Um soldado das Forças Especiais do Exército dos Estados Unidos foi libertado sob fiança de US$ 250 mil após ser acusado de utilizar informações confidenciais sobre a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro para realizar apostas e obter lucros superiores a US$ 400 mil em um mercado de previsão online, segundo informou um porta-voz do Departamento de Justiça.
Gannon Van Dyke, de 38 anos e lotado em Fort Bragg, Carolina do Norte, responde agora por fraudes em commodities, fraude eletrônica e uso ilegal de informação sigilosa para benefício pessoal.
Como funcionou o esquema
De acordo com a acusação, Van Dyke participou do planejamento e da execução da operação que resultou na captura de Maduro em 3 de janeiro, em Caracas. Entre 27 de dezembro e 2 de janeiro, o militar realizou apostas superiores a US$ 33 mil na plataforma Polymarket, apostando que Maduro deixaria o cargo em breve e que forças americanas entrariam na Venezuela.
Na época, o mercado considerava improvável esse desfecho — o que permitiu que Van Dyke obtivesse lucros acima de US$ 400 mil quando os eventos se confirmaram.
“O acusado foi depositário de informação confidencial sobre operações dos Estados Unidos, mas agiu de modo que colocou em risco a segurança nacional e a vida de soldados americanos”, afirmou Michael Selig, presidente da Comissão de Comércio de Futuros de Commodities (CFTC).
Primeiro caso do tipo nos EUA
O processo contra Van Dyke marca a primeira vez que o Departamento de Justiça americano apresenta acusações por uso de informação privilegiada relacionadas a mercados de previsão — plataformas que permitem aos usuários apostar sobre eventos de atualidade, desde competições esportivas até acontecimentos políticos.
O sargento-mor não se declarou nem culpado nem inocente e deverá comparecer perante a juíza federal de distrito Margaret Garnett, em Manhattan, que supervisionará o processo. Ao autorizar sua libertação, o juiz federal Brian Meyers determinou que Van Dyke entregue seu passaporte e suas armas de fogo, salvo disposição contrária por ordem militar.
Evidências apresentadas pela acusação
A denúncia detalha que Van Dyke enviou para sua conta do Google uma fotografia tirada na madrugada de 3 de janeiro — após a detenção de Maduro — em que aparece no convés de um navio, vestindo uniforme militar e acompanhado de outros três soldados, depois que o ex-líder venezuelano foi transferido para o USS Iwo Jima.
Os promotores também afirmam que, após retirar os fundos obtidos na Polymarket, Van Dyke solicitou a exclusão de sua conta na plataforma — movimento interpretado como tentativa de ocultar sua identidade.
Segundo a CFTC, em 26 de dezembro — pouco mais de uma semana antes da operação em Caracas —, Van Dyke transferiu US$ 35 mil de sua conta bancária pessoal para uma conta em uma exchange de criptomoedas. A maior parte das apostas foi realizada na noite de 2 de janeiro, apenas horas antes do início da intervenção militar.
Resposta da plataforma
Shayne Coplan, fundador e CEO da Polymarket, declarou:
“Colaboramos de forma proativa com todas as autoridades pertinentes ante qualquer atividade suspeita em nosso mercado.”
A empresa alertou o Departamento de Justiça após detectar operações baseadas em informação governamental confidencial. Além da Polymarket, Van Dyke tentou abrir contas em outras plataformas, como a Kalshi, mas foi bloqueado pelos sistemas de controle de risco.
Riscos legais e repercussão política
O cargo mais grave que Van Dyke enfrenta pode resultar em até 20 anos de prisão. Outros quatro delitos acarretam penas de até dez anos cada.
A notoriedade do caso reacendeu o debate no Congresso e em governos estaduais dos EUA sobre a necessidade de regulamentar mercados de previsão, especialmente após a detecção de operações suspeitas vinculadas a conflitos internacionais e movimentos políticos de alto impacto.
Enquanto isso, a administração Trump tem demonstrado apoio ao setor, e plataformas como a Truth Social se preparam para lançar seus próprios mercados preditivos.
O processo judicial seguirá em Nova York, onde Van Dyke comparecerá perante a juíza Garnett na próxima terça-feira. As autoridades não divulgaram se o acusado já conta com representação legal, e não há informações públicas sobre sua estratégia de defesa.
O caso deverá servir de precedente para futuras investigações sobre o uso indevido de informações sigilosas em ambientes de apostas digitais — um campo em rápida expansão, mas ainda pouco regulado nos Estados Unidos.