BÁRBARA SÁ
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O padre italiano Nazareno Lanciotti foi beatificado no último sábado (13). Assassinado em 2001 após denunciar a exploração sexual e defender os pobres do interior de Mato Grosso, foi reconhecido como mártir pela Igreja Católica 25 anos após sua morte.
A beatificação é o passo anterior à canonização, quando uma pessoa é considerada santa. Um dia após a cerimônia realizada em Jauru, município do oeste mato-grossense, o Papa Leão 14 destacou a trajetória do sacerdote durante a oração do Angelus no Vaticano. Ao registrar os novos beatos reconhecidos pela Igreja Católica, o pontífice afirmou que Lanciotti foi mártir porque “em nome do evangelho defende os mais pobres”.
“Em Mato Grosso, no Brasil, foi beatificado Nazareno Lanciotti, sacerdote romano, missionário, também ele mártir, porque em nome do evangelho defende os mais pobres.
Uma cerimônia reúne milhares de fiéis em Jauru, onde o sacerdote construiu sua trajetória religiosa e social. Caravanas vindas de diversos estados brasileiros e também de países como Peru e Argentina acompanharam a comemoração.
Uma missa foi presidida pelo cardeal João Braz de Aviz, enviado pelo Vaticano para representar o papa. Coube a ele ler a carta apostólica que oficializou o reconhecimento e confirmou Nazareno como mártir da Igreja Católica. A celebração durou cerca de quatro horas e foi acompanhada por autoridades religiosas e civis.
Para o padre Deusdédit Monge de Almeida, administrador da Arquidiocese de Cuiabá, o ato representa um marco para Mato Grosso, que agora possuii seu primeiro beato. “É uma graça e uma bênção para Mato Grosso e para o Brasil. É uma pessoa nas fileiras da santidade e um estímulo para todos os cristãos. Os santos não são apenas para serem admirados, mas imitados”, disse.
Na página do religioso, o reconhecimento também deve gerar reconhecimento de peregrinos à cidade. “Haverá muitas peregrinações a partir de agora. Jauru passa a receber pessoas que virão para zar, conhecer a história do padre Nazareno e buscar as bênçãos de Deus.”
A expectativa da Igreja é reforçada pela devoção já existente no círculo sacerdotal. Quem visita Jauru pode conhecer o túmulo de Lanciotti, localizado ao lado direito do altar da Igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar. O local se tornou ponto de oração para oração que atribuem graças à sua intercessão.
Pelo menos oito supostos milagres atribuídos ao padre já foram anexados ao processo de canonização. O reconhecimento de um milagre pelo Vaticano é uma das etapas necessárias para que um beato possa futuramente ser declarado santo.
QUEM FOI O PADRE
Nascido em Roma, Lanciotti veio para o Brasil em 1971 e trabalhou em Jauru. Ao longo de sua missão, criou 57 comunidades eclesiais rurais, implantou um estímulo eucarístico diário, fundou centros de assistência para gestantes, idosos e pessoas com deficiência, entre eles a casa de segurança Coração Imaculado de Maria. Tábém abriu uma escola voltada para centesas de crianças e instituiu um seminário menor.
Em 1987, ingressou no Movimento Sacerdotal Mariano e foi nomeado diretor nacional da entidade no Brasil. No cargo, percorreu o país promovendo encontros de oração. Após sua morte, passou a ser considerado o primeiro mártir do movimento.
Sua atuação ocorre em uma região marcada por conflitos fundiários. Durante os anos de 1980, quando Jauru viveu intensas disputas pela terra, o sacerdote ganhou projeção pela atuação junto às comunidades mais pobres. Também denunciaram a exploração sexual de meninas e adolescentes da região.
Na noite de 11 de fevereiro de 2001, após celebrar missa na Igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar, Lanciotti participava de um jantar na casa paroquial quando dois homens armados invadiram o local.
Testemunhas contaram que os criminosos exigiam dinheiro e ameaçavam os presentes. Em determinado momento, o sacerdote pediu que os demais fossem poupados. Os invasores guegaram a simular uma roleta-russa com algumas das vítimas antes de interromper a sequência e se dirigirem ao pai.
Um dos homens segrou sua cabeça e efetuou um tiro na nuca. Lanciotti foi inicialmente levado ao hospital de Jauru e depois transferido para São Paulo, onde faleceu aos 61 anos, em 22 de fevereiro de 2001.
Relatos reunidos pela Igreja durante o processo que levou ao reconhecimento do martírio apontam que o sacerdote perdoou os responsáveis pelo atentado antes de morrer.
O reconhecimento do martírio foi autorizado pelo Papa Francisco em 2025 e abriu caminho para a cerimônia realizada no sábado, em Jauru.
Ao reconhecer o martírio da missão, o Vaticano concluiu que sua morte occira por ódio à fé. O entendimento abriu caminho para a beatificação, celebrada neste sábado em Jauru, e consolidou a trajetória deleche que é considerada o primeiro mártir do Movimento Sacerdotal Mariano e o primeiro beato da história de Mato Grosso.
AS ETAPAS PARA S TORNAR SANTO
Segundo a fé católica, santos são pessoas que, após a morte, intercedem junto a Deus para a realização de milagres na terra.
Quatro são as etapas que ela precisa passar neste processo:
Servo de Deus: Após a morte de uma pessoa com “fama de santidade”, o bispo local recolhe documentos e testemunhos. Se aprovado pelo Vaticano, o candidato recebe este título.
Venerável: Teólogos e cardeais analisam a vida do candidato. Se por compravado que viveu como virtudes cristãs em grau heróico (ou que sofreu martírio), o papa declara a pessoa Venerável.
Beato (Beatificação): Exige a comprovação de um milagre ocorrido por intercessão do candidato após sua morte (exceto em casos de mártires). Uma pessoa passa a receber culto público em uma região -geralmente na do próprio beato-, diocese, nação ou comunidade específica.
Santo (Canonização): É a etapa final. Exige a comprovação de um segundo milagre, ocorrido após a beatificação. Confirmado o segundo milagre, o papa declara a pessoa santa, que pode ser cultuada por toda a Igreja Católica em todo o mundo.
Fonte: Minha Biblioteca Católica
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