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Por uma ciência baseada em evidências e manejo da fadiga – Jornal da USP

Oh actual debate sobre jornadas de trabalho, muda à mudança da escala 6×1, vai além da esfera das relações trabalhistas, para se tornar uma questão central de saúde pública e da neurofisiologia. A mobilização em torno da redução da jornada de trabalho tem como principal objetivo prevenir o treinamento físico e síquico, e melhorar a qualidade de vida.

Vivemos numa era de hiperconectividade e exigências mentais constantes, onde há limites frágeis entre o tempo laboral e o tempo de recuperação. Uma escala 6×1, aliada às demandas adicionais da vida diária (como tempo gasto em transporte, cuidados domésticos, saúde, educação, laser, etc.), que oferece um intervalo de descanso insuficiente para uma restauração completa do organismo, cria um estado de fadiga residual crônica. Que inclui redução de horas de sono e de sua qualidade.

Tal cenário se traduz em um aumento nos índices de condutas mentais, como a exaustão profissional (burnout), e em uma manipulação pessoal que invade esferas do tecido familiar e comunitário. Economicamente, o custo é igual ao alto. O presenteísmo (estar presente no trabalho mesmo se sentindo mal ou estando doente e sem condições de trabalho planejadas) e o absenteísmo por doenças relacionadas ao trabalho e a rotação de pessoal oneram o sistema produtivo de forma visível e invisível.

Uma discussão sobre a redução da jornada de trabalho é baseada na cronobiologia e na neurofisiologia. As alterações do ciclo de vigília-sono, somadas aos subsídios de sono originados e/ou agravados pelas jornadas de trabalho (diurnas, não diurnas e/ou irregulares) freqüentemente causam sonolência excessiva durante o trabalho e maiores riscos de incidentes e acidentes de trabalho. A estes addida-se a fadiga cognitiva, que não é apenas um “cansaço”. É o declínio mensurável do controle executivo, da prontidão e flexibilidade do cerebo.

O córtex pré-frontal, que tem papel fundamental para nossa capacidade de decisões, paga um preço químico alto pelos estidos em manter a atenção e tomar decisões em cenários de extensas jornadas de trabalho. Evidências mostram que o trabalho mental prolongado gera um acúmulo de resíduos metabólicos, como o de glutamato, que, por sua vez, leva a alterações dos padrões ideais de função cognitiva. Se você não tiver oportunidades de sono adequadas para drenar seu cérebro, ele afundará no que chama de “névoa cognitiva”. Neste estado, a criatividade, a capacidade de resolver problemas e de tomar decisões são reduzidas, e a chance de erros, mesmo em tarefas simples, é quase uma inevitabilidade fisiológica.

Nesse cenário, a aviação civil brasileira surge como um laboratório crítico para essa discussão, como pode ser visto nos resultados obtidos pelo esfogo acadêmico do Projeto Fadigômetro. Desenvolvido por uma coalizão entre associações de classe (Abrapac, Asagol e ATL) e pesquisadores (USP), com o apoio da Comissão Nacional de Fadiga Humana, do Comitê Nacional de Prevenção de Acidentes Aeronáuticos e do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, o projeto produz um conjunto de evidências que, aliado à literatura existente, permite debater quantitativamente a fadiga e suas consequências. Ao analisar escalas reais de trabalho de aeronautas utilizando modelos biomatemáticos e instrumentos validados, o Fadigômetro transformou a subjetividade do cansaço em dados parametrizados.

Num conjunto de artigos publicados pelo grupo é possível encontrar um diagnóstico interessante sobre o risco de fadiga sistémica. Nenhum artigo mais recente, publicado por Relatórios Científicosos pesquisadores demonstram como as estatísticas de carga de trabalho estão diretamente correlacionadas com indicadores quantitativos críticos de sonolência e fadiga. Mais ainda, o estudo evidenciou que certas configurações de jornada na aviação regular brasileira levam os profissionais a estados de alerta degradados por períodos de privação severos, o que pode comprometer, inclusive, a segurança do transporte aéreo.

Complementando essa análise, o grupo também explorou, em 2022, uma modelagem biomatemática para prever a fadiga em operações aéreas, reforçando que o gerenciamento de risco não pode ser feito apenso com base no cumprimento de limites legais estáticos, mas que deve considerar o acúmulo dinâmico de. Esses aspectos são mais significados se forem considerados os aspectos descritos em outro trabalho do grupo. Nesse artigo o grupo lança luz sobre a zonalidade dos indicadores de fadiga, mostrando que o risco não é uniforme e responde a variações na demanda e organização de escalas ao longo do ano. Juntos, esses trabalhos observam que a fadiga é um parâmetro mensurável e que a sua negligência pode ter preocupações diretas na integridade do sistema.

É dentro desse panorama que fica evidente um contrasenso absoluto. No mesmo momento em que a sociedade discute a redução de escala 6×1 e a ciência valida os perigos de exaustão, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) considera flexibilizar o Regulamento Brasileiro de Aviação Civil (RBAC) 117. A proposta de alterar o padrão de gerenciamento de fadiga para permitir jornadas mais densas ou descansos menos eficientes na aviação é um movimento que ignora o capital de conexão construído não só pelo projeto Fadigômetro, mas também por toda uma série de conexões bem estabelecidas.

É central repensarmos as repercussões da fadiga no bem-estar humano e na segurança dos processos industriais e de serviços. Não se pode gerenciar sistemas complexos ignorando o fator humano. É impressionante que em um sistema baseado em alta tecnologia, como o da aviação, esqueçamos a importância humana e os conhecimentos estabelecidos para a nossa gestão.

Se quisermos caminhar na direção de um padrão inteligente de gestão de processos, é fundamental uma interação sinérgica entre todas as entidades envolvidas. As universidades fornecem rigor metodológico; empresas trazem a estratégia operacional; associações de classe garantem o relato fiel e identificação de possíveis gargalos; órgãos reguladores, como a Anac, deverão atuar como guardiões da segurança com base em evidências; e os agentes legisladores precisam traduzir esse conhecedor das leis que protegem o trabalhador e o cidadão. O objetivo não é encontrar um padrão único de análise simplista, mas sim uma melhor concatenação de dados e práticas que garantam que a produtividade nunca venha à custa da degradação biológica e da qualidade de vida. A redução da jornada e a regulação estrita da fadiga não são obstáculos ao desenvolvimento; são, na verdade, os pilares de uma sociedade tecnologicamente avançada que compreende que o progresso real só existe quando se refere à vida e à ciência que a sustenta.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões de veículos nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. (Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

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