Fenômeno que emergiu junto à GenZ, a epidemia da “recessão sexual” parece estar fazendo novos e fiéis adeptos. Deixando de lado as noites de prazer, cerca de 37% dos jovens se identificam como celibatários, segundo o estudo “The State of Us: National Study on Modern Love & Dating in 2025″, em parceria da DatingAdvice.com junto ao Instituto Kinsey.
Embora os ‘nativos digitais’ da Geração Z tenham optado por deixar o “sexo” em um segundo plano, cresce também as taxas de jovens adultos celibatários involuntários: 22,1% entre homens e 19,3% no caso das mulheres. Com a “pista cada vez mais salgada”, o desejo sexual tem sido suprimido por uma série de fatores que vão além da falta de interesse, como ansiedade, insegurança e dificuldade em se relacionar.
Essa redução da frequência sexual parece estar ligada não somente à escolha pelo celibato, mas também às novas dinâmicas de namoro e o impacto das redes sociais sobre expectativas, autoestima e intimidade. Faltando menos de um mês para se comemorar o Dia do Sexo (6/9), o especialista em Sexologia e Sexualidade à frente do projeto “Prazer! Te conhecer”, Januário Mourão, revela que os jovens chegam à vida adulta sem conhecer o próprio corpo ou saber conversar sobre consentimento, além de não saber compreender aspectos básicos da saúde sexual.
“O Brasil não possui uma política ampla, contínua e efetiva sobre educação sexual. Temos gerações inteiras que cresceram sem orientação adequada, aprendendo sobre o corpo e o sexo por meio de colegas, pornografia, experiências individuais, discursos religiosos, conteúdos de redes sociais ou informações incompletas. Isso pode auxiliar a explicar a epidemia silenciosa da recessão sexual. Além da ausência de políticas consistentes, a educação sexual passou a ser tratada como ameaça moral ou ideológica. Isso dificulta a construção de iniciativas públicas e impede que crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos tenham acesso a informações adequadas a cada fase da vida”, comenta.
Responsável por traduzir temas complexos ligados ao corpo, sexualidade, prazer e masculinidades de maneira acessível, Januário explica que há uma mitificação sobre corpo, sexo e prazer que são cobertos por preconceito e tabus. Para entender como essas ideias se enraízaram no público mais jovem, o sexólogo, professor PhD em Anatomia e psicanalista revela que parte desses “bloqueios” está relacionada ao patriarcado e ao machismo.
“As expectativas impostas aos homens, por exemplo, podem produzir ansiedade de desempenho, medo da vulnerabilidade e uma compreensão limitada do prazer. No caso das mulheres, a repressão ao desejo, o desconhecimento do próprio corpo e a naturalização da dor durante o sexo continuam sendo problemas frequentes. Em um mundo em que a vulnerabilidade é sinal de fraqueza, de vergonha, a dificuldade de se relacionar toma conta e afasta a ‘conexão’ entre os jovens. Embora cada prática, frequência ou comportamento sexual não seja via de ‘regra’ para todas as pessoas, é possível entender determinados comportamentos a partir de fatores como o perfil do público, faixa etária, contexto, ambiente, entre outros”, destaca.
Antecipando os debates sobre o ‘Dia do Sexo’, Januário é uma das figuras centrais no debate sobre masculinidades, sexualidade e transformação social. À frente das iniciativas ‘Prazer! Te conhecer’ e do ‘Antimachismo Social Club’, o empresário atua em diferentes vertentes, orientando sobre corpo, prazer e comportamento há mais de vinte anos no país.
De origem carioca, batizado na Bahia e pai de duas filhas, o sexólogo afirma que é comum que mesmo após a escola, universidade e diferentes relações de afeto, que os adultos afirmem não encontrar um espaço seguro, científico e não moralista para falar sobre sexo – o que induz ao desconhecimento, sobretudo entre os mais novos.
“A educação sexual baseada em evidências é fundamental porque oferece ferramentas para que as pessoas compreendam o próprio corpo, reconheçam limites, expressem desejos, estabeleçam relações consensuais e tomem decisões mais conscientes. A sexologia possui pesquisas sobre anatomia, comportamento, desejo, resposta sexual, saúde, relacionamentos e diferentes fases da vida. Quando esse conhecimento não chega à população, o espaço é ocupado por mitos, preconceitos e promessas sem fundamento. A ausência de informação também aumenta a vulnerabilidade. Pessoas que não conhecem o próprio corpo podem ter dificuldade para reconhecer situações de violência, identificar sintomas, procurar ajuda ou entender que dor, medo e constrangimento não deveriam ser tratados como partes inevitáveis de uma relação sexual. Isso ajuda a explicar porque muitos dos jovens, hoje, preferem uma boa noite de sono ao sexo, por exemplo”, destaca.
Diretor operacional e sócio na Gaveta do Pensamento, empresa de comunicação, cultura e educação, Januário explica que os mitos relacionados à “sexualidade” não são apenas erros de informação. Na visão do especialista, eles contribuem para um público mais ansioso, silencioso, frustrado, que replica moldes da pornografia e consome cada vez mais medicamentos inadequados.
“Uma educação sexual responsável não ensina apenas práticas sexuais. Ela aborda o consentimento, o respeito, a prevenção, autocuidado, diversidade corporal, saúde, afetos, limites, comunicação e responsabilidade. Precisamos de uma educação que não seja limitada à prevenção de gravidez e infecções sexualmente transmissíveis. Ela precisa incluir corpo, consentimento, prazer, afetividade, diversidade, respeito, prevenção da violência, comunicação e pensamento crítico. Dessa forma, podemos evitar uma epidemia da solidão, impulsionada pelos próprios anseios, frustrações, e ausência de orientação profissional”, conclui.