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Produção científica na América Latina tem potencial, mas desafios estruturais e falta de integração freiam protagonismo

A América Latina concentra cerca de 8% da população mundial, distribuída entre mais de 20 países marcados por diversidades étnicas, naturais e culturais. Ainda assim, sua participação na produção científica global se limita a 2%. Em um movimento regional de fortalecimento, pesquisadores, governos e instituições de ensino e pesquisa latino-americanas têm unido esforços para a construção de uma agenda política própria, baseada nas necessidades dessa parcela da população.

O tema foi debatido no evento Vozes da Ciência Latino-Americana, realizado no Centro de Ensino e Pesquisa Einstein. No encontro, os especialistas falaram sobre a percepção atual de que os sistemas de ciência, tecnologia e inovação da região ainda operam sob estruturas bastante desafiadoras e heterogêneas. Enquanto países como Brasil e Argentina lideram o número médio de pesquisadores por país, com 660 e 1005, respectivamente, outras nações, como Panamá e Paraguai, não atingem sequer a marca nacional de 200 pesquisadores.

Além disso, algumas características da região impõem desafios que precisam ser superados. Instabilidades econômicas, políticas e institucionais e quadros de desigualdade social afetam a cultura científica desses países e influenciam a maneira como modelos de financiamento e projetos a longo prazo são desenvolvidos e colocados em prática. O resultado é uma disparidade na forma como a América Latina se insere no sistema internacional científico.

“Em muitos casos, essa inserção ocorre com forte integração às agendas, redes e fontes de financiamento dos países centrais. Embora essa colaboração internacional seja bastante intensa, ela é predominantemente orientada para o norte global, enquanto a cooperação regional ainda apresenta baixa densidade institucional”, analisou Sidney Klajner, presidente do Einstein Hospital Israelita. “Esse padrão limita a capacidade de definição de agendas próprias e o avanço de uma autonomia científica e tecnológica mais robusta.”

“Em qualquer lugar do mundo, conhecimento é gerador de melhorias e progressos na saúde. É amplificador de novas descobertas, de acesso e de equidade”, afirmou Claudio Lottenberg, presidente do Conselho Deliberativo da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. “Nesse sentido, a pesquisa na América Latina pode atuar como protagonista relevante na geração de conhecimentos que contribuem para enfrentar os desafios globais da saúde.”

O evento promoveu diálogos entre pesquisadores e especialistas de relevância mundial sobre ciência de fronteira, cooperação internacional, financiamento, ambientes regulatórios e as trajetórias de quem impulsiona a produção do conhecimento científico. A expectativa do Einstein é que debates como esse incentivem a colaboração entre instituições e reforcem a importância do conhecimento como motor de inovação e impacto social da América Latina para o mundo.

“A ideia é contribuir com pesquisa de qualidade, formação de pessoas, inovação responsável e parcerias nacionais e internacionais”, apontou Fernando Bacal, vice-presidente de Pesquisa e Inovação do Einstein. “Nenhuma organização responde sozinha aos desafios que temos pela frente. A ciência latino-americana não é periférica. Ela é necessária, relevante, pois é capaz de contribuir para o futuro da saúde na região e no mundo.”

Expertises e agenda regional

Embora a diversidade (populacional, genética e biológica) seja uma grande marca da América Latina, essa não é a única fortaleza encontrada nos 20 países que compõem a região. Enquanto os desafios estruturais mencionados já são bem estabelecidos, há um movimento importante para redirecionar o debate e transformar as adversidades em oportunidades de crescimento para a região – a começar pelo perfil dos pesquisadores locais, conhecidos por sua resiliência e adaptação a diferentes cenários.

Tais características estão alinhadas ao desenvolvimento de um ambiente científico mais colaborativo, dinâmico e original, segundo Cristian Morales, natural do Chile e Doutor em Saúde Pública, representante da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS) no Brasil. Ele destacou que a nova política de saúde única, anunciada pela OPAS em 2021, coloca a América Latina em uma posição favorável para assumir a liderança de estudos e pesquisas na área. Essa diretriz reconhece explicitamente a interface entre saúde humana, ambiental e animal como um eixo central da produção de conhecimento.

Além disso, desafios que antes causavam maior preocupação a países do hemisfério Sul começam a ultrapassar fronteiras, como o aumento de doenças como dengue e chikungunya no continente europeu. Na lista de temas nos quais a região acumula expertise estão, além das doenças infecciosas emergentes, a resistência antimicrobiana, uma demografia dinâmica – onde temos países que já convivem com uma proporção de pessoas de mais de 60 anos maior que os menores de 15 anos – e mudanças climáticas.

“A importância da ciência para lidar com essas pressões e para estruturar políticas públicas que respondam às necessidades que mudam são fatores que colocam a América Latina em potencial posição de liderança, um lugar que ainda não foi conquistado”, defendeu Morales.

A própria transformação socioeconômica da região nas últimas décadas, que têm resultado em urbanização acelerada e assentamento informal, como vilas e comunidades periféricas, se tornou motor para o desenvolvimento de abordagens inovadoras para a saúde pública. Nesta linha, se encontram intervenções baseadas na comunidade e programas apoiados por organizações como a OPAS. Eles se tornam modelos inspiradores para outros países não apenas no contexto de sistemas públicos de saúde, como também na saúde privada.

Em outras palavras, é o momento de não apenas se posicionar como experts em temáticas tão relevantes a nível global, mas de estabelecer, fortalecer e valorizar uma agenda própria de maneira ativa. “As agendas científicas são mundiais, mas, para nós, são importadas”, refletiu Pedro Lemos, diretor de Cardiologia no Einstein. “Temos que fazer uma extensão ativa na agenda científica global, e esse evento é um exemplo de que conseguimos fazer isso.”

Nova fase da ciência latino-americana

Os palestrantes e especialistas que participaram do encontro destacaram que já se sabe que a América Latina é capaz de produzir ciência de excelência. Agora, é necessário reorganizar os ecossistemas, tecnologia e inovação para escalar e aumentar o impacto do conhecimento gerado nesta parte do globo.

O caminho mais viável para essa virada de chave são as redes de conhecimento já existentes na região. Além disso, há espaço para potencializar e construir novas estruturas e organismos de colaboração científica entre os países latinos e caribenhos. É o que ponderou Marcella Ohira, vice-diretora executiva e diretora de capacitação do Instituto Interamericano de Pesquisa sobre Mudanças Globais (IAI). Para ela, o foco inicial deve ser em formar, capacitar e fortalecer os recursos humanos, institucionais e as infraestruturas que devem sustentar essa transformação tecnológica.

“Não vivemos mais de forma isolada. Temos que envolver outros setores governamentais, não apenas os executivos, mas também o Legislativo e o Judiciário, porque todos têm uma parcela nesse processo de tomada de decisão”, argumentou. “É preciso investir em formar profissionais que possam fazer essa comunicação eficiente do conhecimento científico cada vez melhor e poder incidir em processos de tomada de decisão com base em evidência científica.”

O objetivo a longo prazo é pavimentar, através das redes de colaboração, um ambiente científico latino-americano mais simétrico, autônomo, escalável e que produza impacto social. Por isso, o intercâmbio de conhecimento, a troca de experiência prática e institucional e o desenvolvimento de estratégias de formação científica que conversem com a realidade regional são fundamentais nesse novo momento

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