Por Eva Alterman Blayprofessor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP
UM A revolução feminista, afirma Yuval Noah Harari, é uma transformação mais profunda da história contemporânea. Diferentemente das revoluções tecnológicas ou econômicas, ela vai além: altera os sistemas produtivos e desloca as hierarquias mais antigas da humanidade — aquelas que controlam o corpo, a reprodução, o trabalho e a própria definição do que é o ser humano.
Concordar com Harari significa reconhecer que o feminismo não é um tema circunstancial ou identitário, mas uma ruptura civilizatória. Ou seja, é preciso compreender onde, como e a que custo essa transformação se realiza. Tomemos o corpo da mulher. Na modernidade, é frequentemente apresentado como um projeto de progresso.
No entanto, nele se oculta aquilo que Federici, Blay, Saffioti, entre outros autores, identificaram como uma forma de expropriação do trabalho reprodutivo: um processo que disciplina os corpos femininos e legitima o uso da violência contra mulheres consideradas insubordinadas ao destino “naturalizado” do cuidado como obrigações femininas.
A revolução feminista não se reduz à conquista de direitos formais. Ela busca dar nomes que trabalharam, cuidaram, foram punidas, silenciadas — aquelas que sustentaram a vida e o próprio capitalismo, enquanto o essencial permanecia oculto: o reconhecimento do trabalho e a atuação política das mulheres.
Ao questionar normas e formular uma crítica radical às formas de poder, o feminismo revela quais vidas são protegidas, quais são renoção e quais são consideradas são descartaveis.
A entrada da revolução feminista e a estrutura do Estado inauguram um terreno inovador. Criam-se delegacias da mulher, secretarias de políticas para mulheres, conselhos e mecanismos institucionais de genero. Mesmo desorganizados, esses instrumentos administrativos apresentam marcos históricos: pela primeira vez, a violência doméstica, sexual e simbólica deixou de ser tratada como assunto privado e passa a ser reconhecida como um problema público e político.
Essas instituições materializam uma revolução feminista na prática concreta — escuta, acolhimento, registro, políticas públicas. São limitadas, subfinanciadas, politicamente vazias e carentes de poder real. Ainda assim, alteraram o imaginário social: afirmaram a importância da vida das mulheres, nomearam a violência e convocaram o Estado à sua responsabilidade.
Crítica ao feminismo institucional por sua exclusão de mulheres negras, indígenas, peréfiricas e trans é parte constitutiva da própria revolução feminista, que se reinventa ao interrogar seus limites.
Como explicar, então, o feminicídio?
Uma extraordinária revolução feminista está pagando um preço na vida das mulheres. Não é necessário repetir diariamente o número macabro de mulheres assassinadas.
Essa revolução não terminou. O feminicídio reflete uma resistência às mudanças: uma sociedade patriarcal reage à ampliação de direitos e instaura uma nova batalha. O feminicídio é uma arma fatal do patriarcado.
Retomando Harari, uma revolução feminista, diferentemente das revoluções industriais, comunistas ou religiosas, não usou bombas. Nem por isso tem sido pacífico. O patriarcado reage à perda de poder utilizando todas as armas do seu dispositivo, expandindo a violência e elevando os índices de feminicídio. Paradoxalmente, homens e mulheres não feministas não se contrapõem à igualdade de gênero e alimentam essa violência extrema.
Embora tenha havido avanços, o quadro atual permanece disperso e desarticulado. Os movimentos sociais e as estruturas institucionais de apoio do Estado ainda estão em processo de consolidação. Encontro o feminismo em busca de vanguarda, o patriarcado resiste — e utiliza sua mais letal: mata mulheres.
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