A China interveio diplomaticamente no cenário político iraniano, declarando a escolha de Mojtaba Khamenei como o novo líder supremo do Irã um “assunto interno”. Esta posição surge em um momento de profunda instabilidade, após a morte do aiatolá Ali Khamenei em ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel em 28 de fevereiro. Enquanto potências ocidentais expressam forte desaprovação e até ameaças, a postura de Pequim destaca a crescente divergência na abordagem internacional sobre a soberania e a não-interferência em assuntos nacionais.
O Posicionamento Diplomático da China
Nesta segunda-feira, 9 de março, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, manifestou a veemente oposição de Pequim a qualquer ataque ou interferência na liderança iraniana. Ele enfatizou a necessidade de respeito irrestrito à soberania, segurança e integridade territorial do Irã, sublinhando que a decisão de nomear um novo líder é uma prerrogativa do lado iraniano, fundamentada em sua Constituição. A declaração chinesa alinha-se a um princípio de não-intervenção em assuntos internos de outras nações, independentemente do pretexto.
A Eleição de Mojtaba Khamenei e a Divergência Internacional
A Assembleia de Peritos do Irã, composta por 88 clérigos com a responsabilidade de eleger a autoridade máxima do país, anunciou formalmente em 8 de março a ascensão de Mojtaba Khamenei, de 56 anos, como o novo líder supremo. Sua escolha sinaliza uma intenção de manter a continuidade no poder em Teerã. Contudo, essa nomeação gerou reações imediatas e negativas de outras nações. As forças armadas israelenses prontamente ameaçaram perseguir todos os sucessores de Ali Khamenei, enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificou a escolha como “inaceitável” em 5 de março. Trump chegou a declarar que a família Khamenei estava “perdendo tempo” e que o filho do aiatolá era um “peso morto”, fazendo uma controversa referência à sua própria intervenção na nomeação da presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez.
O Perfil do Novo Líder Supremo e Suas Conexões
Mojtaba Khamenei, o segundo filho do falecido aiatolá Ali Khamenei, é um clérigo de nível intermediário que, apesar de nunca ter ocupado um cargo eletivo, é reconhecido como uma figura de considerável influência nos bastidores do regime iraniano. Suas estreitas ligações com a Guarda Revolucionária Islâmica e a milícia paramilitar Basij, forças cruciais para o sistema político e militar do Irã, são amplamente conhecidas. Fontes internacionais sugerem que a Guarda Revolucionária exerceu pressão significativa para sua ascensão, vendo-o como o líder mais apto a guiar o país através da atual crise, garantindo estabilidade e a manutenção das estruturas de poder.
A Escalada Prévia das Tensões entre Washington e Teerã
A morte de Ali Khamenei e a subsequente crise de sucessão foram precedidas por semanas de crescentes tensões entre os Estados Unidos e o Irã. Em 19 de fevereiro, o presidente Trump já havia indicado que avaliaria “um passo adiante” em relação a um ataque ao país persa. Pouco depois, ele reiterou que uma eventual guerra contra o Irã seria uma “vitória fácil” para os norte-americanos, uma visão compartilhada, segundo ele, pelo chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas. Durante o discurso do Estado da União em 24 de fevereiro, Trump criticou o Irã por não proferir “aquelas palavras mágicas: ‘nunca teremos uma arma nuclear'”, alertando sobre o desenvolvimento de mísseis iranianos capazes de ameaçar a Europa e bases americanas. Essas declarações ocorreram em paralelo a conversas diplomáticas que, lamentavelmente, não resultaram em acordo, com o Irã buscando reconhecimento para seu programa de enriquecimento de urânio para fins pacíficos e a suspensão de sanções econômicas em troca de concessões.
A nomeação de Mojtaba Khamenei, legitimada internamente mas duramente contestada por potências ocidentais e defendida por Pequim em nome da soberania, sublinha a profunda fragmentação global. O futuro do Irã sob sua nova liderança, inserido em um contexto de hostilidades latentes e sanções econômicas, permanece um ponto de alta tensão e incerteza para a estabilidade no Oriente Médio e para as relações internacionais.
Fonte: https://www.poder360.com.br