de apoio e vigilância privada. O núcleo, batizado internamente de “A Turma”, funcionava como instrumento de consulta ilegal a sistemas restritos e de coerção contra desafetos da instituição financeira. O STF decretou a prisão preventiva dos principais articuladores da célula. Entre os alvos das ordens judiciais estão o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicario” e descrito nas páginas da investigação como “Felipe Mourão”, que cometeu suicídio na carceragem da PF.

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Liderança operacional e cooptação de agentes

As investigações revelam que a célula era comandada operacionalmente por Marilson Roseno da Silva. O policial aposentado atuava como interlocutor direto de Felipe Mourão, operador encarregado de receber e repassar as ordens emitidas por Vorcaro. O grupo reunia cerca de seis policiais cooptados. Os levantamentos da PF apontam indícios de participação de agentes em atividade na própria corporação, além de policiais civis e servidores lotados no estado do Rio de Janeiro. O núcleo tinha acesso a equipamentos e contatos privilegiados na área de segurança pública, permitindo a execução de serviços ilegais para blindar as atividades do banco e monitorar pessoas de interesse do controlador.

Acesso a bancos de dados sigilosos e coação

A atuação da organização envolvia a extração clandestina de registros armazenados no sistema ePol, da Polícia Federal, no Ministério Público Federal e no Infoseg, da Secretaria Nacional de Segurança Pública. O grupo acompanhava apurações em andamento e consultava placas de viaturas oficiais. Os policiais monitoraram o andamento da Notícia de Fato do MPF que precedeu a deflagração da Operação Compliance Zero, com o objetivo de antecipar eventuais ordens judiciais contra o grupo financeiro.

Além das invasões a bancos de dados, o núcleo executava ações diretas de vigilância e perseguição contra jornalistas, empresários e ex-funcionários. Um dos casos documentados envolve ameaças direcionadas a Luis Felipe Woyceichoski, ex-capitão de barco do banqueiro, e a familiares dele. Os investigados também forjavam expedientes atribuídos a órgãos públicos — a exemplo do Ministério Público do Estado do Ceará — para induzir plataformas digitais a derrubar publicações e perfis críticos a Vorcaro.

Engrenagem financeira

O custeio do núcleo de vigilância exigia repasses mensais de R$ 1 milhão autorizados pelo banqueiro. Desse montante, cerca de R$ 400 mil destinavam-se especificamente à remuneração da equipe comandada por Marilson. A transferência dos valores utilizava operadores financeiros interpostos, com remessas das contas da empresa Super Empreendimentos para a King Empreendimentos, de propriedade de Felipe Mourão, com a participação de Fabiano Campos Zettel e Ana Claudia Queiroz de Paiva. Diante dos indícios de violação de sigilo funcional, obstrução de Justiça e organização criminosa, mandados de busca e apreensão foram cumpridos nos endereços ligados aos investigados, que permanecem sob custódia.

Contrato do Master com escritório da esposa de Moraes

A retirada do sigilo também tornou público o contrato firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, ligado à advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. O acordo previa 36 parcelas fixas de R$ 3 milhões líquidos — o que, por ser “livre de impostos”, exigia um desembolso mensal de R$ 3.646.529,77 pelo banco, com pagamento até o 5º dia útil por TED.

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O contrato configurava um pacote amplo com cinco frentes de atuação:

  • Judiciário: processos em todas as instâncias;

  • Ministério Público: acompanhamento de procedimentos;

  • Polícia: consultoria em inquéritos da Polícia Federal e das polícias civis;

  • Órgãos do Executivo: Banco Central, Receita Federal, PGFN e Cade;

  • Legislativo: acompanhamento de projetos de lei de interesse do banco.

Também cabia ao escritório montar e aprimorar o programa de integridade (compliance) do Master, com mapeamento de riscos, código de ética, canal de denúncias, comitê interno, treinamentos e controles para prevenir fraudes.

O escritório informou ter realizado 94 reuniões (79 presenciais na sede do banco) e emitido 36 pareceres, com uma equipe de 15 advogados e apoio de outros três escritórios, ressaltando que não atuou em causas do Master no STF.

Metadados e edição da minuta

O documento ganhou repercussão adicional após a revelação de que metadados do arquivo indicam que Alexandre de Moraes acessou e editou uma versão da minuta em 15 de janeiro de 2024, antes da assinatura. O escritório confirmou o acesso do ministro e explicou que o setor de compliance pediu a ele, “como marido da sócia diretora”, que verificasse se havia impedimento legal — por exemplo, se o Master teria causa no STF sob relatoria dele. Segundo a nota, não havia esse impedimento, e o contrato foi formalizado. Mensagens obtidas pela Polícia Federal também mostram que Viviane Barci enviou a minuta diretamente a Vorcaro no mesmo período.

Próximos passos

A íntegra do contrato e os documentos do caso Master estão disponíveis para consulta pública. O julgamento no plenário do STF, marcado para terça-feira (15), deve discutir a validade do relatório da Polícia Federal que apontou a suposta relação entre Moraes e Vorcaro, além dos desdobramentos das investigações que envolvem ministros da Corte.

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O espaço segue aberto para manifestação de todos os citados.

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