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Propina do luto’: esquema de corrupção surgiu em meio ao trauma de ataque à creche em Blumenau

A dor do atentado inspirou um grupo de pais a criar um projeto de apoio a enlutados e busca por justiçaFoto: Franciele Cardoso/NDTV

Enquanto Blumenau ainda tentava lidar com o trauma provocado pelo ataque à creche Cantinho Bom Pastor, em abril de 2023, empresários e agentes públicos teriam transformado o momento de dor coletiva em oportunidade para negociar contratos milionários sob suspeita de corrupção e propina, segundo investigação do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC).

A apuração faz parte da Operação Sentinela, conduzida pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas), que investiga fraudes em contratos de segurança escolar, pagamento de propina, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

O caso ocorreu poucos dias depois do ataque que matou quatro crianças dentro da unidade de ensino e deixou outras cinco feridas. A tragédia provocou comoção nacional, levou pais a questionarem a segurança nas escolas e pressionou a prefeitura por respostas rápidas.

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Nesse cenário de medo e luto, a administração municipal iniciou uma corrida para contratar vigilância armada nas unidades de ensino. Segundo o Ministério Público, foi justamente nesse contexto que surgiu o esquema investigado.

“Enquanto as pessoas, as famílias estavam em luto, a cidade de luto, agentes públicos e uma empresa privada se aproveitaram da situação para se beneficiar de um contrato alto e os agentes públicos terem participação por meio de propina de 5% desse contrato”, conta o promotor Marcionei Mendes.

Trecho do documento que investiga lavagem de dinheiro na operação Sentinela Foto: Captura de Tela/ND MaisTrecho do documento que investiga lavagem de dinheiro na operação Sentinela Foto: Captura de Tela/ND Mais

Contratos milionários e suspeita de propina

A investigação aponta que os contratos ligados à segurança escolar ultrapassaram R$ 42 milhões entre 2023 e janeiro de 2026. O Ministério Público estima prejuízo de aproximadamente R$ 3,8 milhões aos cofres públicos.

Segundo a investigação, a primeira contratação emergencial ocorreu apenas sete dias após o atentado na creche. O contrato inicial foi firmado por R$ 9,5 milhões para um período de 180 dias. Depois, outro contrato de R$ 4,5 milhões foi assinado por mais 90 dias.

“De 2023 até janeiro de 2026 foram em torno de 42 milhões, pega, mas tira aí mais ou menos 5%, houve um prejuízo em torno de 3,8 milhões para os cofres públicos”, afirma o promotor.

A investigação sustenta que diversas empresas chegaram a apresentar propostas para assumir a vigilância armada nas escolas municipais. Porém, uma das empresas investigadas teria sido avisada de que precisava reduzir o orçamento em 5% para conseguir vencer a contratação emergencial.

Conforme o relatório da operação, a empresa apresentou um novo orçamento em 13 de abril de 2023, poucos dias após a tragédia, com o desconto apontado nas conversas investigadas. A mudança fez com que ela subisse posições no ranking e conquistasse o contrato.

“O desconto fez com que ela pulasse de sexta colocada para a quarta colocada. Não houve uma licitação, houve uma dispensa de licitação, uma contratação emergencial, tanto que essa contratação se deu em sete dias”, explicou o promotor Marcionei Mendes.

Conversas chamaram atenção dos investigadores

Entre os elementos reunidos pela investigação estão trocas de mensagens consideradas suspeitas pelo Ministério Público.

Trocas de mensagens consideradas suspeitas pelo Ministério Público.Foto: Captura de Tela/ND MaisTrocas de mensagens consideradas suspeitas pelo Ministério Público.Foto: Captura de Tela/ND Mais

Em uma delas, um dos investigados afirma que “ficou somente o nosso amigo na licitação”. Na sequência, recebe a resposta: “acho que vou até te levar um café”.

Para os promotores, a conversa pode indicar negociação de propina relacionada ao contrato público.

As investigações também apontam que o grupo teria continuado acumulando contratos ligados à segurança escolar nos anos seguintes, enquanto Blumenau ainda lidava com os efeitos emocionais da tragédia.

Dinheiro em envelopes dentro de frigobar

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    Imagens da investigação mostram pacotes com possível dinheiro dentro de um frigobar - Captura de Tela/ND Mais

    Imagens da investigação mostram pacotes com possível dinheiro dentro de um frigobar – Captura de Tela/ND Mais

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    Imagens da investigação mostram pacotes com possível dinheiro dentro de um frigobar - Captura de Tela/ND Mais

    Imagens da investigação mostram pacotes com possível dinheiro dentro de um frigobar – Captura de Tela/ND Mais

Além das suspeitas de fraude nos contratos, a Operação Sentinela também investiga um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo postos de combustíveis.

Segundo o Gaeco, empresas investigadas realizavam pagamentos por meio de notas fiscais consideradas simuladas. Depois disso, o dinheiro seria sacado em espécie e distribuído aos envolvidos.

Uma das imagens consideradas centrais na investigação mostra envelopes com dinheiro guardados dentro de um frigobar. As fotografias foram encontradas em celulares apreendidos durante a operação.

“Nós encontramos fotos dos envelopes em um dos celulares. O valor da nota fiscal era exatamente o mesmo que estava guardado dentro do envelope”, afirmou o promotor.

Ligações com outras operações

Os investigados na Operação Sentinela também aparecem em outras duas apurações conduzidas pelo Gaeco em Blumenau: a Operação Ponto Final, que investiga supostas irregularidades em obras públicas, e a Operação Arbóreo, ligada a suspeitas de propina em contratos de merenda escolar.

Segundo o Ministério Público, o grupo atuava de forma estruturada e cada integrante teria função específica dentro do esquema.

Até o momento, mais de 70 pessoas já foram ouvidas entre testemunhas e suspeitos. O Gaeco ainda analisa celulares, computadores e documentos apreendidos durante a operação.

A Justiça também determinou o bloqueio de R$ 3,8 milhões nas contas dos investigados para garantir eventual ressarcimento aos cofres públicos em caso de condenação.

Para os investigadores, porém, o que torna o caso ainda mais delicado é o momento em que tudo teria acontecido: enquanto famílias tentavam superar a morte de crianças e a cidade buscava recuperar a sensação de segurança dentro das escolas.

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