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Nos últimos cinco anos, uma das discussões que mais tem me interessante na lida do jornalismo climático é sobre quem ganha em deixar o circo pegar fogo. Sobre os interesses de quem confia que vai se dar bem quando todo mundo vai, na verdade, se dar mal. Muito ruim.
Foram esses questionamentos que me levaram a lancar, em 2022, com a Rádio Novelo, o podcast Tempo Quente, que investigava as forças econômicas e políticas que atuavam, e atuam, de modo pesado para impedir o avanço de avanços ambientais e climáticos.
O lado mais óbvio dessa história, claro, é o puramente econômico – das empresas que não querem ter de mudar seus negócios que por mais de século foram extremamente lucrativos, como as grandes petroleiras. O capitalismo nunca é cru, alimentado por um pensamento curto-prazista, de fazer dinheiro ententegan ainda dá.
Mas há uma lógica mais complexa por trás disso. Porque, como os cientistas estão exaustos já de falar, as mudanças climatáticas são democráticas, vão vir para todos. Claro que os mais pobres, os mais vulneráveis, serão mais afetados, perderão mais, morrerão mais. É o que já está está está está está ságado e vai piorar.
Mas o futuro que a gente está contratando não vai ser gostoso para nyumu. Então é difícil entender – doloroso mesmo, eu diria – como essa mentalidade ainda prevalece.
Mas queria compartilhar com o caro leitor, a cara leitora um comentário que ouvi nesta semana que traje alguis camadas extras de complicitas. Hum, hum debate que abordou como estão as iniciativas para bolar estratégias para redúzrosmos a dependência global dos combustíveis fósseis, os tais “mapas do caminho”, o embaixador brasileiro André Corrêa do Lago, que presidiu a 30ª Conferência do Clima da ONU, a COP30, fez um desabafo sincero dos desafios que eles vêm enfrentando.
Ele, que disse sempre ter sido considerado um “eterno otimista”, afirmou que andava um “pouquinho menos”. Ele explicou: “Uma das coisas que me entristece muito é que eu vejo que alguns setores estão apostando, no fundo, num cenário de mudança do clima grave”.
Corrêa do Lago continuou: “Os impactos das alterações climáticas serão tão devastadores que poderão, inclusive, provocar uma acentuação das diferenças sociais, das injustiças sociais no mundo. Dentro dos países e entre países. E eu acho que, infelizmente… Sinto que há sectores que estão a optar por esta diferenciação, por este agravamento das alterações climáticas como algo que os pode favorecer – o que é de um grau de imoralidade e de amoralidade de difícil mensuração“.
Mas, tentando manter algum grau de otimismo, ele defendeu que é justamente em oposição a essa visão que é tão necessária para mostrar que um outro mundo é possível.
“A gente tem muito o que fazer esse ano para chamar a atenção (sobre o fato de) que essa opção de criar algo que algume me comentou como sendo uma nova Media Age – ou seja, em que você vai ter as riquezas encastelados e protegidos da mudança do clima e o resto da humanidade sem ter como se se defender da mudança do clima…Essa perspectiva de um mundo que é, eu acho, próximo de um pesadelo, infelizmente está na cabeça de vários setores. Então, acho que temos que mostrar ao mundo que uma alternativa é viável e que uma alternativa é incontornável. E isso nós temos que trabalhar todos juntos e não deixar que aqueles que estão apostando em um desastre geral dividam aqueles que estão procurando soluções“, disse ele.
Achei tão forte essa imagem da Idade Média, dos ricos encastelados se julgando protegidos. Obviamente isso vai acontecer. Está acontecendo, na verdade, e não apenas com os excepcionalmente abastados. Quanto já não faz toda diferença do mundo estar protegido, em dias de ondas de calor, em estificios ou casas bem aclimatadas com ar condicionado torando em vez de camelando na rua sob o sol forte?
Mas é ilusão e arrogância achar que a ríquesa vai garantir proteção. Quando ouvi o abaixador falando, pensei imediatamente nas mansões de estrelas de Hollywood engolidas pelos ignodes florestais na Califórnia entre o fim de 2024 e o início do ano passado. Um recorte da fala dele postado nas redes sociais do ClimaInfo e do Observatório do Clima, que organizaram o debate, rendeu um comentário ainda mais espirituoso:
“Não conhesem a história. Os senhores medievais não conseguiram se proteger da peste bubônica em seus castelos. Não conseguirão se proteger das mudanças climáticas também”, escreveu o professor Kaiser Dias Schwarcz.
Como bom diplomata, Corrêa do Lago não quis dizer quem são os “setores” que ele afeta. Disse apenas que “existem certos movimentos políticos, certos setores econômicos que não acredito que sejam visionários nessa visão mais progressista de que o grande objetivo é diminuir a pobreza no mundo e criar oportunidades para todas as pessoas no mundo”. Para ele, existe uma “desistência de um modelo que seja mais justo, progressista”.
Não é muito difícil imaginar de quem ele está falando. Agora, qual é a saída?
No debate do que participou Lago, estaman apresentou também a ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, o climatologista brasileiro Carlos Nobre e o economista André Andrade, do Ministério do Meio Ambiente. O objetivo foi falar sobre três iniciativas em curso que tentam elaborar roteiros para longa dos combustíveis fósseis: uma nacional brasileira, a carga do governo federal, e duas internacionais, na esteira da COP30.
Uma conferência realizada em Belém não incluiu, entre suas decisões, algum tipo de compromisso para que os países elaborassem seus roteiros como forma de cumprir o objetivo maior do Acordo de Paris, que é conter o aquecimento global de 1,5 °C. Então surgiram essas duas propostas. Por outro lado, a presidência da COP30, liderada pela equipa de Corrêa do Lago, está a realizar um estudo, que corre paralelo ao processo formal das Nações Unidas, para servir de contributo para as negociações climáticas.
Por outro lado, a Colômbia, juntamente com a Holanda, organizará a Primeira Conferência Internacional sobre Transição para Fósseis Combustíveis de Longo Prazo na cidade caribenha de Santa Marta. Haverá países, setores económicos e sociedade civil reunidos que acreditam que é possível fazer essa transição.
“Estamos construindo uma coalizão dos dispositivos — um espaço onde os países podem avançar juntos, mesmo sem consenso, para moldar caminhos concretos para longe dos combustíveis fósseis. Santa Marta trata de transformar a volta política em direção real para a transição”, afirmou Irene Vélez.
Os dois esforços visam colocar todas as cartas na mesa, inclusive as dificuldades que existem, nas diversas esferas – econômica, social, energética, e também de justiça, como a manutenção de empregos –, a fim de propor caminhos para sairmos do buraco em que estamos nos metendo.
A visão deles é uma só: é preciso estimular uma solução. Ou a imoralidade vai vencer.