Colágeno de dinossauro encontrado em fóssil de 66 milhões de anos desafia tudo que paleontólogos acreditavam sobre fossas preservação molecular.
Por Dr. Paulo Budri
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Durante décadas, a paleontologia operava sob uma certeza quase absoluta: os fósseis de dinossauros eram apenas rocha mineralizada, sem qualquer traço do material biológico original. Essa convicção acaba de ser abalada por um achado que está dividindo a comunidade científica.
Pesquisadores da Universidade de Liverpool detectaram colágeno, a principal proteína estrutural dos ossos, intacto dentro de um fóssil de Edmontossauro que tem 66 milhões de anos. O material foi encontrado em um sacro (parte da bacia) do dinossauro, recuperado na famosa Formação Hell Creek, em Dakota do Sul.
A descoberta que desafiou 30 anos de ceticismo
A equipe britânica usou uma bateria de técnicas sofisticadas para analisar o fóssil: sequenciamento de proteínas, espectrometria de massa em múltiplas variações e microscopia avançada. Tudo apontava para a mesma conclusão: havia fragmentos genuínos de colágeno preservados dentro do osso fossilizado.
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Pesquisadores da UCLA também identificaram hidroxiprolina, um aminoácido que aparece quase exclusivamente em colágeno. Essa descoberta funcionou como uma confirmação independente, tornando muito mais difícil descartar os achados como simples contaminação moderna.
Steve Taylor, coordenador do Grupo de Pesquisa em Espectrometria de Massa da Universidade de Liverpool, explicou o significado da descoberta: “Nossos resultados demonstram que biomoléculas orgânicas como proteínas aparecem estar preservadas em alguns fósseis. Isso refuta a hipótese de que qualquer material orgânico encontrado em fósseis precisa ser contaminação.”
Por que isso causou tanto alvoroço entre paleontólogos?
A ideia de que moléculas biológicas poderiam sobreviver dezenas de milhões de anos não é nova. Desde 2005, quando a paleontóloga Mary Schweitzer reportou estruturas de tecido mole dentro de um fóssil de Tiranossauro rex, a comunidade científica enfrentou um dilema incômodo: ou esses materiais eram genuínos, ou eram contaminação moderna.
O problema é que permitir a possibilidade de preservação proteica desafiava praticamente tudo que os biólogos moleculares pensavam saber sobre decomposição. As proteínas deveriam desaparecer em questão de milhões de anos, não perdurar por 66 milhões. Esse conflito criou um fosso entre paleontólogos que acreditavam nos achados e químicos que os questionavam.
A vantagem do novo estudo do Edmontossauro é metodológica. Em vez de confiar em uma única técnica de análise, os pesquisadores cruzaram os dados de múltiplos métodos independentes. Se contaminação fosse a culpada, seria improvável que aparecesse nos mesmos locais através de técnicas tão diferentes.
O que muda agora para a paleontologia?
Este achado, publicado na revista Analytical Chemistry em 2025, não resolve completamente o mistério de como proteínas sobrevivem por tanto tempo. Mas muda a questão fundamental que os cientistas precisam responder.
Se moléculas orgânicas podem preservar-se em condições específicas, paleontólogos agora precisam entender quais são essas condições. Talvez determinados tipos de rocha, certos ambientes enterrados, ou mesmo propriedades químicas específicas do osso de dinossauro criem microambientes que protegem as proteínas da decomposição.
Isso abre caminho para uma abordagem totalmente nova: em vez de estudar dinossauros apenas por seus ossos e formas fossilizadas, cientistas poderiam analisar literalmente as proteínas originais desses animais. É como se paleontólogos tivessem ganhado uma máquina do tempo molecular para ver a biologia desses répteis gigantes não através de fósseis, mas através da química do próprio corpo deles.
A descoberta também sugere que talvez outros fósseis, muito mais antigos ou recentes, possam conter traços de material original ainda não identificados. Tudo depende agora de como a comunidade científica responde e se outras instituições conseguem reproduzir esses resultados em outros espécimes de dinossauros.
Foto: Jonathan Cooper no Pexels
Matéria original: https://www.sciencedaily.com/releases/2026/05/260514084421.htm