A disponibilidade de dados no Brasil ainda é considerada um desafio para várias áreas. No âmbito da saúde mental, a falta de informações impacta o sistema em vários contextos e dificulta a gestão dos serviços prestados à população. Recentemente, a ImpulsoGov, organização sem fins lucrativos que visa apoiar a gestão em saúde por meio da utilização de dados, anunciou que irá expandir o seu painel de indicadores de saúde mental de 14 para 24 municípios. A ampliação ocorre após aporte de 2 milhões de reais feitos por RaiaDrogasil (RD) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio do programa Juntos pela Saúde.
Utilizando dados do Sistemas de Informações Ambulatoriais do SUS (SIASUS) e do Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SISAB) e outras informações disponíveis nas bases do Ministério da Saúde, a plataforma de dados apresenta aos gestores municipais a situação dos serviços de saúde mental da região, com foco nos cuidados realizados pela Rede da Atenção Psicossocial (RAPS). A ideia é fortalecer a organização e alocação de recursos para conseguir mais eficiência para a saúde e o sistema.
“Existe um abismo de como gerir uma rede de saúde mental no município sem saber informações básicas. Mas ao mesmo tempo, essas informações são produzidas, mas vão para uma base do Ministério da Saúde, que é muito difícil de acessar e conseguir ter isso enquanto informação consolidada. Começamos esse trabalho de garantir que as gestões tenham informações simples e qualificadas, que se relacionam com o dia a dia dos desafios a serem resolvidos”, explica Daniela Krausz, gerente de Projetos de Saúde Mental da organização.
As 10 novas cidades foram escolhidas por meio de edital e serão acompanhadas por 1 ano. Os requisitos para participação incluíam ser das regiões Norte e Nordeste, possuir baixo investimento em saúde e que tivessem ao menos 2 serviços de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), dentre outros critérios. A escolha teve aprovação do Conselho Nacional de Secretarias municipais de Saúde (Conasems).
O projeto, que foi desenvolvido em parceria com o Instituto Cactus, já rendeu resultados para a primeira leva de municípios. Krausz explica que houve análise dos dados que indicaram uma necessidade de realocação de profissionais de saúde entre as unidades, necessidade de aquisição de transportes e treinamento de equipes para captar melhor as informações dos pacientes, além de melhorar o acompanhamento pré e pós internação psiquiátrica.
Em Aparecida de Goiânia, uma das cidades contempladas no primeiro ciclo, foi identificado que 78% das pessoas internadas não eram acompanhadas pela Rede de Atenção Psicossocial (Raps) do município. Os dados permitiram que os gestores pensassem estratégias para conseguir realizar o acompanhamento pós-alta.
Para a RaiaDrogasil, a escolha de apoiar projetos em saúde mental faz parte da estratégia de investir 1% do lucro líquido da empresa em filantropia. “O pilar de saúde mental é o que atualmente a gente tem considerado o mais relevante. Olhamos para todos os outros, mas em 2023 cerca de 30% do nosso orçamento próprio é investido em iniciativas de saúde mental. Acreditamos que no momento atual da sociedade a saúde mental tem sido muito relevante e tem impactado em diversas áreas da vida das pessoas, inclusive na saúde física”, explica Maria Izabel Toro, gerente executiva de Investimento Social da RD.
Gestão
“Uma coordenadora de rede disse que estava lá há 9 anos e não conhecia as informações e os problemas. Preenchimento de campos, como raça e cor, por exemplo, tem muita subnotificação e notificação incorreta, e as coordenadorias passam a olhar para a formação dos profissionais para preencher corretamente e entender a importância”, explica Daniela Krausz, gerente de Projetos de Saúde Mental da ImpulsoGov.
Principalmente em municípios com poucos recursos, há uma grande dificuldade de conseguir compilar e refinar as informações. Diferentes áreas da saúde respondem a diferentes diretorias, o que piora o cenário em fazer os serviços conversarem. Por isso, a iniciativa da organização tem buscado facilitar esse caminho e trazer luz aos dados.
Krausz explica que é recorrente reuniões em que os gestores respondem “não sei” para informações que deveriam ser básicas, como o número de atendimentos realizados pela rede voltada à atenção à saúde mental dos municípios. Mesmo com a plataforma que traz indicadores, a gerente explica que é importante realizar um treinamento com os responsáveis para que eles entendam o que é importante observar.
“Em um município que a gente trabalhou, os dados mostraram como tinha um serviço que estava superlotado e um serviço que estava subutilizado. E esse olhar permite que o gestor pense o que tem que fazer de diferente para conseguir alocar melhor esses recursos. Se, por exemplo, tem a mesma quantidade de profissionais em dois serviços com demandas diferentes, ele pode avaliar o que deve mudar. Muitas vezes o trabalhador que está na ponta consegue ter essa noção, mas ter as informações sólidas permite traçar estratégias em níveis mais altos da gestão”, avalia Daniela.
Do ponto de vista do usuário do SUS e os cuidados com a saúde, os dados permitem que os gestores avaliem a adesão ao tratamento e façam acompanhamentos dos pacientes, além de criar estratégias e protocolos, com foco nos perfis mais propensos a não adesão. Isso pode contribuir não só com a melhora do quadro geral, mas também na redução de custos, já que torna o tratamento mais eficiente, reduzindo o risco de internações e utilização de outros serviços. “Os serviços estão sempre tentando garantir essa continuidade. A gente tem informações no painel que olham justamente para isso”, conclui.
RD e projetos sociais como o ImpulsoGov
Os projetos sociais escolhidos pela RD para receber investimentos estão focados em 4 pilares: saúde física e mental, saúde ambiental, saúde social e saúde integral das comunidades, voltado para crises humanitárias e emergências em saúde. Em 2023, organizações receberam cerca de 9,5 milhões de reais da rede de farmácias para desenvolver trabalhos voltados a essas áreas.
De acordo com a Toro, os projetos apoiados têm que ter impacto em políticas públicas pelo seu grande alcance, já que mais de 70% da população brasileira depende do SUS. Além da ImpulsoGov, outro projeto apoiado com foco em saúde mental, em parceria com outras instituições, é o Vertentes, um ecossistema que visa produzir informações sobre saúde mental e articular com o poder público a utilização delas para o fortalecimento do segmento.
“O Brasil tem pouco apoio filantrópico em saúde mental. É um tema ainda novo e tem muito estigma, pela população geral e pelas empresas em falar sobre saúde mental, sendo que às vezes há questões internas. É um tema que não tem como fugir. Questões de saúde mental são a maior causa de afastamentos em todas as empresas e estão em todos os lugares”, defende Maria Izabel.