Caro leitor, hoje o convido a caminhar por uma vereda quase apagada do tempo, onde ecoa o som seco da madeira contra o chão e sobrevivem os gestos de um ofício que o progresso quase silenciou. Falaremos dos tamanqueiros, artesãos da madeira e do ritmo, guardiões de uma profissão hoje rarefeita, envolta nas brumas da memória.
Nos finais do século XIX, quando as ruas ainda sentiam o peso lento das passadas e o tempo parecia obedecer ao compasso do trabalho manual, as profissões eram muitas e profundamente ligadas ao cotidiano. Entre elas estavam os tamanqueiros, homens que, munidos de ferramentas simples e de um saber transmitido pelo olhar e pela prática, transformavam pequenos troncos de madeira em tamancos, socos e chancas — calçados que protegiam os pés e, ao mesmo tempo, marcavam presença na vida social e cultural da comunidade.
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Em Paranaguá, esses calçados ultrapassavam a função utilitária. Ganhavam voz e ritmo no fandango, manifestação cultural que atravessa gerações e permanece como uma das mais vigorosas expressões da identidade caiçara. No chamado “Gambá”, dança ancestral do fandango, os tamancos produziam o som que guiava os passos, fazendo do corpo um instrumento e do chão um parceiro. Há quem diga que, em tempos imemoriais, esse mesmo movimento era usado para o descasque do arroz — não por acaso, em uma região litorânea que foi grande produtora desse grão, onde trabalho, dança e sobrevivência se confundiam.
No tablado do fandango, apenas os homens “batiam tamanca”, num ritual em que o compasso dos pés evocava força, pertencimento e memória coletiva. Ali, cada batida era também um gesto de continuidade, um elo entre os que vieram antes e os que ainda aprenderiam a ouvir o chão.
As mulheres, em outros tempos, também se apropriaram dos tamancos, seja na lida cotidiana, seja, séculos depois, como elemento de moda. Nos anos 1990, o calçado ressurgiu nos pés urbanos e, em 2025, retorna discretamente, quase como um sussurro do passado tentando se fazer ouvir novamente.
Hoje, os tamancos tornaram-se raros. Muitos jovens desconhecem sua existência, e poucos sabem do ofício que lhes deu forma. Ainda assim, os registros do recenseamento geral dos cidadãos do final do século XIX preservam os nomes daqueles que moldaram a madeira e, com ela, parte da nossa identidade.
Entre esses nomes está o de João de Paula Manso, conhecido como João Tamanqueiro. Nascido em 1837, em Paranaguá, filho de Francisco Paulo Manso e casado com Izabel de Paula Manso, foi homem de mãos hábeis e saber profundo. Em sua tamancaria, não produzia apenas calçados: perpetuava um modo de viver, uma tradição silenciosa, mas essencial.


Sua oficina situava-se na Rua XV de Novembro, esquina com a Ladeira do Mercado, e atendia pelo nome de Tamancaria Modelo. Ali, entre o cheiro da madeira recém-cortada e o som das ferramentas, resistia um saber que ajudava a sustentar o fandango, o cotidiano e a memória de toda uma cidade.
Preservar essas histórias é manter vivo o compasso da nossa cultura. É permitir que, mesmo quando os tamancos já não batem no tablado, o eco de suas tradições continue a nos ensinar quem somos.